Por Bernardo Guimarães (1883)
— Mecê tem toda a razão, nhÔ Conrado; meu sinhô velho é homem que não tem coracão. Como mecês dois se querião bem desde creança, ah ! meu Deos! nunca vi um amor assim. Si ao menos sinhá Adelaide lhe tivesse dado uma filhinha. como mecé havia de querer bem a ella ! . ..
Que lembrança é essa, Lucinda lhou Conrado atonito e estremecendo ao ouvir taes palavras. — Que queres dizer com isso Q mas bem ves que isso era impossivel.
— Mas faça de conta, — insistio a preta com certo sorriso, que fez scismar a Conrado ; si assim acontecesse... si um filho ou uma filha...
— Oh ! si assim fosse, seria para mim uma grande consolação, a unica talvez, que poderia mitigar a dór profunda, que sempre me acompanhará por ter perdido Adelaide. Tu tens razão, eu sou como o viuvo que perdeo a esposa idolatrada ainda na flor dos annos, sem que de sua união ficasse um fructo, em que empregasse os extremos de seu coração. Olha, Lucinda, — continuou elle abrindo um cofreSinho e tirando delle um papel, que embrulhava um pequeno ramalhete de flores mur chas, que estavão quasi pulverísadas. — Ves estas flores murchas? ja nem se sabe o que são. Foi ella, que m'as deo no jardim da chacara um dia, em que declarou-me francamente o seu amor. No dia em que eu soube do casamento de Adelaide, quiz deitar fóra estas flóres; mas não tive animo, parecia que o meu coração adivinhava que ella era innocente. É tudo que resta de nosso antigo amor; são estas flóres murchas e poidas, fiel emblema de minhas illusões perdidas, de minhas esperancas esmagadas pelas mãos do destino. Si eu conservo com tanto amor e tao religioso cuidado estas reliquias mortas de nossa affeiçào. de que extremos, de que adorações nao rodearia o fructo vivo e animado de nosso amor! . .. Mas Deus assim nao permittio; nem isso era possivel...
Conrado interrompeo-se; a ernoção, que se apoderava de sue alma com aquellas recordaçõeg, provocavão-lhe as lagrimas. Pousou a fronte sobre a almofada do sophá, e escondeo o rosto entre as mãos procurando dominar sua perturbação. Lucinda o contemplava com ay satisfeito e enternecido, e nao quiz perturbal-o em sua passageira scisma; as cousas corpiño do modo o mais propicio papa o intento, que alli a trouxera.
Mas dize-me, Lncinda, — disse bruscamente Conrado, levantando a cabeça da almofada, — a que proposito te veio essa lembrança de um filho meu e de Adelaide, de uma cousa impossivel ?
Impóssivel Ah! meu branco, perdão, eu sei de tudo.
— De que, Lucinda? — exclamou o moço impacientando-se.
— Não se zangue com sua preta, nhÔ Conrado, disse Lucinda abafando a voz e com ar supplicante. — Eu sei de tudo o que mecê sabe, e de mais alguma cousa, que mecê ainda não sabe.
— Matas-me a paciencia!... falla de uma vez, Lucinda.
— Pois bem, eu vou fallar bem claro. Sinhá Adelaide teve uma filha, que nasceo poucos mezes depois que mecê desappareceo de S. Paulo.
— Que estás dizendo, Lucinda! — gritou Conrado levantando-se de um salto, e collocando-se defronte da preta arquejante e pallido de sorpreza e emoção. — Adelaide teve uma filha... de mim?
— Pois de quem mais, nhO Conrado'?...
— E é viva ainda?
— É sim, senhor.
— E onde está ella?
— Lá em casa.
— Em casa de quem?
— De meu senhor ; com sinhá Adelaide.
— Sancto Deos!... como póde ser isto!... minha filha, si a tenho, deve estar já entrada em quatorze annos ; entretanto ha mais de cinco annos, que moro aqui S. Paulo, nunca me constou que em casa do major existisse essa menina. Oh! porque não me contarão isso ha mais tempo?...
— Ah! meu senhor moço ! quer mecê creia, quer não creia, é porque nós tambem não ficamos sabendo de tal cousa, sinão de hontem para hoje, e ha apenas um mez que a menina está lá em casa. E saiba mais uma cousa, que lhe vae doer bastante no coração, mas tenha paciencia, é preciso que saiba de tudo para poder valer á sua filha. Saiba que sua filha foi para lá como escrava, e como escrava là está até agora.
— Como escrava!... minha filha como escrava! e em casa de sua propria mãe tu estás zombando commigo, Lucinda! explicame isso já, si não queres me pôr doido.
— Tenha paciencia, nho Conrado; sente-se outra vez no seu canapé, socegue seu coração, que eu lhe vou contar tudo o que aconteceo depois que mecê se foi embora de S. Paulo.
— Sim ! sim ! . . . conta-me tudo, e depressa, que estou morrendo de impaciencia.
Conrado chamou um creado, e ordenou-lhe que dissesse a quem quer que o procurasse,que não se achava em casa. Interessava-lhe ao ultimo ponto a narração que ia escutar, e não lhe convinha por modo algum ser interrompido. Não quiz que se accendessem luzes no salão, — pois já vinha descendo a noite, re— commendou que todos os famulos e escravos se recolhessem ao fundo do edificio, trancou algumas portas, e voltou para junto de Lucinda.
Todas estas precauções, inspiradas pelos nobres e delicados sentimentos de Conrado, erão necessarias, porque só elle devia ouvir o que a preta ia revelar; tratava-se da honra de uma senhora, a quem muito amára, a quem muito estimava ainda, e cuja reputação até aquella data se tinha conservado illibada.
Que diabo de negocio terá elle com aquella bruxa velha? murmuravão entre si os creados curiosos e pasmados de tão estranha e mysteriosa conferencia.
CAPITULO VIII
Revelação.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.