Por Bernardo Guimarães (1883)
Lucinda contou minuciosamente a Conrado tudo, o que havia succedido em casa do major desde a época em que aquelle repellido com brutal tenacidade em suas pretenções á mão de Adelaide vira-se forçado a retirar-se de S. Paulo. Informou-o das rigorosas medidas e precauções que o major tomára a fim de interceptar toda e qualquer communicação entre os dous amantes, de modo que não lhes foi possivel nem mesmo fazel-o sabedor do grave e melindroso estado em que se achava Adelaide. Si não fosse a dilatada e opportuna viagem que fizera o major, e os cuidados e precauções tomadas por ella, Lucinda, não sabe o que teria sido da honra e mesmo da vida da pobre sinhá, que teria talvez succumbido victima da colera do pae.
Narrou-lhe como em uma noite Adelaide,
assistida unicamente por ella, tinha dado á luz com feliz successo uma linda e vigorosa menina, que nessa mesma madrugada pela deploravel necessidade das circumstancias expôz occultamente em casa de uma vizinha, conhecida pelo nome de Nha-Tuca, que passava por uma senhora honesta e caridosa. Em casa desta mulher ficava-lhes facil velar sobre a sorte de creança, ter frequentes noticias della, soccorel-a por meios occultos e indirectos, e vel-a mesmo de quando em quando, sem suscitar desconfianças ; que nesse mesmo dia porém indo á casa de Nha-Tuca colher disfarçadamente alguma noticia da engeitada, soube que tinha morrido, e vendo em uma sala o cadaver já amortalhado de uma creança recem nascida, acreditou pia— mente, que era o da filha de Adelaide, Voltou a casa com essa triste nova. Passarão-se dous annos, sem que recebessem noticia alguma de Conrado, até que correo em S. Paulo como certa e confirmada por todos a noticia de seu fallecimento. Adelaide passou mais dous annos de tristeza e abatimento, deplorando a perda do amante e da infeliz filhinha, recusando alguns casamentos vantajosos, até que emfim se resolveu, não sem alguma reluctancia, a casar-se
com o senhor Moraps, do qual tem tido até o presente quatro filhinhos. A primeira, linda menina, por nome Estella, que é o mimo da casa, e o idolo dos paes e do avó, mostrou ultimamente com insistencia o desejo de possuir uma mulatinha, que lhe servisse de mucama, que a acompanhasse á escola, á missa e os passeios. O avô, que se desejava adivinhar os pensamentos da netinha, deo ordem franca ao €rcnro para procurar e comprar, fosse por que preço fosse, a mais linda mulatinha, que pudesse encontrar. O senhor Moraes, depois de muito procurar, acertou de encontrar com effeito a mais linda joia que se póde imaginar, comprou para escrava de sua filha a filha de sua mulher, a irmã de seus filhos quem tal creria .
É uma menina branca, mimosa, rozada e linda como um anjo, — dizia Lucinda. — Tem cabellos soltos, pelle fina... encheo as vistas e fez a admiração de toda a gente de casa... os meninos, coitadinhos, sem saberem que ella é irmã delles, já lhe querem muito bem, por que ella não só é bonita como muito boasinha.
Conrado mal respirava ouvindo esta tosca mas fiel descripçào de sua filha. Basta, Lucinda, basta ! interrompeu elle impacientado,
agora só quero que me digas por que meio descobriste que essa menina é a filha de Adelaide.
Lucinda continuando revelou a Conrado as desconfianças, que lhe haviãD atravessado o espirito ao observar a notavel semelhança que as feições de Rozaura tinllào com as de Adelaide e mais ainda com as de Conrado.
Por fim contou-lhe como havia adquirido a certeza de que Rozaura era a filha de Adelaide, em razão do Signal que na vespera havia descoberto no peito da menina, e por certas perguntas que tinha feito, e cujas respostas combinavão perfeitamente com suas supposições.
— Deus me perdoe! concluio ella, — si juro falso... mas posso... devo jurar. . . Juro• que Rozaura é a filha de sinhé Adelaide, que fizerão baptizar como escrava.
Conrado escutou com a mais profunda attencão a longa narrativa, que a preta lhe fez em linguagem simples e expressiva, e de que demos um rapido resumo, por já ser conhecida do leitor.
Elle conhecia bem Lucinda, essa boa e fiel escrava, que creára Adelaide com o leite de seus peitos, e que sempre lhe fôra tão dedicada. Não lhe era possivel duvidar de suas deposições. Apenas a interrompera uma ou outra vez com interjeições de pasmo ou de dó, de despeito ou de colera,
—- Oh! meu Deus! meu Deus! — exclamou elle, quando Lucinda terminou. — Minha filha escrava! escrava de outros e por fim ser vendida á sua propria mãe Ah! maldito major! tu só és responsavel perante Deus e a humanidade de tão estranha desventura. Foste tu, e mais ninguem, que reduziste tua neta á condição de escrava. Mas eu juro por Deus e por tudo quanto ha sagrado, minha filha, a filha de Adelaide, em poucos dias será reconhecida livre, como nasceu, e não como liberta, custe o que custar, dinheiro, lagrimas, sangue mesmo, si fór preciso, Lucinda; tu bem vês, Deus nos favorece, e tu tens sido em tudo isto o instrumento da sua providencia.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.