Por Machado de Assis (1876)
D. Úrsula, a quem seduziam exclusivamente a posição e o rumor público em favor do sobrinho, viu naquelas razões um pretexto ou uma puerilidade. Defendeu, como pôde, a causa de Camargo; instou com o sobrinho para que refletisse maduramente, antes de qualquer resposta definitiva. Estácio prometeu como prometera ao médico, por simples condescendência; mas sobretudo para pôr termo ao assunto e ir saber a causa do sorriso quase imperceptível que viu roçar os lábios de Helena. A moça erguera-se e dirigira-se para uma das janelas; Estácio foi até ali.
Adivinhei, pelo seu sorriso, disse ele, que tudo isto lhe parece pueril, e que eu faço bem em não aceitar o que se me oferece.
Helena olhou um pouco espantada para ele, mas respondeu com tranqüilidade:
Pelo contrário, penso que deve aceitar. Além de haver consentimento de minha tia, parece ser um grande desejo do pai de Eugênia.
Era a primeira vez que Helena aludia ao amor de Estácio, e fazia-o por modo encoberto e oblíquo. Estácio escapou dessa vez à regra de todos os corações amantes; resvalou pela alusão e discutiu gravemente o assunto da candidatura. Era pesado demais para cabeça feminina; Helena intercalou uma observação sobre dois passarinhos que bailavam no ar, e Estácio aceitou a diversão, deixando em paz os eleitores.
Durante dois dias não saiu ele de casa. Tendo recebido alguns livros novos, gastou parte do tempo em os folhear, ler alguma página, colocá-los nas estantes, alterando a ordem e a disposição dos anteriores, com a prolixidade e o amor do bibliófilo. Helena ajudava-o nesse trabalho, — um pouco parecido com o de Penélope3 — porque a ordem estabelecida ao meio- dia era às vezes alterada às duas horas, e restaurada na seguinte manhã. Estácio, entretanto, não ficava todo entregue aos livros; admirava a solicitude da irmã, a ordem e o cuidado com que ela o auxiliava. Helena parecia não andar; o vulto resvalava silenciosamente, de um lado para outro, obedecendo às indicações do irmão, ou pondo em experiência uma idéia sua. Estácio parava às vezes, fatigado; ela continuava imperturbavelmente o serviço. Se ele lhe fazia algum reparo, a moça respondia erguendo os ombros ou sorrindo, e prosseguia. Então Estácio segurava-lhe nos pulsos e exclamava rindo:
Sossega, borboleta!
Helena parava, mas eram só poucos minutos; volvia logo ao trabalho com a mesma serena agitação. Era assim que as horas se passavam na intimidade mais doce, e que a recíproca afeição ia excluindo toda a preocupação alheia; era assim que a influência de Helena assumia as proporções de voto preponderante.
— Esposa de Ulisses. Estando este ausente, Penélope recusa vários pretendentes com a promessa de só se casar quando terminasse a toalha que vinha bordando. Contudo, para afastá-los, desfazia de noite o que bordava de dia.
No terceiro dia, D. Tomásia e Eugênia foram jantar a Andaraí. Eugênia estava nesse dia mais sisuda e dócil que nunca; dissera-se que trazia a alma tão nova como o vestido, e menos enfeitada que ele. Estácio sentia-se satisfeito; o ideal reconciliava-se com o real. Puderam falar sozinhos, mais de uma vez; todas as pessoas da casa pareciam conspiradas para lhes deixar a solidão. Foi ela quem recordou a proposta política do pai, da qual soubera casualmente, ouvindo a narração que este fizera a D. Tomásia. O desejo de Eugênia era pela afirmativa; e Estácio, receoso de despertar os caprichos adormecidos da moça, frouxamente resistiu, e consentiu ainda mais frouxamente em reconsiderar o assunto.
Deputado! exclamava Eugênia com os olhos no céu.
Estácio acompanhou Eugênia e D. Tomásia na carruagem que as levou ao Rio Comprido. O dia fora mais ou menos alegre; a viagem foi divertida e palreira como um regresso de romaria. Os cavalos mostravam-se tão lépidos como as pessoas que iam no carro, e encurtaram alguns minutos o caminho, com desgosto de Eugênia.
Voltando a Andaraí, Estácio trazia a alma pura de todas as más impressões que lhe deixavam usualmente as visitas à casa de Camargo. Nenhum dissentimento houvera naquele dia. Eugênia parecia modificada. Em casa esperava-o, porém, uma desagradável notícia: a tia sentira-se incomodada pouco depois que ele saíra e recolhera-se ao quarto. O caso afligiu-o, mas não tardou a aparecer Helena, que o tranqüilizou, dizendo-lhe que D. Úrsula tinha apenas uma forte dor de cabeça, já diminuída com o emprego de um remédio caseiro.
No dia seguinte de manhã, informado de que a tia dormia sossegadamente, Estácio abriu uma das janelas do quarto e relanceou os olhos pela chácara. A alguns passos de distância, entre duas laranjeiras, viu Helena a ler atentamente um papel. Era uma carta, longa de todas as suas quatro laudas escritas. Seria alguma mensagem amorosa?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.