Por Machado de Assis (1873)
— Mas a senhora está dentro de sua casa, replicou a afilhada dando-lhe um beijo. D. Maria do Carmo sorriu. A casa era um velho palacete restaurado, no centro de uma grande chácara, bairro do Engenho Velho. D. Maria do Carmo tinha querido voltar à província, no prazo marcado novembro de 1860; mas a afilhada obteve a estação de Petrópolis; iriam em março de 1861. Março chegou, foi-se embora, e voltou ainda duas vezes, sem que elas abalassem daqui; estamos agora em agosto de 1863. Jucunda tem vinte anos.
Ao almoço, falaram do espetáculo da véspera e das pessoas que viram no teatro. Jucunda conhecia já a principal gente do Rio; a madrinha fê-la recebida, as relações multiplicaram-se; ela ia observando e assimilando. Bela e graciosa, vestindo-se bem e caro, ávida de crescer, não lhe foi difícil ganhar amigas e atrair pretendentes. Era das primeiras em todas as festas. Talvez o eco chegasse à vila natal — ou foi simples adivinhação de malévolo, que entendeu colar isto uma noite, nas paredes da casa do barbeiro:
Nhã Cundinha
Já rainha
Nhã Mundinha
Na cozinha.
O pai arrancou, indignado, o papel; mas a notícia correu depressa a vila toda, que era pequena, e foi o entretenimento de muitos dias. A vida é curta.
Jucunda, acabado o almoço, disse à madrinha que desejava mandar algumas cousas para o enxoval da irmã, e, às duas horas, saíram de casa. Já na varanda — o coupé embaixo, o lacaio de pé, desbarretado, com a mão no fecho da portinhola —, D. Maria do Carmo notou que a afilhada parecia absorta; perguntou-lhe o que era.
— Nada, respondeu Jucunda, voltando a si.
Desceram; no último degrau, perguntou Jucunda se a madrinha é que mandara pôr as mulas.
— Eu não; foram eles mesmos. Querias antes os cavalos?
— O dia está pedindo os cavalos pretos; mas agora é tarde, vamos. Entraram, e o coupé, tirado pela bela parelha de mulas gordas e fortes, dirigiu-se para o Largo de S. Francisco de Paula. Não disseram nada durante os primeiros minutos; D. Maria é que interrompeu o silêncio, perguntando o nome do alferes.
— Não é Amarante, não, senhora, nem Cavalcanti; chama-se Getulino Damião Gonçalves, respondeu a moça.
— Não conheço.
Jucunda tomou a mergulhar em si mesma. Um dos seus prazeres diletos, quando ia de carro, era ver a outra gente a pé, e gozar as admirações de relance. Nem esse a atraía agora. Talvez o alferes lhe fizesse lembrar algum general; verdade é que só os conhecia casados. Pode ser também que esse alferes, destinado a dar-lhe sobrinhos cabos-de esquadra, viesse lançar-lhe alguma sombra aborrecida no céu brilhante e azul. As idéias passam tão rápidas e embrulhadas, que é difícil colhê-las, e pô-las em ordem; mas, enfim, se alguém supuser que ela cuidava também em certo homem, esse não andará errado. Era candidato recente o doutor Maia, que voltara da Europa, meses antes, para entrar na posse da herança da mãe. Com a do pai, ia a mais de seiscentos contos. A questão do dinheiro era aqui um tanto secundária, porque Jucunda tinha certa a herança da madrinha; mas não se há de mandar embora um homem, só porque possui seiscentos contos, não lhe faltando outras qualidades preciosas de figura e de espírito, um pouco de genealogia, e tal ou qual pontinha de ambição, que ela puxaria em tempo, como se faz às orelhas das crianças preguiçosas. Já havia recusado outros candidatos. De si mesma chegou a sonhar com um senador, posição feita e ministro possível. Aceitou este Maia; mas, gostando dele, e muito, por que é que não acabava de casar?
Por quê? Eis aí o mais difícil de aventar, amigo leitor. Jucunda não sabia o motivo. Era desses que nascem naqueles escaninhos da alma, em que o dono não penetra, mas penetramos nós outros, contadores de histórias. Creio que se liga à doença do pai. Já estava ferido, na asa, quando ela para cá veio; a moléstia foi crescendo, até fazer-se desenganada. Navalha não exclui espírito, haja vista Fígaro; o nosso velho disse à filha Jucunda, em uma das cartas, que tinha dentro de si um aprendiz de barbeiro, que lhe alanhava as entranhas. Se tal era, era também vagaroso, porque não acabava de escanhoá-lo. Jucunda não supunha que a eliminação do velho fosse necessária à celebração do casamento — ainda que por motivo de velar o passado; se claramente lhe viesse a idéia, é de crer que a repelisse com horror. Ao contrário, a idéia que agora mesmo lhe acudia, pouco antes de parar o coupé, é que não era bonito casar, enquanto o pai lá estava curtindo dores. Eis aí um motivo decente, leitor amigo; é o que procurávamos há pouco, é o que a alma pode confessar a si mesma, é o que tirou à fisionomia da moça o ar fúnebre que ela parecia haver trazido de casa.
(continua...)
ASSIS, Machado de. D. Jucunda. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1873.