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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Si não fosse o poderoso incentivo, que alli o levava, Conrado teria recuado diante de tão lastimoso e repulsivo quadro, e deixando uma generosa esmola á cabeceira da enferma ter-seia retirado immediatamente, Mas era instigado

por um motivo imperioso, pelo qual affrontaria mesmo todos as tramas e perigos, por mais temerosos que fossem.

— O senhor, quem quer que é, póde chegar, — disse com voz rouca e arquejante a infeliz velha, vendo Conrado parar ao limiar da entrada do quarto. — Não tenha susto ; eu sou uma pobre velha desgraçada, que em castigo de meus pcccados aqui vivo a penar desamparada por todos, e morrendo aos poucos no fundo desta cama. .. Senhor meu, tenha piedade desta pobre velha... foi Deus, quem o mandou aqui... Ha dous dias, que aqui não vem creatura viva nem para me dar um golo de agua pelo amor de Deus.

Apezar do exterior repugnante da velha, e do crime inqualificavel, de que era responsavel para com elle, Conrado não poude deixar de apiedar-se do estado de profunda miseria e desamparo, em que jazia aquella desg'raçada creatura, e exprobrou no intimo d'alma a dureza dos vizinhos que tão deshumanamentc assim a deixavão perecer.

— Sim, minha velha, respondeo elle avizinhando-se do leito ; — eu me compadeço sinceramente de sua disgraça, e é por isso que venho hoje aqui com disposição de procurar allivio a seus soffrimentos, e prestar-lhe todos os soccorros de que necessitar.

— Ah ! meu senhor ! Deus lhe dê muita saude e largos annos de vida ! Eu estou já com os pés na sepultura, e bem pouca cousa posso precisar neste mundo. O de que mais preciso é que Deus me perdoe os muitos e enormes peccados que commetti em minha vida. Ah ! meu Deus ! . . . quem me dera um padre para me confessar !

— Por esse lado socegue seu coração ; hoje mesmo lhe hei de trazer um padre, e estou prompto a fazer tudo o mais que a senhora exigir para allivio de seus soffrimentos e socego de sua consciencia.

Oh ! meu senhor ! .., meu bemfeitor ! . . . Deus lhe dará o pago por essa obra de caridade.

— Sim, mas quero tambem da senhora uma recompensa, que lhe é muito facil, e da qual depende todo o socego e felicidade de minha vida. Quero lhe pedir um favor. ..

— A mim, meu senhor ! . . . que favor l! posso eu fazer, eu pobre velha desvalida, com os pés na sepultura?...

— Eu lh'O vou dizer já sem mais rodeios, porque não devemos perder tempo. A senhora commetteo na sua vida um acto altamente criminoso, cujo segredo não póde levar para a sepultura sem causar a desgraça de toda a minha vida e a da innocente victima desse acto execrando. Não se lembra ?

— Ah ! meu Deus eu pratiquei tantas acções ruins qual dellas será ! . . .

— Eu lhe vou avivar a memoria. Não se lembra de que na noite de vinte e quatro para vinte e cinco de novembro, fazem agora justamente quatorze annos, — amanheceo exposta na porta de sua casa uma menina recém-nascida?...

Oh ! si me lembro ! meu Deus ! meu Deus ! e com que remorsos ! . . . é por essa e por outras muitas maldades, que pratiquei, que hoje me acho aqui penando desta maneira, ai ! meu Deus, e sem ter um confessor !...

— Tenha paciencia ; o confessor ha de vir. Agora conte-me com franqueza e verdade o que é feito dessa creança? A justiça humana já nada tem que ver com a senhora ; é perante o tribunal divino que em breve lalvez terá de responder. Si não confessa o seu crime a fim de remediar o mal immenso que fez, e que até hoje pesa sobre essa infeliz creatura, não póde esperar salvação para sua alma.

— Graças, meu Deus ! mil graças vos sejão dadas ! — exclamou a velha, levantando ao céo as descarnadas mãos, e exhalando um forte suspiro, com que parecia alliviar o coração de um peso enorme, que o opprimia. — Graças a Deus que em minha ultima hora me permitte desmanchar o mal que fiz. Meu senhor, pelo amor de Deus, perdoe-me ; minha vida foi toda um tecido de perversidades. Essa menina não morreo, como eu fiz acreditar. Nessa mesma noite em que ella appareceo engeitada á porta de minha casa, uma mulata, minha escrava, tinha tido uma creança, que morreo logo depois de nascida, e eu. . . meu Deus ! . . . que vergonha ! que abominação ! . .

— Diga, diga tudo, senhora, instou Conrado. — É preciso que não occulte nada para descargo de sua consciencia e para se poder remediar o mal que fez.

— E eu fiz baptisar a engeitada como filha da escrava, e fiz constar que a engeitada é que tinha morrido. — E que nome deo á menina?

— Rozaura.

— E depois vendeo-a, não é assim? É verdade, meu senhor.

— E a quem vendeo-a ?

— A um senhor Bazilio, morador na rua do Tabatinguera.

— Justamente ! é ella ! — exclamou Conrado com intimo e profundo jubilo. — Não se póde mais oppôr a minima duvida a respeito da origem de Rozaura. Estou satisfeito, senhora; eu vou neste mesmo instante buscar um padre para ouvil-a de confissão, e tambem mandar-lhe alguns meios de tratar-se. Em menos de duas horas estarei de novo aqui ccrm o padre e mais duas pessoas, porque me é de absoluta necessidade, que a senhora repita diante de testemunhas a confissão que acaba de fazer-me em particular, para conseguir a liberdade da menina, que a senhora condemnou á escravidão. Está disposta a isso. minha senhora ?

(continua...)

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