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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— Porque não, meu senhor ! . . . nem ha cousa que eu mais deseje. Prouvera a Deus que eu pudesse desfazer assim todas as outras maldades que pratiquei ! . ah! meu Deos ! perdão! misericordia ! . .

— Pois bem ; até breve.

— Deus o acompanhe, e o traga a salvamento, meu senhor.

Ao sahir fóra da palhoça, Conrado consultou o relogio ; erão quasi duas horas,

— Temos ainda muito tempo, — pensou elle ; — ás quatro horas posso estar de volta aqui com o padre ; os dias são grandes ; das quatro até a noite tudo póde ficar arranjado, salvo si a velha expira antes disso.

Durante a visita, apezar da preoccupaçüo que lhe dominava o espirito, ou em razão dessa mesma preoccupagüo, Conrado examinado com attenção o estado da enferma e apezar de não ser medico, comprehendeo que elle era gravissimo, e que naquelle caso não havia mais cura possivel. Todavia reflectio que o estado de prostração em que a via, podia ser resultado não só da molestia, como tambem da inanição a que a tinha reduzido o abandono e privação absoluta, ha que a dois dias se achava condemnada. Si a deixasse naquelle desamparo, em que a tinha encontrado, corria risco de achal-a na volta sinão morta, pelo menos impossibilitada de fazer de modo intelligivel a declaração que era o alvo de todos os seus esforços. Montou a cavallo e parou de novo á porta da taverna do francez. Os freguezes, que alli encontrára, ainda lá se achavão a pé quêdo, esperando a sua volta.

— Então, meu amo, como vae a velha tinhosa? ainda o diabo não a carregou ? ousou perguntar um, a quem as excessivas libações tinhão tornado por demais desembaraçado.

Conrado franzio o sobrolho, e sem responder directamente á tão brutal pergunta, dirigindo-se a todos exprobrou-lhes sem aspereza nem grosseria, mas em termos ener— gicos e severos, sua deshumanidade para ccli) aquella desgraçada mulher, fazendo-lhes ver que não era proprio de chrjstños deixar morrer á mingoa e ao desamparo uma creatura humana, por meis perversa que tenha sido em sua vida. A molestia, a edade, o sexo e a extrema pobreza- em que vivia e ia morrer, erão bastantes para seu castigo, e a tornavào digna da commiseração de todo o mundo. Aquelles que assim a maltratavão, tornavão-se tão bons como ella e dignos da mesma sorte.

Os caipiras, ouvindo as palavras severas, mas cordiaes e sensatas do mancebo, sentirão mais compuncção e arrependimento do que se ti-vessem escutado as ameaçadoras vociferações do mais rochenchudo e atrabilario capuchinho. Procurarão desculpar-se com a reputação de que gozava a velha, de ser brucha, feiticeira, e de ter pacto com o diabo; mas emfim todso voltárão-se ás boas com o gentil e generoso cavalleiro, que os affagou com uma generosa molhadura, pedindo-lhes que não continuassem a ter em tão má conta uma pobre mulher velha, que estava ás portas da morte. Todos protestarão quo não continuario a ter o mesmo procedimento, declarando-se promptos a fazer tudo que Conrado determinasse.

Conrado chamou de parte o francez, dono da taverna, e dando-lhe uma somma de dinheiro mais que sufficiente, pedio-lhe que acudisse de prompto á doente com algum cordial ou algum caldo, que a confortasse, visto que ella estava morrendo mais de fraqueza e inanição do que mesmo da doença. Recommendou-lhe lambem que mandasse immediatamente varrer e aceiar a immunda pocilga, em que jazia a misera velha, e collocar lá duas outras cadeiras ou tamboretes, porque dentro de duas horas ao mais tardar tinha de voltar com um padre para ouvil-a de confissão.

Tenha paciencia, — disse elle ao tavernoivo ; — não se poupe a despeza nem a trabalho, que tudo hei de remunerar generosamente, e além disso lhe ficarei tão agradecido por tudo que fizer por essa mulher, como si fosse um serviço feito a mim proprio.

O francez comprometteo-se de bom grado a cumprir tudo que Conrado lhe recommandára. O interesse que aquelle rico e distincto cavalleiro tomava pela pobre e desgraçada velha, lhes excitando altamente a curiosidade, os dispunha tambem a secundal-o em tão louvavel e caridoso empenho.

Conrado agradeceo, e tocou a galope para a cidade.

CAPITULO XII

Frei João de Sta-Clara

Conrado, chegando á cidade, apenas parou um momento á porta de sua casa para dar ordem a seu pagom de sellar o animal mais manso que houvesse na cocheira, e leval-o immediatemente ao convento do Carmo, onde ia esperal-o.

(continua...)

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