Por Machado de Assis (1884)
Estamos na terceira valsa. O par de Clarinha é o Dr. Florêncio, um rapaz bonito, bigode negro, que a aperta muito e anda à roda como um louco. Acabada a valsa, fomos passear os três, ele murmurando-lhe coisas meigas, ela arfando de cansaço e comoção, e eu fixo, teso, orgulhoso. Seguimos para a janela. O Dr. Florêncio declarou que era tempo de autorizá-lo a pedi-la.
— Não se vexe; não é preciso que me diga nada; basta que me aperte a mão. Clarinha apertou-lhe a mão; ele levou-a à boca e beijou-a; ela olhou assustada para dentro.
— Ninguém vê, continuou o Dr. Florêncio; amanhã mesmo escreverei a seu pai. Conversaram ainda uns dez minutos, suspirando cousas deliciosas, com as mãos presas. O coração dela batia! Eu, que lhe ficava em cima, é que sentia as pancadas do pobre coração. Pudera! Noiva entre duas valsas. Afinal, como era mister voltar à sala, ele pediu lhe um penhor, a rosa que trazia ao peito.
— Tome...
E despregando a rosa, deu-a ao namorado, atirando-me, com a maior indiferença, à rua... Caí na copa do chapéu de um homem que passava e...
ASSIS, Machado de. História comum. In: ASSIS, Machado de. Obra completa. v. 2. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1884.