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#Crônicas#Literatura Brasileira

História de quinze dias

Por Machado de Assis (1900)

De modo que, se um indivíduo escrever e assinar um artigo relativo à sua pessoa ou fatos que lhe dizem respeito, e o fizer responsabilizar por terceira pessoa, a quem tais negócios por maneira alguma pertencem, sem dúvida alguma que pelo código não é responsável o testa-de-ferro por esse artigo: mas são responsáveis o impressor ou o editor. 

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[15 abril] 

CHUMBO E LETRAS: tal é, em resumo, a história destes quinze dias. O caso das letras ainda hoje excita a curiosidade do leitor desocupado ou filósofo. Não é para menos: cinqüenta contos, que qualquer de nós diria serem cinqüenta realidades! É de fazer tremer a passarinha. 

Negociante conheço eu (e não só um) que, logo depois da primeira notícia dos jornais, correu a examinar todas as letras que possuía, a saber se alguma tinha por onde lhe pegasse a... Ia dizer — a polícia, mas agora me lembro que a polícia nem lhes pegou, nem sequer as viu. 

Este caso de letras falsificadas, que não existem, que o fogo lambeu, creio que tira ao processo todo o seu natural efeito. Há uma confissão, alguns depoimentos, mas o documento do crime? Esse documento, já agora introuvable, tornou-se uma simples concepção metafísica. 

Outro reparo. Afirma-se que a pessoa acusada gozava de todo o crédito, e podia com seu próprio nome obter o valor das letras. Sendo assim, e não há razão para contestá-lo, o ato praticado é um desses fenômenos morais inexplicáveis que um filósofo moderno explica pela inconsciência, e que a Igreja explica pela tentação do mal. Quê! ter todas as vantagens da honestidade, da santa honestidade, e atirar-se cegamente do parapeito abaixo! Há nisto um transtorno moral um caso psicológico. Ou há outra coisa, um efeito do que o Globo, com razão, chama— necessidades supérfluas da sociedade. 

II 

Não há a mesma coisa nos canos de chumbo. Nesses abençoados ou malditos canos há, em primeiro lugar, água, depois da água há veneno ou saúde. Questão de ponto de vista. 

Uns querem que o chumbo seja uma Locusta metálica. Outros crêem que ele é simplesmente Eva antes da cobra. Eu suponho que a questão não está decidida de todo, mas acrescento que, se em vez de Eva, fosse Locusta, há muito que este Rio de Janeiro estaria, não digo às portas da morte, mas às do cemitério. 

Pois o tal saturnino (é o nome do veneno) é assim tão feroz, e possuindo nossos honrados estômagos, ainda os não transportou para o Caju? Realmente, é um saturnino pacato. Individualizemos: é um Plácido Saturnino. 

Neste ponto, dá-me o leitor um piparote, com a ponta do seu fura-bolos, e eu não posso decentemente restituir-lho, porque não sei química, e estou a falar de substâncias venenosas, de sais, de saturnos... Que quer? Vou com as turbas.

Se os profissionais soubessem como esta questão de chumbo transformou a cidade em uma academia de ciências físicas, inventariam questões destas todas as semanas. Ainda não entrei num bond em que não ouvisse resolver a questão agora cometida a uma comissão de competentes. Resolvida; resolvidíssima. 

Entra-se no Catete, começa a controvérsia, na altura da Glória, ainda subsistem algumas dúvidas; na Lapa, falta só resolver um ou dois sais. Na Rua Gonçalves Dias, o problema não existe; é morto. 

Ora, eu, vendo isso, não quero ficar atrás; também posso dar uma colherada da substância saturnina... 

III 

Depois do chumbo e das letras, o sucesso maior da quinzena foia descoberta que um sujeito fez de que o método Hudson é um método conhecido nos Açores. 

Será? 

Conhecendo apenas um deles, não posso decidir. Mas o autor brasileiro, intimado a largar o método, veio à imprensa declarar que lhe não pegou, que nem mesmo o conhece de vista. Foi ao Gabinete Português de 

Leitura, a ver se alguém lhe dava novas do método, e nada. 

De maneira que o Sr. Hudson teve esse filho, criou-o, e pô-lo no colégio, e um filho contra o qual reclama agora outro pai. E por desgraça não pode ele provar que não há pai anterior e que só ele o é. 

E se forem ambos? Se o engenho de um e outro se houverem encontrado? Talvez seja essa a explicação. 

Em todo o caso, se eu alguma vez inventar qualquer método, não o publico, sem viajar o globo terráqueo, de escola em escola, de livreiro em livreiro, a ver se descubro algum método igual ao meu. Não excetuarei a China, onde havia imprensa antes de Gutenberg: irei de pólo a pólo. 

IV 

Prende-se ao caso do chumbo, o caso da água de vintém. 

Esta água de vintém é a que eu bebo, não por medo do chumbo, mas porque me dizem ser uma água muito pura e leve. 

Aparece, porém, no Jornal do Comércio um homem curioso e céptico. Esse homem observa que se está bebendo muita água de vintém . . . 

Eu já tenho feito a mesma reflexão; mas sacudi-a do espírito para não perder a fé, aquela fé, que salva muito melhor do que o pau da barca. 

(continua...)

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