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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— Acabo de estar com ella ; está talvez mais disposta e mais impaciente do que eu, porque essa declaração é de absoluta necessidade para a reparação do mal que ella fez. Mas ella acha-se nas extremas entre a vida e a morte ; não temos tempo a perder; avic se, que daqui a um instante chegará a sua cavalgadura, e de caminho lhe contarei toda ossa historia.

De feito; ernquanbo Frei João calcava suas botas pretas de couro de mateiro com esporas de ferro, e tomava o chapéo de feltro com abas largas, o pagem de Conrado chegava á porta do

convento trazendo pelas redeas um lindo cavallo escuro completamente ajaezado. O palafrem, posto que fosse mui bem doctrinado, era vivo e ardente.

O maldito! — gritou Conrado para o pagem, não te recommendei que trouxesses um animal bem manso?. .

— Pois este ainda é chucro? — perguntou soarindo o frade.

— Não, respondeo Conrado; mas é tão fogoso

— Não se importe com isso ; não sou tão máo cavalleiro como pensa.

E de feito o frade ganhou a sella com tal presteza e agilidade, e soube soffrear e dirigir o irrequieto animal com tal garbo e desembaraço, que faria inveja ao mais habil picador. A sotaina e o grande chapéo em nada prejudicavão á habilidade e gentileza do guapo cavalleiro.

Na verdade, — exclamou Conrado, va Rma é um homem admiravel; além de ser o ornamento de sua classe, tem as qualidades do homem do mundo mais amavel e elegante que se póde imaginar.

— Habito e natureza, meu caro, — respondeo o frade com volubilidade; sempre tive gosto pela equitação; a necessidade de viajar continuamente me tornárão perito na arte.

Puzerão-se a caminho. O leitor que já visitou S. Paulo sabe que o convento do Carmo acha- se situado na extremidade da cidade do lado opposto áquelle a que os dous cavalleiros tinhão de dirigir-se.

Tiverão pois de atravessar toda a cidade na melhor marcha de seus cavallos sem poderem conversar em razão do tumulto das ruas. Felizmente não era extensa o trajecto da então pequena cidade, e logo que transpuzerão a ponte do Macú, e penetrarão no bairro mais silencioso e deserto de Sancta Iphigenia, Conrado, retardando um pouco o passo do animal, começou a dar conta a Frei João do ponderoso motivo que o levára a chamal-o para aquelle mistér. Narrou-lhe com toda a sinceridade e franqueza, como si estivesse no tribunal da penitencia aos pés do confessor, os factos capitaes que o leitor já sabe e constituem o assumpto desta historia, sem preterir circumstancia alguma importante. Contou-lhe com toda a lhaneza o amor que desde a infancia concebera pela filha de seu antigo patrão; os esforços sobre humanos que fizera para tornar-se digno della; a falta em que a cegueiro do amor, e a imprudencia e ardor da mocidade o fizera incorrer; a invencivel obstinação, com que o philaucioso velho manteve-se na negativa, perseguindo-o por esse motivo encarniçadamente e ató ameaçando-lhea existencia, pelo que vio-se obrigado c retirar—se por longo tempo de S. Paulo sem poder ter a menor communicação com sua amante; a ignorancia, em que até aquella data estivera, da existencia de sua filha, facto de que só na vespera tivera conhecimento por intermedio de uma escrava, que por um feliz acaso o descobrira; como essa filha fôra bap— tizada como escrava pela mulher, que Frei João ia confessar, e nessa condição se achava até aquella data tendo sido ultimamente, por um estranho capricho da sorte, vendida á sua propria mãe.

— Agora, —- concluio Conrado, — já o meu amigo comprehende o alto interesse que ligo á confissão dessa desgraçada velha, que por grande favor do céo ainda encontrei viva, e o motivo, por que o procuro, não só como sacerdote, mas tambem como amigo a fim de coadjuvar-me no desempenho de uma missão, que é para mim um dever sagrado. Conto que não só nesta confissão, como em outros passos que terei de dar para ser reconhecida a verdadeira maternidade de Rozaura, o meu amigo não me recusará o auxilio de suas luzes e de sua influencia.

O frade ouvio a narração de seu amigo com a maior attenção, e apenas o interrompera poucas vezes com interjeições de interesse e de sorpreza.

Por indifferente que me fosse a pessoa que reclamasse de mim um serviço dessa ordem, respondeo Frei João, não me era licito recusal-o, quanto mais a um amigo a quem tanto desejo ser util. Na verdade, a historia, que acaba de contar-me, é um drama contristador, e contem as mais severas e terriveis lições. Ainda bem que com o favor de Deus tenho esperança de leval-o a um desfecho feliz e satisfactorio para todos. É ainda um episodio palpitante de interesse e de triste originalidade, que nos vem mostrar bem ao vivo os singulares e funestos resultados a que nos póde arrastar essa deshumana e degradante instituição da escravatura, que para vergonha nossa ainda subsiste no paiz.

(continua...)

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