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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Prosopopéia

Por Bento Teixeira (1601)

Vem Glauco, vem Nereu, Deuses Marinhos,

Correm ligeiros Focas e Golfinhos.



XV

Vem o velho Proteu, que vaticina

(Se fé damos à velha antiguidade)

Os males a que a sorte nos destina,

Nascidos da mortal temeridade.

Vem numa e noutra forma peregrina,

Mudando a natural propriedade.

Não troque a forma, venha confiado,

Se não quer de Aristeu ser sojigado.



XVI

Tétis, que em ser formosa se recreia,

Traz das Ninfas o coro brando e doce :

Clímene, Efire, Ópis, Panopea,

Com Béroe, Talia, Cimodoce;

Drimo, Xanto, Licórias, Deiopea,

Aretusa, Cidipe, Filodoce

, Com Eristea, Espio, Semideas,

Após as quais, cantando, vem Sereas.



DESCRIPÇÃO DO RECIFE DE PARANAMBUCO



XVII

Pera a parte do Sul, onde a pequena

Ursa se vê de guardas rodeada,

Onde o Céu luminoso mais serena

Tem sua influição, e temperada;

Junto da Nova Lusitânia ordena

A natureza, mãe bem atentada,

Um porto tão quieto e tão seguro,

Que pera as curvas Naus serve de muro.



XVIII

É este porto tal, por estar posta

Uma cinta de pedra, inculta e viva,

Ao longo da soberba e larga costa,

Onde quebra Netuno a fúria esquiva.

Ante a praia e pedra descomposta,

O estanhado elemento se deriva

Com tanta mansidão, que ô a fateixa

Basta ter à fatal Argos aneixa.



XIX

Em o meio desta obra alpestre e dura,

ô a boca rompeu o Mar inchado,

Que, na língua dos bárbaros escura,

Pernambuco de todos ‚ chamado.

de Para’na, que é Mar; Puca, rotura,

Feita com fúria desse Mar salgado,

Que, sem no derivar cometer míngua,

Cova do Mar se chama em nossa língua.



XX

Pera entrada da barra, à parte esquerda,

Está uma laje grande e espaçosa,

Que de Piratas fora total perda,

Se ô a torre tivera sumptuosa.

Mas quem por seus serviços bons não herda

Desgosta de fazer cousa lustrosa,

Que a condição do Rei que não é franco

O vassalo faz ser nas obras manco.



XXI

Sendo os Deuses à laje já chegados,

Estando o vento em calma, o Mar quieto,

Depois de estarem todos sossegados,

Per mandado do Rei e per decreto,

Proteu, no Céu cos olhos enlevados,

Como que investigava alto secreto,

Com voz bem entoada e bom meneio,

Ao profundo silêncio larga o freio.



XXII

"Pelos ares retumbe o grave acento

De minha rouca voz, confusa e lenta,

Qual trovão espantoso e violento

De repentina e hórrida tormenta;

Ao Rio de Aqueronte turbulento,

Que em sulfúreas borbulhas arrebenta,

Passe com tal vigor, que imprima espanto

Em Minos rigoroso e Radamanto.



XXIII

De lanças e d’escudos encantados

Não tratarei em numerosa Rima,

Mais de Barões Ilustres afamados,

Mais que quantos a Musa não sublima.

Seus heróicos feitos extremados

Afinarão a dissonante prima,

Que não é muito tão gentil sujeito

Suprir com seus quilates meu defeito.



XXIV

Não quero no meu Canto alga ajuda

Das nove moradoras de Parnaso,

Nem matéria tão alta quer que aluda

Nada ao essencial deste meu caso.

Porque, dado que a forma se me muda,

Em falar a verdade serei raso,

Que assim convém fazê-lo quem escreve,

Se à justiça quer dar o que se deve.



XXV

A fama dos antigos coa moderna

Fica perdendo o preço sublimado:

A façanha cruel, que a turva Lerna

Espanta com estrondo d’arco armado:

O cão de três gargantas, que na eterna

Confusão infernal está fechado,

Não louve o braço de Hércules Tebano.

Pois procede Albuquerque soberano.



XXVI

Vejo (diz o bom velho) que, na mente,

O tempo de Saturno renovado,

E a opulenta Olinda florescente

Chegar ao cume do supremo estado.

Ser de fera e belicosa gente

O seu largo distrito povoado;

Por nome ter Nova Lusitânia,

Das Leis isenta da fatal insânia.



XXVII

As rédeas ter desta Lusitânia

O grão Duarte, valoroso e claro,

Coelho por cognome, que a insânia

Reprimir dos seus, com saber raro.

Outro Troiano Pio, que em Dardânia

Os Penates livrou e o padre caro;

Um Públio Cipião, na continência;

Outro Nestor e Fábio, na prudência.



XXVIII

O braço invicto vejo com que amansa

A dura cerviz bárbara insolente,

Instruindo na Fé, dando esperança

Do bem que sempre dura e ‚ presente;

Eu vejo co rigor da tesa lança

Acossar o Francês, impaciente

De lhe ver alcançar uma vitória

Tão capaz e tão digna de memória.



XXIX

Ter o varão Ilustre da consorte,

Dona Beatriz, preclara e excelente

, Dous filhos, de valor e d’alta sorte.

Cada qual a seu Tronco respondente.

Estes se isentarão da cruel sorte,

Eclipsando o nome … Romana gente,

De modo que esquecida a fama velha

Façam arcar ao mundo a sobrancelha.



XXX

O Princípio de sua Primavera

Gastarão seu distrito dilatando,

Os bárbaros cruéis e gente Austera,

Com meio singular, domesticando.

E primeiro que a espada lisa e fera

Arranquem, com mil meios d’amor brando,

Pretenderão tirá-la de seu erro,

E senão porão tudo a fogo e ferro.



XXXI

Os braços vigorosos e constantes

Fenderão peitos, abrirão costados,

Deixando de mil membros palpitantes

Caminhos, arraiais, campos juncados;

Cercas soberbas, fortes repugnantes

Serão dos novos Martes arrasados,

Sem ficar deles todos mais memória

Que a qu’eu fazendo vou em esta História.



XXXII

Quais dous soberbos Rios espumosos,

Que, de montes altíssimos manando,

Em Tétis de meter-se desejosos,

Vem com fúria crescida murmurando,

E nas partes que passam furiosos

Vem árvores e troncos arrancando,

Tal Jorge d’Albuquerque e o grão Duarte

Farão destruição em toda a parte.



XXXIII

Aquele branco Cisne venerando,

(continua...)

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