Por Machado de Assis (1876)
MAGALHÃES — Não, porque nunca lá foi.
D. LEOCÁDIA ( a d. Adelaide) — Mau! seu marido parece que também está virando o juízo. (a Magalhães) Conhece então o Peru, como vocês estão conhecendo a Grécia... pelos livros.
MAGALHÃES — Também não.
D. LEOCÁDIA — Pelos homens?
MAGALHÃES — Não, senhora.
D. LEOCÁDIA — Então pelas mulheres?
MAGALHÃES — Nem pelas mulheres.
D. LEOCÁDIA — Por uma mulher?
MAGALHÃES — Por uma mocinha, filha do ministro do Peru em Guatemala. Já contei a história a Adelaide. (d. Adelaide senta-se folheando o livro de gravuras).
D. LEOCÁDIA, senta-se — Ouçamos a história. É curta?
MAGALHÃES — Quatro palavras. Cavalcante estava em comissão do nosso governo, e freqüentava o corpo diplomático, onde era muito bem-visto. Realmente, não se podia achar criatura mais dada, mais expansiva, mais estimável. Um dia começou a gostar da peruana. A peruana era bela e alta, com uns olhos admiráveis. Cavalcante, dentro em pouco, estava doido por ela, não pensava em mais nada, não falava de outra pessoa. Quando a via ficava estático. Se ela gostava dele, não sei; é certo eu o animava, e já se falava em casamento. Puro engano! Dolores voltou para o Peru, onde casou com um primo, segundo me escreveu o pai.
D. LEOCÁDIA — Ele ficou desconsolado, naturalmente.
MAGALHÃES — Ah! Não me fale! Quis matar-se; pude impedir esse ato de desespero, e o desespero desfez-se em lágrimas. Caiu doente, uma febre que quase o levou. Pediu dispensa da comissão, e, como eu tinha obtido seis meses de licença, voltamos juntos. Não imagina o abatimento em que ficou, a tristeza profunda; chegou a ter as idéias baralhadas. Ainda agora, diz alguns disparates, mas emenda-se logo e ri de si mesmo.
D. LEOCÁDIA — Quer que lhe diga? Já ontem suspeitei que era negócio de amores; achei-lhe um riso amargo... Terá bom coração?
MAGALHÃES — Coração de ouro.
D. LEOCÁDIA — Espírito elevado?
MAGALHÃES — Sim, senhora.
D. LEOCÁDIA — Espírito elevado, coração de ouro, saudades... Está entendido.
MAGALHÃES — Entendido o quê?
D. LEOCÁDIA — Vou curar o seu amigo Cavalcante. De que é que vocês se espantam?
D. ADELAIDE — De nada.
MAGALHÃES — De nada, mas...
D. LEOCÁDIA — Mas quê?
MAGALHÃES — Parece-me...
D. LEOCÁDIA — Não parece nada; vocês são uns ingratos. Pois se confessam que eu curei o nariz de um e a hipocondria de outro, como é que põem em dúvida que eu possa curar a maluquice do Cavalcante? Vou curá-lo. Ele virá hoje?
D. ADELAIDE — Não vem todos os dias; às vezes passa-se uma semana.
MAGALHÃES — Mora perto daqui; vou escrever-lhe que venha, e, quando chegar, dir-lhe-ei que a senhora é o maior médico do século; cura o moral... Mas, minha tia, devo avisá-la de uma coisa; não lhe fale em casamento.
D. LEOCÁDIA — Oh! não!
MAGALHÃES — Fica furioso quando lhe falam em casamento; responde que só se há de casar com a morte... A senhora exponha-lhe...
D. LEOCÁDIA — Ora, meu sobrinho, vá ensinar o padre-nosso ao vigário. Eu sei o que ele precisa, mas quero estudar primeiro o doente e a doença. Já volto.
MAGALHÃES — Não lhe diga que eu é que lhe contei o caso da peruana...
D. LEOCÁDIA — Pois se eu mesma adivinhei que ele sofria do coração. (Sai; entra Carlota).
Cena III
Magalhães, d. Adelaide e d. Carlota
D. ADELAIDE — Bravo! Está mais corada agora!
D. CARLOTA — Foi do passeio.
D. ADELAIDE — De que é que você gosta mais, da Tijuca ou da cidade?
D. CARLOTA — Eu por mim, ficava metida aqui na Tijuca.
MAGALHÃES — Não creio. Sem bailes? Sem teatro lírico?
D. CARLOTA — Os bailes cansam, e não temos agora teatro lírico.
MAGALHÃES — Mas, em suma, aqui ou na cidade, o que é preciso é que você ria; esse ar tristonho faz-lhe a cara feia.
D. CARLOTA — Mas eu rio. Ainda agora não pude deixar de rir vendo o dr. Cavalcante.
MAGALHÃES — Por que?
D. CARLOTA — Ele passava ao longe, a cavalo, tão distraído que levava a cabeça caída entre as orelhas do animal; ri da posição, mas lembrei-me que podia cair e ferir-se, e estremeci toda.
MAGALHÃES — Mas não caiu?
D. CARLOTA — Não.
D. ADELAIDE — Titia viu também?
D. CARLOTA — Mamãe ia-me falando da Grécia, do céu da Grécia, dos monumentos da Grécia, do rei da Grécia; toda ela é Grécia, fala como se tivesse estado na Grécia.
D. ADELAIDE — Você quer ir conosco para lá?
D. CARLOTA — Mamãe não há de querer.
D. ADELAIDE — Talvez queira. (Mostrando-lhe as gravuras do livro) Olhe que bonitas vistas! Isto são ruínas. Aqui está uma cena de costumes. Olhe esta rapariga com um pote...
MAGALHÃES, à janela — Cavalcante aí vem.
D. CARLOTA — Não quero vê-lo.
D. ADELAIDE — Por que?
D.CARLOTA — Agora que passou o medo, posso rir-me lembrando a figura que ele fazia.
D. ADELAIDE — Eu também vou.
(Saem as duas; Cavalcante aparece à porta, Magalhães deixa a janela). Cena IV
Cavalcante e Magalhães
MAGALHÃES — Entra. Como passaste a noite?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Não consultes médico. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1876.