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#Contos#Literatura Brasileira

Linha reta e linha curva

Por Machado de Assis (1871)

- Não devia ter ido. Devia pertencer sempre à sua mulher. Sei que estou falando a um descrido; não pode calcular a felicidade e os deveres do lar doméstico. Viverem duas criaturas uma para outra, confundidas, unificadas; pensar, respirar, sonhar a mesma cousa; limitar o horizonte nos olhos de cada uma, sem outra ambição, sem inveja de mais nada. Sabe o que é isto? 

- Sei... É o casamento por fora. 

- Conheço alguém que lhe provava aquilo tudo... 

- Deveras? Quem é essa fênix? 

- Se lho disser, há de mofar; não digo. 

- Qual mofar! Diga lá, eu sou curioso. 

- Não acredita que haja alguém que possa amá-lo? 

- Pode ser... 

- Não acredita que alguém, por despeito, por outra cousa que seja, tire da originalidade do seu espírito os influxos de um amor verdadeiro, mui diverso do amor ordinário dos salões; um amor capaz de sacrifício, capaz de tudo? Não acredita! 

- Se me afirma, acredito; mas...

- Existe a pessoa e o amor. 

- São então duas fênix. 

- Não zombe. Existem... Procure... 

- Ah! isso há de ser mais difícil: não tenho tempo. E supondo que achasse, de que me servia? Para mim é perfeitamente inútil. Isso é bom para outros; para o Diogo, por exemplo... 

- Para o Diogo? 

A bela viúva pareceu ter um assomo de cólera. Depois de um silêncio disse: - Adeus! Desculpe, estou incomodada. 

- Então, até amanhã! 

Dizendo o que, Tito apertou a mão de Emília e saiu tão alegre e descuidoso como se saísse de um jantar de anos. 

Emília, apenas ficou só, caiu numa cadeira e cobriu o rosto. 

Estava nessa posição havia cinco minutos, quando assomou à porta a figura do velho Diogo. 

O rumor que o velho fez entrando despertou a viúva. 

- Ainda aqui! 

- É verdade, minha senhora, disse Diogo aproximando-se, é verdade. Ainda aqui, por minha infelicidade... 

- Não entendo... 

- Não saí para casa. Um demônio oculto me impeliu para cometer um ato infame. Cometi-o, mas tirei dele um proveito; estou salvo. Sei que me não ama. 

- Ouviu? 

- Tudo. E percebi. 

- Que percebeu, meu caro senhor? 

- Percebi que a senhora ama o Tito.

- Ah! 

- Retiro-me, portanto, mas não quero fazê-lo sem que ao menos fique sabendo de que saio com ciência de que não sou amado; e que saio antes de me mandarem embora. 

Emília ouviu as palavras de Diogo com a maior tranqüilidade. Enquanto ele falava teve tempo de refletir no que devia dizer. 

Diogo estava já a fazer o seu último cumprimento, quando a viúva lhe dirigiu a palavra. 

- Ouça-me, Sr. Diogo. Ouviu bem, mas percebeu mal. Já que pretende ter sabido... 

- Já sei; vem dizer que há um plano assentado de zombar com aquele moço... - Como sabe? 

- Disse-mo D. Adelaide. 

- É verdade. 

- Não creio. 

- Por quê? 

- Havia lágrimas nas suas palavras. Ouvi-as com a dor n’alma. Se soubesse como eu sofria! 

A bela viúva não pôde deixar de sorrir ao gesto cômico de Diogo. Depois, como ele parecesse mergulhado em meditação sombria, disse: 

- Engana-se, tanto que volto para a cidade. 

- Deveras? 

- Pois acredita que um homem como aquele possa inspirar qualquer sentimento sério? Nem por sombras! 

Estas palavras foram ditas no tom com que Emília costumava persuadir aquele eterno namorado. Isso e mais um sorriso, foi quanto bastou para acalmar o ânimo de Diogo. Daí a alguns minutos estava ele radiante. 

- Olhe, e para desenganá-lo de uma vez vou escrever um bilhete ao Tito...

- Eu mesmo o levarei, disse Diogo louco de contente. 

- Pois sim! 

- Adeus, até amanhã. Tenha sonhos cor-de-rosa, e desculpe os meus maus modos. Até amanhã. 

O velho beijou graciosamente a mão de Emília e saiu. 


Capítulo IV 


No dia seguinte, ao meio-dia, Diogo apresentou-se ao Tito, e depois de falar sobre diferentes cousas, tirou do bolso uma cartinha, que fingira ter esquecido até então, e a qual mostrava não dar grande apreço. 

"Que bomba!" disse ele consigo, na ocasião em que Tito rasgou a sobrecarta. Eis o que dizia a carta: 

“Dei-lhe o meu coração. Não quis aceitá-lo, desprezou-o mesmo. A sua bota magoou-o demais para que ele possa palpitar ainda. Está morto. Não o censuro; não se deve falar de luz aos cegos; a culpada fui eu. Supus que pudesse dar-lhe uma felicidade, recebendo outra. Enganei-me. 

Tem a glória de retirar-se com todas as honras de guerra. Eu é que fico vencida. Paciência! Pode zombar de mim; não lhe contesto o direito que tem para isso. 

Entretanto, devo dizer-lhe que eu bem o conhecia; nunca lho disse, mas conhecia-o; desde o dia em que o vi pela primeira vez em casa de Adelaide, reconheci na sua pessoa o mesmo homem que um dia veio atirar-se aos meus pés... Era zombaria então, como hoje. Eu já devia conhecê-lo. Caro pago o meu engano. Adeus, adeus para sempre.” 

(continua...)

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