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#Romances#Literatura Brasileira

Esaú e Jacó

Por Machado de Assis (1904)

—Mamãe, Paulo é mau. Se mamãe ouvisse os horrores que ele solta pela boca fora, mamãe morria de medo. Custa-me muito não ir à cara dele; ainda lhe não tirei um olho...

—Meu filho, não fales assim, é teu irmão.

—Pois que não se meta comigo, não me aborreça. Que blasfêmias que ele dizia! Como eu rezava por alma de Luís XVI, ele para machucar-me bem, rezava a Robespierre; compôs uma ladainha chamando santo ao outro e cantarolava baixinho para que papai nem mamãe ouvissem. Eu sempre lhe dei alguns cascudos...

—Aí está!

—Mas é que ele é que me dava primeiro, porque eu punha orelhas de burro em Robespierre... Então, eu havia de apanhar calado?

—Nem calado, nem falando.

—Então, como? Apanhar sempre, não é?

—Não, senhor; não quero pancadas; o melhor é que esqueçam tudo e se queiram bem. Você não vê como seus pais se querem? As brigas acabaram de todo.

Não quero ouvir rusgas nem queixas. Afinal que têm vocês com um sujeito mau que morreu há tantos anos?

—É o que eu digo, mas ele não se emenda.

—Há de emendar-se os estudos fazem esquecer criancices. Você também quando for médico tem muito que brigar com as moléstias e a morte — é melhor que andar dando pancada em seu irmão... Que e lá isso? Não quero arremessos, Pedro! Sossegue, ouça-me.

—Mamãe é sempre contra mim.

—Não sou contra nenhum, sou por ambos, ambos são meus filhos. E demais gêmeos. Anda cá, Pedro. Não penses que eu desaprovo as tuas opiniões políticas. Até gosto e são as minhas, são as nossas. Paulo há de tê-las também. Na idade dele aceita-se quanta tolice há, mas o tempo corrige. Olha, Pedro, a minha esperança é que vocês sejam grandes homens, mas com a condição de serem também grandes amigos.

—Estou pronto a ser grande homem, assentiu Pedro com ingenuidade, quase com resignação.

—E grande amigo também.

—Se ele for, serei.

—Grandes homens! exclamou Natividade, dando-lhe dous abraços, um para ele, outro para o irmão quando viesse.

Mas Paulo veio logo, e recebeu o abraço inteiro e de verdade. Vinha também queixar-se, e sempre resmungou alguma cousa, mas a mãe não quis ouvi-lo, e falou outra vez a linguagem das grandezas. Paulo consentiu também em ser grande.

—Você será médico, disse Natividade a Pedro, e você advogado. Quero ver quem faz as melhores curas, e ganha as piores demandas.

—Eu, disseram ambos a um tempo.

—Patetas! Cada um terá a sua carreira especial, a sua ciência diferente. Já estão curados do nariz? Já; não há mais sangue. Agora o primeiro que ferir seu irmão será degradado.

Foi um recurso hábil separá-los; um ficava no Rio, estudando Medicina, outro ia para São Paulo, estudar Direito. O tempo faria o resto, não contando que cada um casava e iria com a mulher para o seu lado. Era a paz perpétua; mais tarde viria a perpétua amizade.



CAPÍTULO XXVII

DE UMA REFLEXÃO INTEMPESTIVA



Eis aqui entra uma reflexão da leitora: "mas se duas velhas gravuras os levam a murro e sangue, contentar-se-ão eles com a sua esposa? Não quererão a mesma e única mulher?"

O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capítulo do amor ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros. Daí a habilidade da pergunta, como se dissesse: "Olhe que o senhor ainda nos não mostrou a dama ou damas que têm de ser amadas ou pleiteadas por estes dous jovens inimigos. Já estou cansada de saber que os rapazes não se dão ou se dão mal; é a segunda ou terceira vez que assisto às blandícias da mãe ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor, às duas, se não é uma só a pessoa..."

Francamente eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito com método. A insistência da leitora em falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Suponha que eles deveras gostem de uma só pessoa; não Parecerá que eu conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que sucedeu e pode ser confirmado por dezenas de testemunhas? Não. senhora minha, não pus a pena na mão, à espreita do que me vissem sugerindo. Se quer compor o livro, aqui tem a pena, aqui tem papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler somente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe que boceje entre dous capítulos. mas espere o resto. tenha confiança no relator destas aventuras.



CAPÍTULO XXVIII

O RESTO É CERTO



Sim, houve uma pessoa, mais moça que eles, um a dous anos, que os agrilhou, à força de costume ou de natureza, se não foi de ambas as cousas. Antes dessa, pode ser que houvesse outras e mais velhas que eles, mas de tais: não rezam as notas que servem a este livro. Se brigaram por elas, não ficou memória disso, mas é possível, dado que tivessem tido as mesmas preferências; no caso contrário também, como sucedia aos cavaleiros que defendiam a sua dama.

(continua...)

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