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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

tecto tinha desabado, as cercas estavão arrombadas, e o abandono, a solidão e a tristeza reinavam naquelle sitio, que outróra fôra uma vivenda tão ruidosa, alegre e animada. A casa de Nha-Tuca era erma tapéra, onde não se via viva alma, a quem se pudesse dirigir qualquer pergunta. A tal espectaculo um frio e angustioso desalento se apoderou do coração de Lucinda, que quasi desfalleceo. Sentou-se á l)eira da estrada em frente das ruinas, e poz-se a reflectir. Lembrou-se de que a uns quinhentos passos mais ou menos pela estrada adiante havia tambem á beira do caminho a casa do um francez, que tinha negocio. Era o vizinho mais proximo de Nha-Tuca, e devia saber qual tinha sido o destino dessa mulher. A casa tinha sido queimada, não havia duvidar; mas isso não queria dizer que a dona tambem já não existisse. Lucinda reanimou-se de um resto de esperança, levantou-se e poz-se a caminhar para diante. Como era domingo, á porta da taverna do francez havia numeroso concurso de gente. Erão de dez para onze horas; grande numero de caipiras da vizinhança, que já tinhão ouvido missa, uns na cidade, outros na capella de Nossa Senhora do Ó, alli se achavào a palestrar e a molhar a guela para empurrar o domingo, conforme a phrase vulgar.

— Bom ! — murmurou Lucinda comsigo. — No meio de tanta gente é impossivel que não haja alguem que me saiba dizer o que é feito de Nha-Tuca.

Dirigio-se pois resolutamente para a venda, comprou uma quitanda, bebeo um golo de vinho para cobrar alento, e depois, dirigindose aos circumstantes com uma hesitação e receio facil de comprehender-se, mas difficil de explicar-se :

— Mecês não me saberão dizer, — perguntou ella, — que fim levou uma mulher velha, que morava aqui para atráz, chamada Nha— Tuca

A companhia, que alli se achava, trazia já a cabeça bastante aquecida pelos frequentes tra— gos, com que no correr da conversação ião molhando a palavra. A pergunta de Lucinda portanto, em vez de obter resposta, foi rccebida entre mil risadas e apodos zombeteiros, que confundirão e desorientarão completamente a pobre preta.

— He ! ha! minha tia ! pois tu ainda perguntas por essa brucha esconjurada! dizião

— Cruz! arreda daqui, rapariga; só o nome dessa mulher traz máo azar; vou-me embora.

— E eu tambem ; já a pinga que tomei, está me fervendo na garganta sb de ouvir esse nome. Antes o diabo me appareça.

— Quem sabe, minha tia, si mecê tambem é do rodinha das pretas feiticeiras, que moravão com essa velha de uma figa?

— Eu não! Cruz Ave Maria! — exclamou Lucinda espavorida.

— Pois então que diabo de negocio tens com essa carcassa excommungada, de que ninguem quer ouvir nem o nome?

— Ué ! meu branco. ... conheci ella n'outro tempo! agora estou perguntando; que mal faz isso?. ..

— Não passaste pela casa della ahi na estrada ?

— Passei, senhor sim ; mas a casa está toda queimada, e lá não encontrei viva alma.

— A casa ardeo ha de haver tres para quatro annos. Assim tambem dcve arder a dona nas caldeiras do cão tinhoso.

— Então ja morreo?! exclamou Lucinda transida de susto. A boa preta interessava-se pela vida dessa mulher perversa c detestada, como si ella lhe fôra mãe idolatrada,

Não sei, nem quero saber, — respondeo o caipira sem reparar na cornmoção de Lucinda. — Si não deo ainda, não tardará muito em dar a alma ao diabo que a carregue.

Mas emfim... balbuciou Lucinda.

— Mas emfim, interrompeo o interlocutor, — si quer saber mais alguma cousa, vá acolá naquella casinha; não está vendo? é lá que a brucha mora, si é que o diabo ainda não a carregou.

Dizendo isto, o homem apontava para um miseravel casebre, coberto de capim, que se avistava a uns trezentos passos de distancia, e algum tanto arredado do caminho.

— Ali, meu Deus ! naquelle pobre ranchinho! — exclamou Lucinda. — Coitada! ella que era tão bem arranjada como são as cousas deste mundo!

— Cala-te dahi; si tu a conhecesses melhor não estavas ahi com tanta pena della. Ou és da mesma laia, ou não conheces bem a tal brucha.

— Mas eu desejava tanto saber si ainda é viva.

Pois vá lá saber, — respondeo brutalmente o interlocutor.

— Mas olha que não te agarre ellas pelas orelhas, e não te leve comsigo para os infernos, — accrescentou outro caipira.

Atarantada com tantas chufas, e apavorada com o medonho retrato que fazião de NhaTuca, a pobre Lucinda não sabia o que devia acreditar, nem o que devia fazer. Bem via que aquella gente estava toda com a cabeça esquentada com as amiudades libações alcoolicas, e que todos aquelles ditos contra a pobre velha poderião não ser mais que meros gracejos inspirados pela bebida; mas por outro lado a antiga casa de Nha-Tuca, que acabava de ver cm ruinas e quasi toda devorada pelo incendio, e o miseravel ranchincho que lhe estavão mostrando como sua nova vivenda, tornavão mais que provavel o que estavão dizendo os caipiras. Esteve por algum tempo em estado de hesitação olhando para a casinha como querendo resolver-se a lá ir; mas faltava-lhe o animo.

(continua...)

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