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#Contos#Literatura Brasileira

Linha reta e linha curva

Por Machado de Assis (1871)

Havia já uma hora que os dous solitários tinham saído de casa. A casa ficara já um pouco longe. Nada mais natural do que chegar a polícia nessa ocasião, tomar a entrada da casa e reconhecer o mistério. Mas a polícia, apesar dos meios que tinha à sua disposição, não se animava a investigar no mistério que o povo reputava diabólico. Também a polícia é humana, e nada do que é humano lhe é desconhecido. 

Havia uma hora, disse eu, que os dous passeadores tinham saído de casa. Começavam então a subir uma pequena colina…”


Tito foi interrompido por um bocejo do velho Diogo. 

- Quer dormir? perguntou o rapaz. 

- É o que vou fazer. 

- Mas a história? 

- A história é muito divertida. Até aqui só temos visto duas cousas, um homem e um macaco; perdão... temos mais dous, um macaco e um homem. É muito divertida! Mas, para variar, o homem vai sair e fica o macaco. 

Dizendo estas palavras com uma raiva cômica, Diogo travou do chapéu e saiu. 

Tito soltou uma gargalhada. 

- Mas vamos ao fim da história... 

- Que fim, minha senhora? Eu já estava em talas por não saber como continuar... Era um meio de servi-la. Vejo que é um velho aborrecido... 

- Não é, está enganado. 

- Ah! não? 

- Divirto-me com ele. O que não impede que a presença do senhor me dê infinito prazer... 

- Vossa Excelência disse agora uma falsidade. 

- Qual foi? 

- Disse que lhe era agradável a minha conversa. Ora, isso é falso como tudo quanto é falso... 

- Quer um elogio? 

- Não, falo franco. Eu nem sei como Vossa Excelência me atura; desabrido, maçante, chocarreiro, sem fé em cousa alguma, sou um conversador muito pouco digno de ser desejado. É preciso ter uma grande soma de bondade para ter expressões tão benévolas... tão amigas... 

- Deixe esse ar de mofa, e... 

- Mofa, minha senhora?

- Ontem eu e minha tia tomamos chá sozinhas! sozinhas!... - Ah! 

- Contava que o senhor viesse aborrecer-se uma hora conosco... - Qual aborrecer... Eu lhe digo: o culpado foi o Ernesto. 

- Ah! foi ele? 

- É verdade; deu comigo aí em casa de uns amigos, éramos quatro ao todo, rolou a conversa sobre o voltarete e acabamos por formar mesa. Ah! mas foi uma noite completa! Aconteceu-me o que me acontece sempre: ganhei! 

- Está bom. 

- Pois olhe, ainda assim eu não jogava com pexotes; eram mestres de primeira força: um principalmente; até às onze horas a fortuna pareceu desfavorecer-me, mas dessa hora em diante desandou a roda para eles e eu comecei a assombrar... pode ficar certa de que os assombrei. Ah! é que eu tenho diploma... mas que é isso, está chorando? 

Emília tinha com efeito o lenço nos olhos. Chorava? É certo que quando tirou o lenço dos olhos, tinha-os úmidos. Voltou-se contra a luz e disse ao moço: 

- Qual... pode continuar. 

- Não há mais nada; foi só isto, disse Tito. 

- Estimo que a noite lhe corresse feliz... 

- Alguma cousa... 

- Mas a uma carta responde-se; por que não respondeu à minha? disse a viúva. 

- À sua qual? 

- A carta que lhe escrevi pedindo que viesse tomar chá conosco? - Não me lembro. 

- Não se lembra?

- Ou, se recebi essa carta, foi em ocasião que a não pude ler, e então esqueci, esqueci-a em algum lugar... 

- É possível: mas é a última vez... 

- Não me convida mais para tomar chá? 

- Não. Pode arriscar-se a perder distrações melhores. 

- Isso não digo: a senhora trata bem a gente, e em sua casa passam-se bem as horas... Isto é com franqueza. Mas então tomou chá sozinha? E o Diogo? 

- Descartei-me dele. Acha que ele seja divertido? 

- Parece que sim... É um homem delicado; um tanto dado às paixões, é verdade, mas sendo esse um defeito comum, acho que nele não é muito digno de censura. 

- O Diogo está vingado. 

- De que, minha senhora? 

Emília olhou fixamente para Tito e disse: 

- De nada! 

E levantando-se dirigiu-se para o piano. 

- Vou tocar, disse ela; não o aborrece? 

- De modo nenhum. 

Emília começou a tocar; mas era uma música tão triste que infundia certa melancolia no espírito do moço. Este, depois de algum tempo, interrompeu com estas palavras: 

- Que música triste! 

- Traduzo a minha alma, disse a viúva. 

- Anda triste? 

- Que lhe importam as minhas tristezas? 

- Tem razão, não me importam nada. Em todo o caso não é comigo?

Emília levantou-se e foi para ele. 

- Acha que lhe hei de perdoar a desfeita que me fez? disse ela. 

- Que desfeita, minha senhora? 

- A desfeita de não vir ao meu convite? 

- Mas eu já lhe expliquei... 

- Paciência! O que sinto é que também nesse voltarete estivesse o marido de Adelaide. 

- Ele retirou-se às dez horas, e entrou um parceiro novo, que não era de todo mau. 

- Pobre Adelaide! 

- Mas se eu lhe digo que ele se retirou às dez horas... 

(continua...)

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