Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Achava—se então em S. Paulo hospedado no Convento de sua ordem, um frade carmelita, por nome Frei João de Santa Clara, distincto por suas virtudes e seu grande saber. Pregador eximio e theologo profundo, este não tinha passado seus dias vegetando em piedoso ocio e pizando mansamente os sanctos ladrilhos com o breviario na mão á sombra das severas abobadas do claustro. Tinha percorrido quasi todas as provincias do Brazil, missionando já entre populações civilisadas, já entre aldêas de indigenas em serviço de catechese. Era tambem por vezes encarregado pelo Geral da Ordem de arduas e importantes commissões, e era em virtude de uma destas que se achava então em S. Paulo. Suas virtudes não consistião meramente na pratica desses exercicios asceticos, que seus confrades de ordinario tanto alardeão mais para se imporem á veneração do vulgo, do que por verdadeiro espirito de penitencia e mortificação. Tolerante, benevolo e affavel para com todos, nada tinha dessa exterioridade rispida e austera, que constitue o caracter essencial do frade. Era ameno e singelo na conversacão, e entregava-se sem escrupulo aos pra zeres licitos e compativeis com o seu estado. Pertencendo a uma importante e abastada familia da Bahia, renunciara a todas as vantagens que lhe propriconavão o nascimento e a fortuna, e tomára o habito em virtude de uma vocação sincera posta á prova por longo noviciado. Era portanto Frei João de Santa Clara um monge moldado pelo typo sublime dos Boaventura, Francisco-Xavier, Luiz de Gonza o a e Vicente de Paula.

A figura de Frei João estava em perfeita harmonia com sua natureza. Porte elevado, Lições correctas e suaves, physionomia nobre e expansiva, maneiras singelas, mas delicadas, um timbre de voz claro e sonoro tornavão-no um personagem altamente sympathico, que logo á primeira vista conquistava a effeição e respeito do todos. Todavia, não obstante a moderação e brandura de seu caracter, não lhe faltava energia e severidade, quando assim era mistér, quer na linguagem, quer nas acções. A edade de Frei João orçava então pelos quarenta e cinco annos, e tanto no porte como no semblante reunia ao viço e ao vigor da juventude, a gravidade e sisudeza da edade madura.

Quando Conrado esteve no Simorá, tambem ahi se achava Frei João missionando, e teve então aquelle occasião de travar relações com o carmelita, relações que em breve se converterão em laços de reciproca estima e amizade. Quando o frade chegou a S. Paulo, onde na época dos acontecimentos, que vamos narrando, se achava ha cerca de um mez, Conrado foi um dos primeiros que apressou-se em visital-o e offcrecer-lhc seu prestimo e seus serviços. Frei João folgou muito dc encontrar o seu joven conhecido c amigo de outrora cm tão prospera e brilhante posição, e como não tinha sinão mui poucas relações em S. Paulo, começárão ambos a frequentarem-se com assiduidade, e os laços da antiga amizade se reatárão talvez com mais força e intimidade ainda.

Nenhum sacerdote pois cstava em melhores condições para ser o confessor de Nha-Tuca, e auxiliar a Conrado no melindroso negocio em que se achava empenhado.

Além de ser homem de consummada prudencia e discreção, e um sacerdote respeitavel por possuir em gráo eminente todas as virtudes peculiares ao seu estado, era seu amigo.

Conrado apeou-se á porta do Convento do Carmo, subio ás escadas e foi direito á cella de Frei João. Não pense o leitor que os conventos em S. Paulo na época a que nos reportamos, erão ainda, como outr'ora, claustros ou mos teiros regulares, com bom numero de frades, com seu competente abbade ou prior, mantendo todo o rigor da disciplina monastica, psalmeando todos os dias em horas proprias matinas, laudes e vesperas. Não; já nesse tempo os dous conventos, que erão propriedade monacal, e creio que ainda o são os do Carmo e de S. Bento, erão apenas habitados por dois ou tres frades, servindo de guardiães a esses immensos edificios desolados, tristes e mergulhados em silencio tumular.

Esses frades tinhão tambem ás vezes por companhia algum estudante, que por escassez de meios ou por qualquer outro motivo lá era admittido por especial favor a partilhar o pão e o tecto das ricas confrarias. Portanto não se admire o leitor ao ver Conrado subir sem a menor cerimonia as escadas do convento e dirigir-se á cella que lhe era mui conhecida, occupada por Frei João.

Não causou estraheza ao frade o apparecimento inesperado de Conrado, que em razão da intimidade batia-lhe no aposento sem se fazer annunciar ; mas quando o mancebo lhe declarou o motivo que naquella occasião alli o trazia, e a natureza do serviço que vinha pedir-lhe, não deixou de ficar algum tanto sorprehendido.

Em casos taes, — disse elle, fosse quem fosse, que viesse reclamar de mim um tal serviço eu não saberia recusal-o. Mas, — continuou com sorriso quasi imperceptivel, ¯ permitta-me que lhe diga, meu amigo, ao que me parece, não é só espirito de caridade que o faz procurar-me com tanta soffreguidão, deixando em caminho o cura da freguezia, que é quem tem obrigação de acudir com os sacramentos, e tantos outros padres, que ahi os ha com fartura em uma cidade episcopal. Tendes talvez algum interesse particular nesse negocio, e eu não devo ignoral-o.

— Oh! sem duvida, e nem Cenho intenfio de occultal-o, respondeo Conrado com vivacidade, — a pressa é quo me não permitte explicar-me desde já. Tenho nessa confissão um interesse do mais subido alcance para mim. A velha tem de fazer uma declaração da qual depende o socego e felicidade de toda a minha vida.

Ah !... o negocio então é mais que serio. Pretendo por conseguinte exigir dessa mulher uma confissão publica.

— Sim, meu amigo.

E ella se prestará?,..

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2526272829...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →