Por Bernardo Guimarães (1883)
— Pobresinha ! reflectio comsigo Conrado. — Era presciso ter alma bem negra para reduzir á escravidão e á orphandade uma tão linda e interessante creatura, que aliás nasceo livre e ainda tem o pae e a mãe vivos !
Moraes escutava com especial desagrado e estranheza este interrogatorio, do qual não podia comprehender a importancia, nem o alcance.
— Senhor Moraes, disse Conrado voltando-se para elle, — estou satisfeito e ficolhe obrigado. Pelas perguntas, que fiz, e pelas respostas, que a menina me deo, fico sufficientemente inteirado do que me convinha saber. Póde mandal-a retirar-se.
Senhor Moraes, — continuou elle depois
—- tenho o maior emque Rozaura se retirou, penho em libertar esta menina: já lhe disse que não recuo diante do preço, pop exagerado que seja. Creio tambem que va nenhum interesse pôde ter em conserval„a no captiveiro, e que tem alma bastante nobre e generosa para não desejar ver por mais tempo em tão aviltante condição uma menina tão linda e tão digna de melhor sorte. E a mesmissima rapariga que eu suppunha, e tenho motivos muito particulares e poderosos para tratar de sua liberdade.
Si va sa, — respondeo seccamente Moraes. , — tem motivos poderosos para querer libertar essa rapariga, eu tambem os tenho e muito poderosos para não cedel-a por preço nenhum. Demais fique, va Sa sabendo que embora seja ella escrava é tratada com toda a brandura e carinho, como si fosse uma filha. Tambem nós prétendemos dar-lhe a liberdade; mas é cedo ainda ; Rozaura é muito creança; precisa ainda ser vigiada e educada, e está em nossa casa como si fosse nossa tutellada.
— Pois bem, senhor Moraes; fico sciente de quaes sejão os motivos, por que não quer ceder-me a menina ; concordo que não deixão de ser poderosos, e mesmo não duvido que Vª Sª se acha possuido das melhores intenções a respeito dessa escrava; mas eu tenho uma razão muito mais attendivel e muito poderosa que qualquer outra, e diante da qual espero que sa , si é homem de bem e de consciencia, como creio, não hesitará um só momento em satisfazer o meu desejo.
— Eu ! . . . talvez... mas não comprehendo, que possa haver essa razão tão forte ; . .
— É muito simples ; e para que não pense que sou levado a dar este passo por algum motivo menos nobre e honesto, aqui lhe declaro immediatamente e sem rebuço : sou pae de Rozaura.
va pae de Rozaura ! exclamou Moraes atonito e desconcertado, com esta brusca e inesperada declaração. É possivel, mas... é bem difficil de acreditar-se.
Ve duvida Q pois saiba que não tenho o costume de mentir, nem mesmo em cousas triviaes, quanto mais quando se trata de negocio tão serio, — replicou Conrado assumindo um tom de voz e uma attitude grave e imponente.
— Sim! bem póde ser, — disse Moraes balbuciando. Nada mais natural, e mais commum, do que... a gente. . . ter filhos naturaes, mesmo com escravas; mas va poderá provar...
— Posso.
— Pois bem; mesmo que o prove, que direito lhe assiste para exigir de mim a entrega de sua filha, que é minha escrava? . . .
A estas palavras os olhos de Conrado se incenderão em subitos lampejos de indignação e cólera. — Sua filha, que é minha escrava ! . . . esta phrase cruel doeo-lhe mais que o mais pungente e feróz insulto, e- atravessou-lhe o coração como lamina de ferro em braza. Entretanto, uma simples declaração lhe era bastante para fulminar alli mesmo o orgulhoso senhor que usava para com elle de semelhante linguagem. Forçoso porém lhe era por emquanto sopear os impetos de sua indignação ; não devia e nem convinha fazer essa declaração sinão em ultimo caso, e quando já tivesse provas irrefragaveis para confirmal-a.
— Julguei que va fosse mais razoavel, senhor Moraes, — retorquio Conrado refreando a custo sua colera. Mas já que a declaração que acabo de fazer-lhe, de que essa menina é minha filha, não é bastante para fazel-o largar mão della, fique sabendo mais que a essa rapariga, que tem como escrava, nasceo livre, de pae e mãe livres, e que não foi sinão em consequencia de uma execranda e infernal machinação que ella desde a infancia se acha reduzida a essa triste condição; o que tudo osso e hei de provar. va não quer cedel-a por dinheiro; bem pois ver-se-ha obrigado a entregal-a sem indemnisação alguma.
— Isso é que eu duvido, senhor Conrado; a descendencia dessa rapariga é conhecida c notoria, como ve acaba de ouvir da bocca della mesma. E' filha de uma mulata já fallecida, que era escrava de uma senhora por nome Gertrudes, pessoa que eu mesmo conheci, e que é geralmente conhecida pelos habitantes de S. Paulo, e que talvez ainda exista para confirmar o que digo.
— Deus assim o permitta, murmurou Conrado.
Quanto ao pae, continuou Moraes pouco nos importa saber quem elle foi, por que como va de certo não ignora partus ventrem sequitur, — a cria segue a condição da mãe.
— Sei bem disso, senhor Moraes ; mas va S a está bem certo de que Rozaura é réalmente filha dessa mulata escrava, pertencente á tal Nha-Tuca?..
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.