Por Machado de Assis (1876)
Peço-lhe que me comunique todas as más impressões que tiver a meu respeito. Explicarei umas, procurarei desvanecer-lhe outras, emendando-me. Sobretudo, peço-lhe que escreva em seu espírito esta verdade: é que sou uma pobre alma lançada num turbilhão.
Estácio ia pedir explicação mais desenvolvida daquelas últimas palavras; mas Helena, como se esperasse a pergunta, brandira o chicote, e deitou a égua a correr. Estácio fez o mesmo ao cavalo; daí a alguns minutos entravam na chácara, ele aturdido e curioso, ela com a face vermelha e a bater-lhe violentamente o coração.
CAPÍTULO VII
Apearam-se os dois no terreiro e dirigiram-se para a escada que ia ter à varanda.
Pisando o primeiro degrau, disse Estácio:
Helena, explique-me suas palavras de há pouco.
Quais?
E como Estácio levantasse os ombros, com ar de despeito, continuou Helena:
Perdoe-me; a pergunta não tem nem podia ter outra resposta mais do que a simples recusa. Não lhe direi mais nada. Nunca se devem fazer meias confissões; mas, neste caso, a confissão inteira seria imprudência maior. Se se tratasse de fatos, creia que a ninguém melhor podia confiá-los do que a você; mas por que motivo irei perturbar-lhe o espírito com a narração de meus sentimentos, se eu própria não chego a entender-me?
Estácio não insistiu. Subiram a escada, atravessaram a varanda e entraram na sala de jantar, onde acharam D. Úrsula dando as ordens daquele dia a dois escravos. Estácio entrou pensativo; Helena mudou totalmente de ar e maneiras. Alguns segundos antes era sincera a melancolia que lhe ensombrava o rosto. Agora regressara à jovialidade de costume. Dissera- se que a alma da moça era uma espécie de comediante que recebera da natureza ou da fortuna, ou talvez de ambas, um papel que a obrigava a mudar continuamente de vestuário. D. Úrsula viu-a entrar risonha e ir a dar-lhe os costumados bons dias, — que eram sempre um beijo, — ou antes dois, — um na mão, outro na face.
Demorei-me muito? perguntou ela voltando rapidamente o corpo, de maneira a ver o relógio que ficava do outro lado da sala. Nove horas! Que passeio, senhor meu irmão!
Estácio olhava para ela silencioso e não lhe respondeu. Foram logo depois mudar de roupa, e o almoço reuniu a família. D. Úrsula propôs, durante ele, algumas mudanças na disposição da chácara, mudanças que foram longamente discutidas com o sobrinho, e aceitas afinal por este. O dia estava sombrio e fresco; D. Úrsula desceu à chácara com Estácio. As alterações foram ainda estudadas e combinadas no próprio terreno, com assistência do feitor, logo que acabou a deliberação e que o projeto de D. Úrsula foi definitivamente assentado, Estácio reteve-a e lhe disse:
Preciso falar-lhe um instante.
Também eu.
Quais são os seus sentimentos atuais em relação a Helena? Oh! não precisa franzir a testa nem fazer esse gesto de aborrecimento. Tudo são meras aparências. Não creio que seja absolutamente amiga dela; mas não pode negar que a antipatia desapareceu ou diminuiu muito.
Diminuiu, talvez.
E com razão. Pensa que também eu não tive repugnâncias, depois que ela aqui entrou? Tive-as; mas se não houvessem desaparecido, — desapareceriam hoje de manhã.
Como?
Estácio referiu à tia a cena do capítulo anterior e as palavras que lhe dissera Helena.
D. Úrsula sorriu ironicamente.
Não a impressiona isto? perguntou Estácio.
Não, respondeu D. Úrsula com decisão; a frase de Helena é achada em algum dos muitos livros que ela lê. Helena não é tola; quer prender-nos por todos os lados, até pela compaixão. Não te nego que começo a gostar dela; é dedicada, afetuosa, diligente; tem maneiras finas e algumas prendas de sociedade. Além disso, é naturalmente simpática. Já vou gostando dela; mas é um gostar sem fogo nem paixão, em que entra boa dose de costume e necessidade. A presença de outra mulher nesta casa é conveniente, porque eu estou cansada. Helena preenche essa lacuna. Se alguma coisa, entretanto, a podia prejudicar nas nossas rela- ções é esse dito.
Estácio tomou calorosamente a defesa da irmã.
O que eu lhe contei, disse ele, foram apenas as palavras. Não pude nem poderei reproduzir a expressão sincera com que ela as proferiu, e a profunda tristeza que havia em seus olhos. Não lhe nego que, ao vê-la mudar tão depressa e entrar alegre na sala, senti tal ou qual abalo de dúvida, mas passou logo. Ela tem o poder de concentrar a amargura no coração; também a dor tem suas hipocrisias...
Mas que dor? que amargura? interrompeu D. Úrsula. A dor de ser legitimada? a amargura de uma herança?
Estácio protestou calorosamente contra aquele caminho que a tia dava às suas idéias; enfim pediu-lhe que interrogasse com cautela a irmã.
Um homem, concluiu ele, é menos apto para obter tais confissões; uma senhora, respeitável e parenta, está mais no caso de lhe captar a confiança e obter tudo. Quer incumbir- se desse delicado papel?
Pedes muito, respondeu D. Úrsula. Verei se te posso dar metade disso. Era só o que tinhas para dizer?
Só.
Uma criancice! Eu tenho coisa mais séria. O Dr. Camargo escreveu-me; trata-se...
Não precisa dizer mais nada, interrompeu Estácio; lá vem ele. Camargo aparecera efetivamente a vinte passos de distância.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.