Por Bernardo Guimarães (1883)
Os olhos de Conrado ião de Rozaura a Adelaide, e de Adelaide a Rozaura, e confrontando as feições de uma e de outra não poude deixar de reconhecer a notavel semelhança que entre ellas existia. Já nenhuma duvida lhe restava no espirito; a voz da natureza acabava de confirmar de um modo irrefragavel as supposições de Lucinda, e lhe bradava dentro d'alma : é tua filha.
Ainda nada tinha sido revelado a Rozaura a respeito do seu nascimento e verdadeira condição, e nem convinha que o fosse, emquanto esse facto não estivesse verificado por meio de provas evidences e irrecusaveis. Por isso Adelaide, posto que em sua consciencia já tivesse
plena e intima convicção de que Rozaura era sua filha, continuava ainda a tratal-a como escrava, si bem que com o mesmo mimo e carinho que prodigalisava aos outros filhos. As duas mulheres corn a attenção concentrada nos actos religiosos não olhavão em derredor, e por isso não notarão a presença do homem que com tanta persistencia as observava.
Terminada a missa, Conrado esperou que ellas sahissem, e as foi acompanhando cm certa distancia até sumirem-se a seus olhos, dobrando o angulo• da Rua Direita com a de S. Bento, na qual residia Adelaide. Desejaria nunca mais perder de vista aquellas duas mulheres, ás quaes seu destino se prendia por laços de tanto affeito e de tanto mysterio. Mas não era chegada ainda a occasião, e Conrado, que morava na Rua Direita, entrou em casa unicamente para ganhar tempo, e para não fazer uma visita demasiado matinal, esperou que soassem dez horas.
As dez horas e um quarto entrava elle na loja do senhor Moraes.Estava este sentado no mostrador e quasi sósinho, pois o unico caixeiro, que alli existia, estava quasi sumido a um canto entre fardos e rolos de fazenda a olhar para as prateleiras. Depois de se terem cumprimentado
friamente como pessoas que apenas se conhecião, Conrado declarou a Moraes que desejava ter com elle uma conversação particular. Moraes o levou a um gabinete no fundo da loja.
— Consta-me, disso Conrado, — quc va possue uma linda cscravinha que comprou a um senhor... não me lembra agora o nome.
— Ao senhor Basilio, morador na rua do Tabatinguéra; atalhou Moraes; — mas a que vem agora essa pergunta?
— Vem muito a proposito, e é até necessaria, porque é justamente a respeito dessa...
Conrado não teve animo de pronunciar a palavra — escrava, — que lhe queimava os labios fallando de sua filha.
— A respeito dessa menina, — continuou elle corcluindo a phrase, — que venho conversar com va sa .
— Ah — murmurou Moraes, que desde começo desta conversação, por uma vaga desconfiança e sem saber bem porque, começava a sentir-se constrangido e contrariado.
— Tenha paciencia, senhor Moraes ; escutc-me alguns momentos, que em poucas palavras vou lhe explicar tudo. Essa menina, si é a mesma que eu penso, tem todo o direito á liberdade, e eu tenho o mais vivo desejo, tenho mesmo obrigação de compra-la afim de restituila á liberdade. Não olho a preço; exija, senhor Moraes, que será immediatamente satisfeito.
— Sinto não poder satisfazer os seus desejos, senhor Conrado; não ha dinheiro que compre essa rapariga ; é um mimo, que meu sogro fez a uma filha minha, e nem ella, nem eu, nem minha mulher estamos dispostos a vendel-a, nem mesmo quando Vª nos trouxesse todos os thesouros das Mil e uma noites.
— Devéras com effeito ! exclamou Conrado, com um sorriso algum tanto sarcastico ; Mas talvez essa menina não seja a mesma que eu penso; va Sa não poderá fazer-me o favor de mandar chamal-a q desejo muito vel-a, porque si não fór a que eu supponho, é escusado incommodal-o por mais tempo.
Oh! porque não! — disse Moraes, que chamando o caixeiro deo-lhe um recado e dahi a momentos, Rozaura compareceo á presença de Conrado. Ao encarar aquelle homem, que nunca tinha visto, e que fitava nella um olhar penetrante, mas affectuoso e terno, a joven escrava sentio indizivel ccmmoção e tomou a benção; á maneira dos escravos, abaixou os olhos e corou. Vendo agora face a face e tão perto de si aquelle rosto, em que ao lado da belleza resumbrava toda a candura e innocencia de uma alma angelica, Conrado a muito custo poude conter e dissimular sua emoção.
— Encantadora menina ! — murmurou elle, voltando-se para Moraes, que fez um gesto de displicencia.
O primeiro impulso de seu coração foi de apertal-a nos braços, e depor-lhe na fronte o primeiro beijo do amor paterno ; mas conteve-se, porque ainda não era a occasião propria para a expansão de seus affectos.
— Como te chamas, menina? — perguntou elle a Rozaura com voz afTectuosa.
— Rozaura, uma sua escrava, — respondeo a menina.
— Rozaura! bonito nome!... que edad? tens?
— Devo ter quatorze pouco mais ou menos Em que logar nasceste? . . .
— Nasci aqui mesmo perto da cidnde em uma casa, que fica para as bandas de N. Senhora do O.
Quem era teu primeiro senhor? . . .
— Era uma mulher chamada Nha-Tuca, que me vendeo, quando fiz dez annos, a um velho chamado Basilio, morador na rua do Tabatinguera, e este foi que me vendeo para o senhor Moraes.
Conheceste tua mãe?
Conheci, sim senhor, eu tinha sete para oito annos, quando ella morreo.
— Não te lembras da cor e da figura, que tinha ?
— Muito mal; só me lembro que era mulata clara...
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.