Por Bernardo Guimarães (1883)
— Sim, nhÔ Conrado; ao menos assim parece; mas tenha dó de sinhá Adelaide; não a ponha a perder; ella, coitada, não tem culpa de nada.
— Sim, Lucinda, bem sei, e não quero comprometter a honra e reputação de que goza Adelaide; mas não sei... si isso será possivel... Dize-me uma cousa; ainda existe essa mulher, chamada Nha-Tuca.
— Não lhe sei dizer, nhô Conrado. Pensando que a engeitada tinha morrido deveras, não me importei mais com tal mulher; nunca mais fui por aquellas bandas, e nem tenho perguntado por ella a ninguem. — Máo — disse Conrado estremecedo; — si ella não é viva a cousa não está muito bem parada. Só ella poderia desembrulhar este mysterio e converter em certeza o que por ora não passa de uma conjectura.
— Não se afflija, nhô Conrado; bem póde ser que ella ainda viva na mesma casa. Amanhã vou saber.
Pois sim, Lucinda; vê modos de lá ir o mais breve, que te fÔr possivel, e verificar si é viva ou não essa mulher. Ajuda-me nesta empresa; eu não posso ter nem mais um instante de socego, emquanto não vir minha filha restituida á condição em que nasceu, á sombra deste telhado partilhando commigo destes bens, que deo-me a fortuna; vae, eu saberei recompensar os teus serviços.
— Ah! nhó Conrado! pois é preciso paga? . . pois ella tambem não é o mesmo que minha filha? não basta a alegria, que eu hei de ter? deixe-se disso, nhÔ Conrado; sua escrava está prompta para tudo que mecê determinar.
Amanhã é domingo : costumo sempre ir ouvir missa em Santa Iphigenia, e tenho de ir á chacara. Da chacara á casa de Nha-Tuca é um pulo. Amanhã pela tardinha, ás mesmas horas que hoje vim, aqui estou para dar parte a mecê do que souber.
Aqui te espero. Si por felicidade ainda elle fôr viva, exista ella onde existir, irei immediatamente procural-a, e com um punhal em uma das mãos e urna bolsa bem recheiada na outra, forçal-a-ei a vomitar a confissão da execravel atrocidade, que commetteo. Mas antes disso irei amanhã mesmo, vencendo minha repugnancia, cruzar a soleira daquella casa, sepulchro de minha felicidade, e proporei ao tal senhor Moraes a compra de sua escrava; não quero que ella continue nem mais um só dia no captiveiro. Vou comprar minha filha a peso de ouro ! . . . Depois tratarei de provar aos olhos da sociedade que ella nasceu livre.
Ah! nhÔ Conrado, eu acho que sinhô Moraes não vende a menina nem por quanto ouro ha neste mundo.
— Julgas isso ! . . . peor para elle. Declararei que Rozaura é minha filha, e como pae tenho o direito de reclamal-a. Si nem assim quizer cedela, lhe direi que tenho certeza de que nasceu de mãe livre, o que tratarei de provar perante os tribunaes, ainda que para isso seja preciso despender tudo quanto possuo.
— Mas sinhá Adelaide! . . . coitada !
— Não tocarei no nome de Adelaide; minha bocca jamais revelará quem é a mãe de minha filha, salvo no caso que isso seja absolumente necessario.
— Permitta Deus que não seja.
— Neste caso é bem triste a collisão em que me verei, — entre a honra de uma mulher, que amei, que amo ainda, e a liberdade de minha filha Que partido posso eu tomar?
A propria Adelaide, creio eu, não hesitará em confessar sua falta, si assim fór preciso para arrancar sua filha ao captiveiro.
—É assim mesmo, nhÔ Conrado; é uma lastima; mas tenho fé que Deus não ha de permittir que isso seja preciso.
Lucinda voltou para a casa contentissima pelo feliz resultado da commissão de que se havia encarregado. Ao ver que Conrado nenhum rancor guardava contra Adelaide, e que pelo contrario só tinha para com ellas palavras de affectuosa ternura e de triste e saudosa recordação, seu coração nadava em jubilo. Apressou-se em communicar tudo á sua senhora, que nasceu de mãe livre, o que tratarei de provar perante os tribunaes, ainda que para isso seja preciso despender tudo quanto possuo.
— Mas sinhá Adelaide! . . . coitada !
— Não tocarei no nome de Adelaide; minha bocca jamais revelará quem é a mãe de minha filha, salvo no caso que isso seja absolumente necessario.
— Permitta Deus que não seja.
— Neste caso é bem triste a collisão em que me verei, — entre a honra de uma mulher, que amei, que amo ainda, e a liberdade de minha filha Que partido posso eu tomar?
A propria Adelaide, creio eu, não hesitará em confessar sua falta, si assim fór preciso para arrancar sua filha ao captiveiro.
—E assim mesmo, nhÔ Conrado; é uma lastima; mas tenho fé que Deus não ha de permittir que isso seja preciso.
Lucinda voltou para a casa contentissima pelo feliz resultado da commissão de que se havia encarregado. Ao ver que Conrado nenhum rancor guardava contra Adelaide, e que pelo contrario só tinha para com ellas palavras de affectuosa ternura e de triste e saudosa recordação, seu coração nadava em jubilo. Apressou-se em communicar tudo á sua senhora, que sentio acudirem-lhe aos olhos lagrimas de enternecimento, e estremeceu em sua consciencia de honesta e leal esposa, receando que se ateassem de novo debaixo das cinzas as mal extinctas chammas de seu primeiro amor.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.