Por Bernardo Guimarães (1883)
Achando-se já sufficientemente rico para passar vida independente entre os esplendores de luxo e da opulencia, deixou a vida fragueira de muladeiro, e veio estabelecer se na capital da provincia, onde comprou no centro da cidade um vasto predio, que ornou e mobiliou com todo o luxo e magnificencia. Possuia uma cocheira sempre guarnecida dos mais bellos e vi oorosos animaes, e um formoso e elegante caleche, no qual se apavonava com aristocrarico desplante com personagens altamente collocadas, percorrendo as ruas mais publicas da cidade. Com esta ostentação que nem estava em seu caracter lhano e despretencioso, nem se harmonisava com suas idéas eminentemente democraticas tinha somente em vista esmagar a estolida vaidade do major, ao qual pretendia não só humilhar, como tambem expor ao ultimo ridiculo perante a sociedade paulistana. Tres ou quatro vezes mais rico do que elle, conhecendo a baixa linhagem de que procedia o seu velho ex-patrão e sabedor de todas as suas manias e de seus precedentes, Conrado jogava com inquestionavel superioridade, e o capatáz outrora achincalllado e expellido podia acrora calcar aos pés a philaucia ridicula e imbecil de seu antigo patrão. Todavia as vingativas intenções, com que chegara a S. Paulo, esmorecerão e esfriárão completamente com as informações que tevc logo depois da sua chegada. Só então soube que ha muito tempo passava por morto. Este boato, que correra em S. Paulo e fôra geralmente acreditado, tivera por origem o facto de ter realmente morrido no Sincorá um outro negociante do mesmo nome e da mesma provincia que Conrado, e tendo chegado essa noticia a S. Paulo, onde o outro era desconhecido, todos facilmente acreditárão que o fallecido era o amante de Adelaide. O major Damazio foi o mais empenhado em propalav esta noticia, que muito estimou, fingindo até ter recebido cartas que confirmavão, pois elle até scria capaz de invental-a só para destruir as esperanças que sua filha por ventura ainda nutrisse a respeito do capatáz. O tempo, os trabalhos e os soffrimentos não tinhão podido extinguir de todo no coração de Conrado aquelle amor profundo e ardente, que concebera por aquella que fôra o enlevo de seus primeiros annos, e o sonho inebriante de sua mocidade, amor de que conservava ainda amarga e saudosa recordação, Ao saber em S. Paulo que Adelaide fôra illudida como todos, acreditando em sua morte, que não de muito bom grado consentira em se casar, e que como esposa e mãe tinha tido sempre uma vida honesta e exemplar; teve dobrado motivo para lastimar sua sorte por ter perdido aquelle anjo que o céo lhe havia destinado, e que a estolida vaidade de um pae insensato lhe havia roubado para sempre. Desvaneceo-se dc todo o despeito, que conservava contra Adelaide, perdoou-lhe de todo o seu coração, mas sua animosidade contra o majar por isso mesmo mais recrudesceo, e si o poupou, e não levou sua vingança ao extremo que desejava, foi em attenção á estima e consideração que lhe merecia a filha.
A unica e ligeira vingança, de que usava, era quando repoltreando em seu lindo caleche em companhia de pessoas de alta consideração, si por acaso encontrava pelas ruas o major, o saudava con a ponta dos dedos, dizendo—lhe com zombeteira familiaridade Adeus, major; como vae essa bizarria !
— O major horrorizava-se como si tivesse visto o diabo, enterrava ainda mais o chapéo na cabeça, e seguia seu caminho a tossir, escarrar e resmungar, com o que muito Conrado se divertia.
Conrado era capitalista ; não tinha armazem, nem loja; sua fortuna girava productivamente, sem que suas mãos morenas c musculosas, mas delicadas, precisassem descalçar a luva para pegar no covado. Era correspondente de grande numero de estudantes, com os quaes entretinha relações de amizade. Os estudantes o estimavão e frequentavão, não só por suas bellas qualidades, como cambem porque Conrado atravéz das vicissitudes de sua vida agitada soubera cultivar seu espirito, amava e leitura e apreciava a sociedade dos litteratos. Muitos e vantajosos casamentos se lhe tinhão offerecido; mas a todos elle se havia esquivado ;
a triste recordação de seu primeiro amor tão malaventurado o fazia recuar ante a idéa do casamento.
Achava-se elle pois nesta brilhante e invajavel situação, quando se derão os factos, que temos referido, e que vierão de novo pôl-o em contacto, ainda que em condições bem differentes, com a familia do major, com a qual suas relações ha mais de doze annos achavão-se quebradas.
Na tarde pois desse mesmo dia, em que Lucinda teve com sua senhora a conversação, de que demos conta no capitulo antecedente, a velha escrava foi baterá porta do aristocratico predio em que Conrado residia. Era já sol posto, e felizmente para Lucinda, achava-se Conrado sósinho em seu salão de visitas, donde ainda ha pouco se tinhão retirado alguns illustres personagens. Estava clle nessa occasião meio reclinado em um sophá, justamente embebido em ternas e dolorosas recordações dos amores de sua mocidade, da sua querida Adelaide, aos pés da qual com quanto prazer não teria deposto toda aquella riqueza e opulencia, de que gozava, si uma estrella funesta não tivesse vindo perturbar o seu destino, e entenebrecer para sempre os horizontes de sua vida Quando um criado veio annunciar-lhe que uma preta velha o vinha procurar e desejava como um grande favor fallar-lhe em particular. Conrado que era bomfazejo e esmolér, julgou que seria alguma desgraçada, como tantas outras, a quem costumava fazer generosas esmólas. Quando porém depois de a ter feito entrar no salão, reconheceo a velha escrava do major, sentio um choque inexplicavel.
Oh! és tu, Lucinda! exclamou com sorpreza e emoção. — Tu em Ininha casa! É uma grande novidade. Há mais de doze anos que não fallo com pessoa alguma de lua casa, á excepção do teu hello senhor, a quem ás vezes comprimento, quando o encontro na rua.
— É mesmo, nhô Conrado, é mesmo uma grande novidade, que hoje me traz á sua casa.
Devéras! deve ser mesmo assim, pois já vão para seis annos , que moro aqui em S. Paulo, e é a primeira vez que vens á minha casa.
—Podia e devia ter vindo ha mais tempo si ha mais tempo tivesse sabido da grande novidada, que hoje me traz aqui; mas só hontem é que vim a saber.
Enches—me de curiosidade, Lucinda ; senta-te ahi n'uma cadeira e vamos á tua novidade. És uma excellente rapariga, e cstou certo que por tua vontade só eu não teria soffrido o que soffri em casa de teu senhor. Mas antes dc (judo, (lize-me, como vac tua senhora? goza saude, c vive satisfeita?
— Ella vae indo bom, louvado seja Deos. Mccê ainda se lembra d'ella?
Como não, Lucinda? replicou Conrado algum tanto desconfiado da pergunta; — lembro-me sempre della e com muita saudade, mas com amor não; bem vés que isso hoje é imnossivel.
Mecé não me entende ; eu queria saber si não ficou querendo mal a ella pelo que aconteceo.
— Por ella ter-se casado?
— Senhor, sim.
— A dizer-te a verdade, Lucinda, a principio fiquei com bastantc odio (lella, porque não sabia das tramoias, que cá se armárão dando-me por morto. Mas dcpois que soube de tudo, perdoei-lhe do fundo d'alma, e só fiquei corn urn grande pesar, que ha de durar sempre em meu coraçã(E e um grande odio e rancor, que tambem nunca se ha de extinguir, contra teu senhor, que foi o unico causador de toda nossa desgraça.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.