Por Machado de Assis (1866)
Os cuidados de Madalena eram mui legítimos. Apesar do recato com que tinham sido educados os dois filhos, ela não podia saber até que ponto a inocência deles era real. Sondar-lhes o espírito e o coração parecia-lhe um dever imperioso. Fê-lo com toda a
habilidade; Fernando e Fernanda, confessando uma afeição mais terna que antiga, nada sabiam, todavia, do caráter e do mistério dessa afeição.
Madalena, para quem o amor de Fernando por Fernanda não era mais do que o sonho de sua vida realizado, beijou-os, abraçou-os e prometeu-lhes que seriam felizes. — Mas, acrescentou ela, explicando como podia as coisas, é preciso que o meu Fernando se faça homem; tome um bordão de vida, para cuidar da sua... irmã; ouviu? E tratou de consultar a vocação de Fernando, consultando também o padre-mestre, não sem comunicar-lhe as descobertas que fizera.
O padre-mestre contrariou-se um bocado com a tal descoberta. Em seus projetos secretos a respeito de Fernando, que era a um tempo discípulo e afilhado, entrara o de fazê-lo entrar para um seminário e depois para um convento. Queria, disse ele a Madalena, fazer de Fernando uma coluna da Igreja. Era um menino inteligente, mostrava entusiasmo pelas letras sagradas, podia, com os desenvolvimentos que se lhe desse ao espírito, tornar-se o S. Paulo do novo mundo.
Madalena declarou-lhe que era necessário tirar daí o pensamento. O padre-mestre resignou-se.
Depois de muito discutirem, em presença de Fernando, resolveu-se que o rapaz estudasse medicina.
Em conseqüência foi determinado que fizesse os preparatórios e seguisse para a corte para continuar os estudos superiores.
Esta resolução entristeceu Fernando. Foi comunicá-la a Fernanda, e ambos se desfizeram em lágrimas e protestos de uma afeição eterna.
Mas quis a felicidade que Madalena precisasse ir ao Rio de Janeiro para cuidar dos papéis de suas reclamações. Assim toda a família se pôs a caminho, e daí a alguns meses estavam todos, menos o padre-mestre, definitivamente instalados na capital. Fernando seguiu os estudos necessários à carreira escolhida.
A idade, a maior convivência na sociedade, tudo revelou aos dois namorados a razão de ser da afeição mais terna que sentiam um pelo outro.
O casamento apareceu-lhes no horizonte como uma estrela luminosa. Daqui vieram os projetos, os planos, as esperanças, os edifícios de felicidades construídos, e destruídos para dar lugar a outros de maiores pro.porções e mais imponente estrutura. Eram felizes. Não conhecendo nenhuma das misérias da vida, viam o futuro pelo prisma da própria imaginação e do próprio desejo. Parecia-lhes que o destino ou as circunstâncias não tinham o direito de impedir a realização de cada um de seus sonhos. Entretanto, tendo Fernando concluído os seus estudos, foi decidido que iria à Europa estudar e praticar ainda por dois anos.
Era uma separação de dois anos! E que separação! A separação do mar, a mais tremenda de todas as barreiras, e que aos olhos de Fernanda era como que o perigo certo e inevitável. A pobre menina dizia muitas vezes a Fernando:
— Quando fores meu marido, proíbo-te que ponhas pé no mar!
— Não ponho, não, respondia Fernando sorrindo, o navio é que há de pôr a quilha. Anunciava-se agora uma viagem. Cedo começavam os sustos e as desgraças de Fernanda.
A pobre menina chorou muitas lágrimas de pesar e até de raiva por não poder impedir que Fernando partisse.
Mas era preciso.
Fernando partiu.
Madalena procurou o mais que podia animar o rapaz e consolar a filha. Ela própria sentia rasgarem-se-lhe as entranhas ao ver partir aquele que por dois motivos era seu filho; mas tinha coragem, e coragem filha de dois sentimentos elevados: — o primeiro era que se devia completar a educação de Fernando, que ela tomara a seu cuidado; o segundo era que para marido da sua Fernanda devia dar um homem completo e apto a alcançar os mais honrosos cargos.
Fernando compreendia isto, e soube ser corajoso.
Não entra no meu propósito contar, cena por cena, dia por dia, os acontecimentos que preencheram o intervalo da ausência do jovem médico pela ciência e doente pelo amor. Corramos folha e entremos logo no dia em que o navio em que saíra Fernando se achou de novo no porto da capital.
Madalena recebeu Fernando como se recebe a luz depois de uma longa prisão em cárcere escuro. Indagou de muitas coisas, curiosíssima pelo menor incidente, e risonha de felicidade a todas as narrações do filho.
— Mas Fernanda? perguntou ele depois de algum tempo.
A mãe não respondeu.
Fernando insistiu.
— Fernanda morreu, disse Madalena.
— Morreu! exclamou Fernando levando as mãos à cabeça.
— Morreu para ti: está casada.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Fernando e Fernanda. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1866.