Por Machado de Assis (1900)
Teve a bisnaga uma origem alegre, medicinal e filosófica. Isto é o que não hão de saber nem de dizer os grandes sábios do futuro. Salvo, se certo número da Ilustração chegar até eles, em cujo caso lhes peço o favor de me mandarem a preta dos pastéis.
III
Falei há pouco do que há de substituir o carnaval, se ele definitivamente expirar. Deve ser alguma coisa igualmente alegre: por exemplo, a Porta Otomana.
Vejam isto! Um ministro patriota leva a entreter toda a Europa a roda de uma mesa, a fazer cigarros das propostas diplomáticas, a dizer aos ministros estrangeiros que eles são excelentes sujeitos para uma partida de whist ou qualquer outro recreio que não seja impor a sua à Turquia; os ditos ministros estrangeiros desesperam, saem com um nariz de duas toesas, dando a Turquia a todos os diabos; vai senão quando o Jornal do Comércio publica um telegrama em que nos diz que o dito ministro turco, patriota, vencedor da Europa, foi destituído por conspirar contra o Estado!
Alá! Aquilo é governo o Pera de Satanás? Inclino-me a crer que é simplesmente Pera. A porta tem muitos outros e vários alçapões, por onde sai ou mergulha, ora um sultão, ora um grão-vizir, de minuto a minuto ao som de um apito vingador. Todas as mutações são à vista. Eu, se na Turquia tivesse a infelicidade de fazer um dos primeiros papéis, metia claque na platéia para ser pateado. Creio que é o único recurso para voltar inteiro ao camarim.
IV
Sobre isto de voltar inteiro, dou meus parabéns aos deputados da assembléia provincial, que puderam regressar intactos depois de 72 horas de discussão.
Um ponto obscuro em todos os artigos e explicações, notícias e comentários, é se o presidente da assembléia foi o mesmo em todos os três dias e noites. Se foi, deve Ter o mesmo privilégio daquele gigante da fábula, que dormia com cinqüenta olhos enquanto velava com os outros cinqüenta. Eram cinqüenta ou mais? Não estou certo no ponto. Do que estou certo é que ele repartia os olhos, uns para dormir, outros para velar, como nós fazemos com os urbanos; velam estes enquanto caímos nos braços de Morfeu...
Pois é verdade; setenta e duas horas de sessão. Esticando um pouco ia até a Páscoa. Cada um dos deputados, ao cabo desta longa sessão, parecia um Epimênides, ao voltar à rua do Ouvidor; tudo tinha ar de novo, de desconhecido, de outro século.
Felizmente acabou.
V
Não acabarei sem transcrever nesta coluna um artiguinho, que li nos jornais de terça-feira :
Duas das mais grosseiras e desmoralizadas criaturas têm freqüentado os bailes, causando os mais desagradáveis episódios aos que têm tido a infelicidade de aproximar-se-lhes.
Essas duas filhas de Eva acharam-se anteontem no teatro D. Pedro II vestidas en femme de la hâlle ( filha da Madame Angot), e hoje também dizem que lá se acharão...
Seria bom que o empresário tivesse algum fiscal encarregado de vigiá-las, para evitar incidentes tais como se deram no Domingo passado.
Ó isca! Ó tempos! Ó costumes!
[ 9 ]
[15 de março ]
I
MAIS DIA menos dia, demito-me deste lugar. Um historiador de quinzena, que passa os dias no fundo de um gabinete escuro e solitário, que não vai às touradas, às câmaras, a Rua do Ouvidor, um historiador assim é um puro contador de histórias.
E repare o leitor como a língua portuguesa é engenhosa. Um contador de histórias é justamente o contrário de um historiador,não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias. Por que essa diferença Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar.
O certo é que se eu quiser dar uma descrição verídica da tourada de domingo passado, não poderei, porque não a vi.
Não sei se já disse alguma vez que prefiro comer o boi a vê-lo na praça.
Não sou homem de touradas; e se é preciso dizer tudo, detesto-as. Um amigo costuma dizer-me: — Mas já as viste?
— Nunca!
— E julgas do que nunca viste?
Respondo a este amigo, lógico mas inadvertido, que eu não preciso ver a guerra para detestá-la, que nunca fui ao xilindró, e todavia não o estimo. Há coisas que se prejulgam, e as touradas estão nesse caso.
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de quinze dias. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, s.d.