Por Machado de Assis (1862)
— Eu? disse o rapaz; não, não sou eu, é um amigo.
— Que mora contigo?
— Justo.
— Vocês moram bem; e estou capaz de vir para aqui uns dias antes de voltar para Minas. O rapaz empalideceu, e por muito pouca perspicácia que tenha o leitor há de compreender que esta palidez está ligada à fuga do vestido de que lhe falei acima. Não respondeu coisa alguma à proposta do tio, e este foi o primeiro a romper a dificuldade, dizendo:
— Mas para quê? demoro-me tão pouco tempo que não vale a pena; e além disso, pode o teu amigo não gostar...
— Ele é um pouco esquisito.
— Ora aí está! E eu sou muito esquisito, e portanto, não podemos fazer conciliação. O que eu quero, Vicente, é falar-te sobre um importantíssimo negócio, único que me traz ao Rio de Janeiro.
— Um negócio?
— Sim; mas agora não temos tempo; adiemos para outra ocasião. Apareces no Ravot hoje?
— Lá irei.
— Olha, vai jantar comigo, sim?
— Vou, meu tio.
— Anda daí.
— Agora não me é possível; tenho de esperar o meu companheiro; mas pode ir que eu lá estarei para jantar.
— Ora, bem, não me faltes.
— Não, senhor.
O capitão abraçou outra vez o sobrinho e saiu radiante de alegria.
Apenas o tio chegou à porta da rua, Vicente, que tinha voltado e sala e estava à janela, sentiu que lhe tocavam por trás.
Voltou-se.
Uma moça — a do vestido — estava por trás dele, e lhe perguntava sorrindo:
— De onde te veio este tio?
— De Minas; não contava agora com ele, tenho de lá ir jantar.
— Ora...
— Desculpa; é um tio.
— Vá, disse ela sorrindo, faço o sacrifício ao tio. Mas, olha, vê se mo envias depressa para Minas.
— Descansa; o mais depressa que me for possível.
II
Vicente foi exato na promessa.
O capitão Ferreira que já estava impaciente, apesar de não ser tarde, andava da sala para a janela, olhando para todos os lados, a ver se descobria sinais do sobrinho. Ora, o sobrinho entrou justamente numa ocasião em que ele estava na sala; um criado do hotel levou-o ao aposento do capitão, aonde Vicente entrou justamente na ocasião em que o capitão ia para a janela, de maneira que foi uma grande surpresa para o tio ver o sobrinho repimpado numa cadeira quando menos o esperava.
— Por onde diabo entraste tu?
— Pela porta.
— É singular; não te senti entrar. Ora, ainda bem que vieste; são horas de jantar, e é bom que jantemos antes, a fim de termos tempo para conversarmos a respeito do negócio de que te falei.
Vicente estava alegre e ruidoso como era do seu natural. A entrada inesperada do tio na casa da Rua do Passeio é que o tinha tornado acanhado e hesitante; agora, porém, que já não tinha motivos para hesitações nem acanhamento, deu o rapaz largas ao seu gênio folgazão.
A surpresa foi agradável para o capitão Ferreira, que não tinha a insuportável mania de querer moços velhos, e aceitava o gênio de todas as idades e de todos os temperamentos.
Acabando o jantar, o capitão foi com o sobrinho para o seu aposento e aí começou a conversa importante que o trouxera à corte.
— Primeiramente, disse o velho, deixa-me puxar-te as orelhas pela tua prolongada ausência lá de casa, onde ias ao menos uma vez por ano. Que diabo andas fazendo aqui?
— Meu tio, ando muito ocupado.
— Graves negócios, não?
— Não graves, porém, maçantes.
— Sim? Imagino. Estás empregado?
— Numa casa comercial, onde ganho alguma coisa, e isso junto com o pouquinho que me ficou de minha mãe...
— Eram uns vinte contos, não pode ser muito, talvez não seja nada.
— Isso está intacto.
— Confesso, disse o velho, que não te supunha tão econômico. Mas por que razão não arranjaste uma licença para ires ver-me à fazenda?
— No comércio é difícil.
— Pois mandava-se o emprego ao diabo; lá em casa há um canto para um parente. Vicente não respondeu; o velho continuou:
— E é justamente para isto que eu vim falar-te.
— Ah! disse Vicente arregalando os olhos.
— Aposto que recusas?
— Recusar? Mas...
— Estás com pouca vontade, e eu no teu caso faria o mesmo; mas não se trata só de abandonar a corte para ires encafuar-te numa fazenda. Para um rapaz a mudança há de ser difícil. A carne é dura de roer, mas eu trago-te o molho.
Dizendo isto, o capitão fitava os olhos do rapaz cuidando ver neles uma curiosidade misturada de alegria. Viu a curiosidade, mas não viu a alegria. Não se perturbou, e continuou:
— Teu pai, que era meu irmão, incumbiu-me de velar por ti, e fazer-te feliz. Até aqui tenho cumprido o que prometi, porque sendo mais feliz na corte, não te forcei a ir viver comigo na fazenda; e quando quiseste ter um emprego, esse que tens agora, hás de lembrar-te que alguém to ofereceu.
— É verdade.
— Pois bem, foi por iniciativa minha.
— Ah! foi meu tio?
— Pois então? disse o velho, batendo-lhe na perna a rir; cuidavas que eu ignorava o teu emprego? Se eu mesmo to dei; e mais, tenho indagado do teu comportamento na casa, e sei que é exemplar. Já por três vezes mandei dizer ao teu patrão que te desse licença por algum tempo, e ele mesmo, segundo me consta, falou-te nisso, mas tu recusaste.
— É verdade, meu tio, respondeu Vicente; e eu não sei como lhe agradeça...
— O haveres recusado visitar-me?
— Confesso que...
(continua...)
ASSIS, Machado de. Nem uma nem outra. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1873.