Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— Tanto quanto se póde estar certo de uma cousa evidente e incontestavel. Á maternidade é cousa que não se póde pôr em duvida.

— Pôde-se muito, e hei de provar que a verdadeira mãe de Rozaura não é essa que se lhe attribue, não é essa escrava de Nha-Tuca, mas uma mulher livre

— Mas quem lhe disse isso? quem é essa mulher ?...

— Ah! senhor Moraes praza ao céo que ve ss sempre ignore quem é ella?...

— E por que razão? que quer dizer isto, senhor? não me explicará 'P

— Nada, senhor Moraes; são lembranças tristes, que me attribulão o espirito, — respondeo Conrado arrependido da exclamação, que lhe escapára. Mas emfim, como de fórma alguma quer acceder aos desejos, não quero importunal•o por mais tempo, e vou tratar da liberdade de minha filha pelos meios a meu alcance.

— Faça o que entender, replicou seccamente Moraes.

E esses dous homens, que ha pouco se tinhão comprimentado com frieza e indifferença, despedirão-se agora em tal tom de máo humor e desabrimento, que fazia presagiar entre elles a mais pertinaz e encarniçada luta.

Conrado voltou para a casa summamente contrariado e afflicto com as formaes e terIninantes negativas de Moraes. Não obstante o tom de seguridade com que fallára a este, não deixava de nutrir serios receios a respeito da possibilidade de provar a condição livre de Rozaura. A sua principal esperança repousava sobre a existencia dessa mulher, que a tinha reduzido á escravidão, e da qual espeava arrancar com promessas ou ameaças a confissão de seu crime. As outras provas que podia adduzir, não constituião sinão presumpções, em verdade mui vehementes, mas que podião ser contestadas e infirmadas vantajosamente. O Signal que Rozaura tinha no peito, bem podia ser uma coincidencia devida ao acaso, e demais allegadD por uma simples escrava pouco valor podia ter, até mesmo poderia ser considerado como mero embuste de sua invenção para favorecer sua companheira de captiveiro. A semelhança que se notava entre as feições de Adelaide e de Rozaura, era uma circumstancia, em que nem de leve pretendia tocar, uma vez que pudesse obter o reconhecimento da liberdade de sua filha sem declarar sua maternidade, e por consequencia sem comprometter a reputação de Adelaide. O facto de ter nascido uma creança escrava no mesmo dia e na mesma casa, em que morria uma engeitada tamioem não autorizava a assacar contra uma pobre velha a imputação do hediondo crime de ter substituido pela engeitada a creança morta. Era preciso um depoimento formal de qualquer testemunha insuspeita, que confirmasse as fortes presumpções resultantes de todas estas circumstancias . A unica pessoa, talvez, que á excepção de Nha-

Tuca, poderia depor sobre o facto com plena sciencia e consciencia, era a supposta mãe de Rozaura ; mas essa ha muito tempo já não existia.

Conrado avaliava em seu espirito todos esses prós e contras, e dando talvez a estes maior peso o valor do que realmente mereciño, aflli— gia-se em extremo mas não sem fundamento, porque si já não existisse a velha Nha-Tuca, o negocio do reconhecimento de Rozaura como livre de nascimento difficilmente poderia ser encaminhado com esperança de exito feliz. Ora nada era mais natural e mesmo provavel do que o facto de já ser fallecida aquella mulher, que, segundo lhe dissera Lucinda, ha quatorze annos já era velha e adoentada,

Emquanto Conrado espera com a mais viva impaciencia a hora em que a velha escrava tem de vir dar conta de sua commissão, acompanhemo-la nos passos que deo para desempenhal-a.

CAPITULO X

Estará viva ou não ?

Emquauto Conrado sofrego e ancioso dava estes passos na cidade, não menos solicita e inquieta andava a boa Lucinda lá pelos lados da freguezia de Nossa Senhora do O. Nessa manhã, como promettera, foi a Sancta Iphigenia, onde ouvio missa ás nove horas, e dahi seguio em marcha a mais accelerada que lhe foi possivel, pela estrada de Jundiahy. Não tomou pelo caminho da chacara do major; nada tinha lá que fazer; continuou direito pela estrada real até a altura, que era bem conhecida, onde existia a casa de Nha-Tuca. Não é possivel explicar qual foi o seu espanto e consternação, quando ao chegar alli não avistou sinão ruinas. Da casa não restavão sinão os esteios carbonisados e algumas paredes derruidas; o

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1920212223...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →