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#Comédias#Literatura Brasileira

Lição de Botânica

Por Machado de Assis (1906)

D. LEONOR

— Estou às suas ordens.

D. CECÍLIA

— Com licença. (À parte, olhando para o céu.) Ah! Minha Nossa Senhora! (Retira-se pelo fundo.)

Cena V D. Leonor, Barão

3 Parte protetora da flor, composta de cálice e corola.

BARÃO

— Sou o Barão Sigismundo de Kernoberg, seu vizinho, botânico de vocação, profissão e tradição, membro da Academia de Estocolmo, e comissionado pelo governo da Suécia para estudar a flora da América do Sul. V. Exa. dispensa a minha biografia? (D. Leonor faz um gesto afirmativo.) Direi somente que o tio de meu tio foi botânico, meu tio era botânico, eu botânico, e meu sobrinho há de ser botânico. Todos somos botânicos de tios a sobrinhos. Isto de algum modo explica minha vinda a esta casa.

D. LEONOR

— Oh! o meu jardim é composto de plantas vulgares.

BARÃO, gracioso

— É porque as melhores flores estão dentro de casa. Mas V. Exa. engana-se; não venho pedir nada do seu jardim.

D. LEONOR

— Ah!

BARÃO

— Venho pedir-lhe uma coisa que lhe há de parecer singular.

D. LEONOR

— Fale.

BARÃO

— O padre desposa a igreja; eu desposei a ciência. Saber é o meu estado conjugal; os livros são a minha família. Numa palavra, fiz voto de celibato.

D. LEONOR

— Não se casa.

BARÃO

— Justamente. Mas, V. Exa. compreende que, sendo para mim ponto de fé que a ciência não se dá bem com o matrimônio, nem eu devo casar, nem... V. Exa. já percebeu.

D. LEONOR

— Coisa nenhuma.

BARÃO

— Meu sobrinho Henrique anda estudando comigo os elementos da botânica. Tem talento, há de vir a ser um luminar da ciência. Se o casamos, está perdido.

D. LEONOR

— Mas...

BARÃO, à parte

— Não entendeu. (Alto.) Sou obrigado a ser mais franco. Henrique anda apaixonado por uma das suas sobrinhas, creio que esta que saiu daqui, há pouco. Impus-lhe que não voltasse a esta casa; ele resistiu-me. Só me resta um meio: é que V. Exa. lhe feche a porta.

D. LEONOR

— Senhor barão!

BARÃO

— Admira-se do pedido? Creio que não é polido nem conveniente. Mas é necessário, minha senhora, é indispensável. A ciência precisa de mais um obreiro: não o encadeiemos no matrimônio.

D. LEONOR

— Não sei se devo sorrir do pedido.

BARÃO

— Deve sorrir, sorrir e fechar-nos a porta. Terá os meus agradecimentos e as bençãos da posteridade.

D. LEONOR, sorrindo

— Não é preciso tanto; posso fechá-la de graça.

BARÃO

— Justo. O verdadeiro benefício é gratuito.

D. LEONOR

— Antes, porém, de nos despedirmos, desejava dizer uma coisa e perguntar outra. (O Barão curva-se.) Direi primeiramente que ignoro se há tal paixão da parte de seu sobrinho; em segundo lugar, perguntarei se na Suécia estes pedidos são usuais.

BARÃO

— Na geografia intelectual não há Suécia nem há Brasil; os países são outros: astronomia, geologia, matemáticas; na botânica são obrigatórios.

D. LEONOR

— Todavia, à força de andar com flores... deviam os botânicos trazê las consigo.

BARÃO

— Ficam no gabinete.

D. LEONOR

— Trazem os espinhos somente.

BARÃO

— V. Exa. tem espírito. Compreendo a afeição de Henrique a esta casa. (Levanta-se.) Promete-me então...

D. LEONOR, levantando-se

— Que faria no meu caso?

BARÃO

— Recusava.

D. LEONOR

— Com prejuízo da ciência?

BARÃO

— Não, porque nesse caso a ciência mudaria de acampamento, isto é, o vizinho prejudicado escolheria outro bairro para seus estudos.

D. LEONOR

— Não lhe parece que era melhor ter feito isso mesmo, antes de arriscar um pedido ineficaz?

BARÃO

— Quis primeiro tentar fortuna.

Cena VI

D. Leonor, Barão, D. Helena

D. HELENA, entra e pára

— Ah!

D. LEONOR

— Entra, não é assunto reservado. O Sr. Barão de Kernoberg... (Ao Barão.) É minha sobrinha Helena. (A Helena.) Aqui o Sr. Barão vem pedir que não o perturbemos no estudo da botânica. Diz que seu sobrinho Henrique está destinado a um lugar honroso na ciência, e... Conclua, Sr. Barão.

BARÃO

— Não convém que se case, a ciência exige o celibato.

D. LEONOR

— Ouviste?

D. HELENA

— Não compreendo...

BARÃO

— Uma paixão louca de meu sobrinho pode impedir que... Minhas senhoras, não desejo roubar-lhes mais tempo... Confio em V. Exa., minha senhora... Ser lhe-ei eternamente grato. Minhas senhoras. (Faz uma grande cortesia e sai.)

Cena VII D. Helena, D. Leonor

D. LEONOR, rindo

— Que urso4!

D. HELENA

— Realmente...

D. LEONOR

— Perdôo-lhe em nome da ciência. Fique com as suas ervas, e não nos aborreça mais, nem ele nem o sobrinho.

D. HELENA

— Nem o sobrinho?

D. LEONOR

— Nem o sobrinho, nem o criado, nem o cão, se o houver, nem coisa nenhuma que tenha relação com a ciência. Enfada-te? Pelo que vejo, entre o Henrique e a Cecília há tal ou qual namoro?

D. HELENA

— Se promete segredo... há.

D. LEONOR

— Pois acabe-se o namoro.

D. HELENA

— Não é fácil. O Henrique é um perfeito cavalheiro; ambos são dignos um do outro. Por que razão impediremos que dois corações...

D. LEONOR

— Não sei de corações, não hão de faltar casamentos a Cecília. D. HELENA — Certamente que não, mas os casamentos não se improvisam nem se projetam na cabeça; são atos do coração, que a igreja santifica. Tentemos uma coisa. D. LEONOR — Que é?

D. HELENA

— Reconciliemo-nos com o barão.

D. LEONOR

— Nada, nada.

D. HELENA

— Pobre Cecília!

(continua...)

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