Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Duas Juízas

Por Machado de Assis (1871)

A devota não compreendeu bem a resposta; era digna e espartana, mas pareceu-lhe que, em matéria de religião, a confraternidade e a caridade eram as primeiras leis. Entretanto, achou bom que todas se obrigassem ao sacrifício, e não tornou ao assunto. Ao mesmo tempo, dava-se na Devoção da Conceição análogo incidente. Dizendo uma das irmãs que D. Matilde trabalhava muito, acudiu D. 

— Eu saberei trabalhar muito mais. 

Era claro que a rivalidade e o despeito ardiam nelas. Por desgraça, tanto o dito de uma como o da outra correram mundo, e chegaram ao conhecimento de ambas; foi como lançar palha ao fogo. D. Romualda bradou em casa de uma amiga: 

— Vender a última jóia? Talvez ela já tenha as suas empenhadas! E D. Matilde: 

— Creio, creio... Creio que trabalhe mais do que eu, mas há de ser de 

A festa das Dores foi realmente bonita; muita gente, boa música, excelente sermão. A igreja estava tomada com um luxo desconhecido dos paroquianos. Alguns entendidos da matéria calcularam as despesas e subiram a um algarismo muito alto. A impressão não se restringiu ao bairro, foi a outros; os jornais deram notícia minuciosa da festa, e o trouxe o nome de D. Matilde, dizendo que a esta senhora era devido aquele esplendor. “Folgamos de ver, concluía aquele órgão religioso, folgamos de ver que uma senhora de tão superiores qualidades emprega uma parte da sua atividade no serviço da Virgem Santíssima.” D. Matilde mandou transcrever a notícia nos outros jornais. 

Não é preciso dizer que D. Romualda não foi à festa das Dores; mas soube de tudo, porque uma das zeladoras foi espiar e contou-lhe o que houve. Ficou passada e jurou que havia de meter D. Matilde num chinelo. Quando, porém, leu nos , a irritação não teve mais limites. Não todos os nomes feios, mas aqueles que uma senhora educada pode dizer de outra, esses disse-os D. Romualda falando da juíza das Dores — pretensiosa, velhusca, tola, intrometida, ridícula, namoradeira, e poucos mais. O marido procurava aquietá-la: 

— Mas, Romualda, para que há de você irritar-se tanto assim? 

E batia o pé, amarrotava a folha que tinha na mão. Chegou ao extremo de dar ordem para não receber mais o ; mas a idéia de que podia merecer da folha alguma justiça, quando chegasse a festa da Conceição, fê-la retirar a ordem. 

Dali em diante, não se ocupou de outra coisa, senão de preparar uma festa que vencesse a das Dores, uma festa única, admirável. Convocou as irmãs, e disse lhes francamente que não poderia ficar abaixo da outra Devoção; era preciso vencê la, não igualá-la; igualá-la era pouco. 

E toca a trabalhar na coleta de donativos, na cobrança de anuidades. Nas últimas semanas, o comendador Nóbrega quase não pôde ocupar-se de outra coisa, senão de ajudar a mulher nos preparos da grande festa. A igreja foi armada com uma perfeição que excedia a da festa das Dores. D. Romualda, a secretária, e duas zeladoras não saíam de lá; viam tudo, falavam de tudo, corriam tudo. A orquestra foi a melhor da cidade. Estava de passagem um bispo da Índia; alcançaram dele que pontificasse. O sermão foi incumbido a um beneditino de fama. Durante a última semana trabalhou a imprensa, anunciando a grande festa. 

D. Matilde caiu em mandar para as folhas algumas mofinas anônimas, em que argüía a juíza da Conceição de ser dada à charlatanice e à inveja. Respondeu D. Romualda, também anonimamente algumas coisas duras; a outra voltou à carga, e recebeu nova réplica; e isto serviu ao esplendor da festividade. O efeito não podia ser maior, todas as folhas deram uma notícia, embora curta; o um longo artigo, dizendo que a festa da Conceição fora das melhores que se tinham dado no Rio de Janeiro, desde muitos anos. Citou também o nome de D. Romualda como o de uma senhora distinta pelas qualidades de espírito, como digna de apreço e louvor pelo zelo e piedade. “Ao seu esforço, concluía a folha, devemos o prazer que tivemos no dia 8. Oxalá muitas outras patrícias possam imitá-la!” 

Foi uma punhalada em D. Matilde. Trocaram-se os papéis; ela agora é que deitava à outra os nomes mais cruéis de um vocabulário elegante. E jurava que a Devoção das Dores não ficaria vencida. Imaginou então umas ladainhas aos sábados e contratou uma missa especial aos domingos, fazendo anunciar que era a missa aristocrática da paróquia. D. Romualda respondeu com outra missa, e uma prática, depois da missa; além disso, instituiu um mês de Maria, e convidou a melhor gente. 

Esta luta durou uns dois anos. No fim deles, D. Romualda, tendo dado à luz uma filha, morreu de parto, e a rival ficou só em campo. Vantagem do estímulo! Tão depressa morreu a juíza da Conceição como a das Dores sentiu afrouxar o zelo, e já a primeira festa esteve muito aquém das anteriores. A segunda foi feita com outra juíza, porque D. Matilde, alegando cansaço, pediu dispensa do posto.

(continua...)

123
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →