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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Prosopopéia

Por Bento Teixeira (1601)

(Como Camões descreve) de Lagosta



XI

Mas ô a Concha lisa e bem lavrada

De rica Madrepérola trazia,

e fino Coral crespo marchetada,

Cujo lavor o natural vencia.

Estava nela ao vivo debuxada

A cruel e espantosa bataria,

Que deu a temerária e cega gente

Aos Deuses do Céu puro e reluzente.



XII

Um Búzio desigual e retorcido

Trazia por Trombeta sonorosa,

De Pérolas e Aljôfar guarnecido,

Com obra mui subtil e curiosa.

Depois do Mar azul ter dividido,

Se sentou nô a pedra Cavernosa,

E com as mãos limpando a cabeleira

Da tortuosa cola fez cadeira.



XIII

Toca a Trombeta com crescido alento,

Engrossa as veias, move os elementos,

E, rebramando os ares com o acento,

Penetra o vão dos infinitos assentos.

Os Pólos que sustem o firmamento,

Abalados dos próprios fundamentos,

Fazem tremer a terra e Céu jucundo,

E Netuno gemer no Mar profundo.



XIV

O qual vindo da vã concavidade,

Em Carro Triunfal, com seu tridente,

Traz tão soberba pompa e majestade,

Quanta convém a Rei tão excelente.

Vem Oceano, pai de mor idade,

Com barba branca, com cerviz tremente:

Vem Glauco, vem Nereu, Deuses Marinhos,

Correm ligeiros Focas e Golfinhos.



XV

Vem o velho Proteu, que vaticina

(Se fé damos à velha antiguidade)

Os males a que a sorte nos destina,

Nascidos da mortal temeridade.

Vem numa e noutra forma peregrina,

Mudando a natural propriedade.

Não troque a forma, venha confiado,

Se não quer de Aristeu ser sojigado.



XVI

Tétis, que em ser formosa se recreia,

Traz das Ninfas o coro brando e doce :

Clímene, Efire, Ópis, Panopea,

Com Béroe, Talia, Cimodoce;

Drimo, Xanto, Licórias, Deiopea,

Aretusa, Cidipe, Filodoce

, Com Eristea, Espio, Semideas,

Após as quais, cantando, vem Sereas.



DESCRIPÇÃO DO RECIFE DE PARANAMBUCO



XVII

Pera a parte do Sul, onde a pequena

Ursa se vê de guardas rodeada,

Onde o Céu luminoso mais serena

Tem sua influição, e temperada;

Junto da Nova Lusitânia ordena

A natureza, mãe bem atentada,

Um porto tão quieto e tão seguro,

Que pera as curvas Naus serve de muro.



XVIII

É este porto tal, por estar posta

Uma cinta de pedra, inculta e viva,

Ao longo da soberba e larga costa,

Onde quebra Netuno a fúria esquiva.

Ante a praia e pedra descomposta,

O estanhado elemento se deriva

Com tanta mansidão, que ô a fateixa

Basta ter à fatal Argos aneixa.



XIX

Em o meio desta obra alpestre e dura,

ô a boca rompeu o Mar inchado,

Que, na língua dos bárbaros escura,

Pernambuco de todos ‚ chamado.

de Para’na, que é Mar; Puca, rotura,

Feita com fúria desse Mar salgado,

Que, sem no derivar cometer míngua,

Cova do Mar se chama em nossa língua.



XX

Pera entrada da barra, à parte esquerda,

Está uma laje grande e espaçosa,

Que de Piratas fora total perda,

Se ô a torre tivera sumptuosa.

Mas quem por seus serviços bons não herda

Desgosta de fazer cousa lustrosa,

Que a condição do Rei que não é franco

O vassalo faz ser nas obras manco.



XXI

Sendo os Deuses à laje já chegados,

Estando o vento em calma, o Mar quieto,

Depois de estarem todos sossegados,

Per mandado do Rei e per decreto,

Proteu, no Céu cos olhos enlevados,

Como que investigava alto secreto,

Com voz bem entoada e bom meneio,

Ao profundo silêncio larga o freio.



XXII

"Pelos ares retumbe o grave acento

De minha rouca voz, confusa e lenta,

Qual trovão espantoso e violento

De repentina e hórrida tormenta;

Ao Rio de Aqueronte turbulento,

Que em sulfúreas borbulhas arrebenta,

Passe com tal vigor, que imprima espanto

Em Minos rigoroso e Radamanto.



XXIII

De lanças e d’escudos encantados

Não tratarei em numerosa Rima,

Mais de Barões Ilustres afamados,

Mais que quantos a Musa não sublima.

Seus heróicos feitos extremados

Afinarão a dissonante prima,

Que não é muito tão gentil sujeito

Suprir com seus quilates meu defeito.



XXIV

Não quero no meu Canto alga ajuda

Das nove moradoras de Parnaso,

Nem matéria tão alta quer que aluda

Nada ao essencial deste meu caso.

(continua...)

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