Por Bernardo Guimarães (1883)
Si bem que contente e esperançada pelo modo por que as cousas se ião encaminhando, bem mal dormida passou Lucinda essa noite, atormentada pela incerteza de achar ou não viva Nha-Tuca, esperando com a mais viva impaciencia o alvorecer do dia.
CAPITULO IX
Na missa.
O mesmo acontecia a Conrado, que passou uma noite agitadissima. A revelação que Lucinda acabava de fazer-lhe, parecia-lhe um sonho, e punha-lhe o espirito quasi em delirio. A's tristes recordações do passado vinhão juntar-se agora as apprehensões do futuro, e toda a noite passou elle a cogitar nos meios mais convenientes e efficazes que deveria empregar para fazer reconhecer sua filha como livre de nascimento, sem comprometter a reputação de Adelaide. Volvendo tambem ás vezes suas vistas para o passado, enxergava nesse estranho acontecimento um castigo da providencia, que assim punia o orgulho, fatuidade e dureza desse homem, que tanto blazonava de branco e fidalgo do mais puro sangue, fazendo que sua baeta até a edade de quatorze annos vivesse na
humilhante condição de escrava até por fim ser vendida como tal á sua propria mãe para servir de mocamba a uma irmã sua.
Conrado em vão se deitava procurando conciliar o somno pela leitura de algum livro; não conseguia achar distracção alguma ás vivas preoccupações que lhe agitavão o espirito. Levou quasi toda a noite a passear por todas as salas e corredores de sua vasta habitação, consultando a miudo o relogio e a contar essas horas que para elle se escoavão com desesperadora lentidão. Assim esperou elle o fim dessa noite angustiosa, que, apezar de correr o mez de novembro, pareceu-lhe mais longa do que uma noite de junho.
Emfim alvoreceu bella e risonha a aurora desse dia que tão anciosamente aguardava, e que tão decisiva influencia tinha de exercer sobre seu destino e sua futura felicidade. Era um domingo. A uma noite brusca chuvosa havia succedido um dia limpo e sereno. O sinos das diversas egrejas dobravão e repicavão alegremente, e o povo, que acudia ás missas matinaes, começava a cruzar por todas as ruas da cidade. O coração de Conrado expandio—se em palpites de prazer e de esperança.
— Perdi a amante, que devia ser minha esposa, murmurou comsigo; mas o céo teve piedade de mim e preservou-me a filha, que hoje ou amanhã terei a ventura de acolher em minha casa, e apertar em meus braços.
Como era por demais cedo para ir á casa d" major, Conrado tratou de vestir-se para ir á missa da Sé, que os sinos annunciavão, e isto não só para matar o tempo, que tão lento lhe corría, como tambem a fim de implorar a protecção do Áltlssimo para o bom exito do melindroso negocio em que se achava tão vivamente empenhado.
Tendo entrado na egreja, depois de feita uma curta oração, começou a passear olhares indifferentes pelos diversos grupos de mulheres que se achavão sentadas pela nave á espera da missa. Subito deo com os olhos em um grupo que fixou-lhe a attenção. Compunha-se elle de uma senhora ainda moça, alta, esbelta e formosa, de quatro galantes creanças e de ulna rapariga, que lhes servia de mocamba, tão branca e tão linda, que si não fôra o trajo mais simples e modesto, c a posição, que occupava atráz do grupo, a tomarieis segurament,e por uma irmã mais velha dos outros meninos.
Com aquella vista Conrado estrcmcceo e sentio calafrios; na mãe de familia reconhecera immediatamente Adelaide; mas toda a sua attenção a principio concentrou-se na mocamba. Era Rozaura; não podia haver a menor duvida, era sua filha ; era ella, que alli estava servindo de escrava á sua mãe e a seus irmãos Durante toda a missa o mancebo não arredou os olhos daquelle interessante grupo, que representava para sua alma um passado cheio de saudosas e amargas recordações, e um futuro cheio de anciedade e inquietação.
Rozaura trajava um singelo vestido de chita fina, azul-claro, apertado á cintura por uma fita côr de rosa; os cabellos negros e lisos no alto da cabeça, presos por uma fita da mesma cor, descião-lhe soltos pelos hombros caracolando em abundantes e luzidios cachos. A mantilha de lã escura, que trazia em volta do pescoço, em razão da frescura da manhã, ainda mais fazia sobresahirem as linhas harmoniosas de seu busto encantador. De joelhos, com a cabeça inclinada, os braços cruzados por baixo dos seios, só lhe faltavão as azas para que a julgasseis um serafim em altitude de adoração.
Conrado a contemplava cheio de enlevo e orgulho, ao mesmo tempo que se lhe confrangia o coração ao considerar que por um singular capricho da sorte essa tão linda creatura, tendo nascido livre, estava reduzida á escravidão, e era captiva de sua mãe. Não ha expressões que possão interpretar em toda a sua intensidade as vivas emoções que assaltárão o espirito do mancebo, ao ver diante de si, ajoe-
lhadas ante o altar de Deos, a amante, que o céo lhe destinara para esposa, e que lhe arrancarão dos braços para entregal-a a outrem, e a filha, que logo ao nascer escapára aos braços maternos para ser por meio da mais abominavel machinação reduzida ao captiveiro.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.