Por Machado de Assis (1878)
Valéria não ocultou seu contentamento. Não lhe tinha ocorrido nunca a idéia de os casar; Iaiá fê-la nascer, Estela abriu-a em flor; só faltava o fruto, e era justamente a parte difícil, porque a índole de Luís Garcia afigurava-se-lhe inteiramente avessa ao desejo de contrair segundas núpcias. Mas Valéria não desanimou. Não se pode dizer que ele seja o ideal de todas as noivas, pensava ela; não tem a expansão nem o verdor da primeira idade; mas deve ser um excelente marido. Luís Garcia tinha agora melhor posição. Obtivera uma promoção de emprego, e mediante isso, e alguns trabalhos extraordinários que lhe eram confiados, pôde ficar inteiramente acoberto das intempéries da vida. Estabelecera o futuro da filha e restaurara as alfaias da casa, não por si, mas com a intenção de ser mais agradável a Iaiá.
Estela, entretanto, impunha uma condição.
— Não desejo parecer que me ofereço, disse ela; seria desairoso para um e para outro, e não seria a realidade.
— Que te ofereces, não; mas quem me pode impedir de ter adivinhado que o amas? disse a viúva maliciosamente.
— Ou que o aprecio, emendou Estela. Para um bom casamento não é preciso mais.
Luís Garcia não ficou pouco admirado quando Valéria daí a dias lhe perguntou se não tinha vontade de passar a segundas núpcias. Sorriu e ergueu os ombros; mas, insistindo a viúva, respondeu que a idéia de casar era já serôdia para ele.
— Não diga isso, tornou Valéria. Iaiá está quase moça, vai deixar o colégio. O senhor vive só, e tendo de dar companhia à sua filha, é melhor que lhe dê uma madrasta.
Luís Garcia abanou resolutamente a cabeça.
— Não tenho vocação para o casamento, disse ele depois de uma pausa; minha verdadeira vocação é o celibato.
— Foi por isso que enviuvou?
— Casei-me uma vez, é verdade, mas não foi por amor; além de que, era rapaz.
— Quando teimo em alguma cousa, é difícil que não vença, disse a viúva depois de alguns instantes. Há duas pessoas de quem gosto muito, ela e o senhor, ambas dignas uma da outra; e eu entendi que as devia casar, e hei de casá-las. Por que está a sorrir com esse ar incrédulo?
Como Luís Garcia não respondesse e continuasse a sorrir, Valéria ergueu-se e foi até a varanda; donde se olhava para a chácara; depois voltou-se para dentro:
— Ande ver sua noiva, disse ela.
Luís Garcia foi até a varanda; a viúva apontou-lhe para o grupo de Estela e Iaiá.
Na chácara havia um canteiro circular, plantado de grama, no centro do qual jorrava a água de um repuxo. A bacia deste era orlada de plantas, cujas folhas largas, rajadas umas de escarlate, outras de branco, interrompiam a monotonia da relva. Dessas folhas colhera Estela algumas, entretecera os talos formando uma capela, a pedido de Iaiá. Quando Luís Garcia chegou à janela, a moça concluía o difícil trabalho. Uma vez pronto, Iaiá que olhava para ela, infantilmente ansiosa, inclinou a cabeça, e Estela cingiu-a com a grinalda rústica; depois recuou alguns passos, aproximou-se outra vez, concertou-a melhor. As folhas caíam-lhe sobre os ombros irregularmente, ou erguiam-se sobre a cabeça, e o todo daria idéia de uma náiade casquilha. Estela mirou-a alguns instantes; inclinou-se para ela e beijou-a repetidas vezes. Iaiá quis pagar-lhe o trabalho e a carícia devolvendo-lhe a grinalda, e colocando-lha ela mesma na cabeça. Estela recusou, mas como a menina insistisse, batendo impacientemente o pé, cedeu ao desejo infantil. Inclinou-se; Iaiá, que trepara a um banco, cingiu-lhe a cabeça, como a outra lhe fizera, e, satisfeito o seu capricho, saltou do banco ao chão.
Nesse momento, como Valéria falava a Luís Garcia, não viram estes dous que a menina, saltando precipitadamente e mal, caíra na areia; só deram pelo desastre ouvindo um pequeno grito angustioso de Estela. A moça correra à menina para a fazer levantar. A queda fora pequena; Iaiá procurava sorrir, mas um seixo que havia no chão, e sobre o qual caíra o rosto, fizera-lhe uma leve escoriação na face.
— Não foi nada, dizia ela.
— Nada! Você feriu-se... Ora, isto! Papai que há de dizer... Anda cá.
Estela levou a menina pela mão até o repuxo; molhou o lenço na água; lavou-lhe o sangue da face, inclinada sobre ela, que sorria voluntariamente. Nesse momento, Luís Garcia, que havia descido logo, chegou ao grupo das duas. — Não foi nada, papai, disse Iaiá lendo no rosto do pai o motivo que o trouxera; fui pular do banco e caí. Foi bem feito; é para eu não ser travessa.
Luís Garcia estendera a mão direita sobre a cabeça da filha e examinava-lhe a escoriação, que era pouco mais de nada. Tranqüilizou-se e repreendeu-a levemente. Estela, que interrompera a operação, concluiu-a dizendo que o caso era de pouca monta, mas podia ter sido mais grave. Luís Garcia agradeceu-lhe o cuidado e o obséquio. — Demais, a culpada fui eu, disse Estela, e sem desculpa, porque não sou criança. Vamos? continuou ela pegando na mão da menina.
— Então? perguntou a viúva a Luís Garcia logo que este voltou a ter com ela.
— Não falemos nisso, ou faça-me um milagre, disse ele secamente.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.