Por Machado de Assis (1876)
Tem razão, disse Helena; aquele homem gastará muito mais tempo do que nós em caminhar. Mas não é isto uma simples questão de ponto de vista? A rigor, o tempo corre do mesmo modo, quer o desperdicemos, quer o economizemos. O essencial não é fazer muita coisa no menor prazo; é fazer muita coisa aprazível ou útil. Para aquele preto o mais aprazível é, talvez, esse mesmo caminhar a pé, que lhe alongará a jornada, e lhe fará esquecer o cativeiro, se é cativo. É uma hora de pura liberdade.
Estácio soltou uma risada.
Você devia ter nascido...
Homem?
Homem e advogado. Sabe defender com habilidade as causas mais melindrosas. Nem estou longe de crer que o próprio cativeiro lhe parecerá uma bem-aventurança, se eu disser que é o pior estado do homem.
Sim? retorquiu Helena sorrindo; estou quase a fazer-lhe a vontade. Não faço; prefiro admirar a cabeça de Moema. Veja, veja como se vai faceirando. Esta não maldiz o cativeiro; pelo contrário, parece que lhe dá glória. Pudera! Se não a tivéssemos cativa, receberia ela o gosto de me sustentar e conduzir? Mas não é só faceirice, é também impaciência.
De quê?
Impaciência de correr por essa estrada da Tijuca fora, e beber o vento da manhã, espreguiçando os músculos, e sentindo-se alguma coisa senhora e livre. Mas que queres tu, minha pobre égua? continuou a moça indicando a cabeça até às orelhas do animal; vai aqui ao pé de nós um homem muito mau e medroso, que é ao mesmo tempo meu irmão e meu inimigo.
Helena! interrompeu Estácio; você é muito capaz de disparar a correr.
E se fosse?
Eu deixava-a ir, e nunca a traria em meus passeios. Você monta bem; mas não desejo que faça temeridades. Nós somos responsáveis, não só por sua felicidade, mas também por sua vida.
Helena refletiu um instante.
Quer dizer, perguntou ela, que se eu fosse vítima de um desastre, não faltaria quem o imputasse à minha família?
Justo.
Singular gente! Não há de ser tanto assim... Pois se eu me lembrasse — é uma suposição — se eu me lembrasse de deixar a vida por aborrecimento ou capricho, seria você acusado de me haver propinado o veneno? Não há melhor modo de me fazer evitar a morte.
Deixemos conversas lúgubres, e voltemos para casa, interrompeu Estácio.
Já!
Raras vezes passo daqui; e não pense você que é perto.
Parece-me que ainda agora saímos de casa. Vamos uns cinco minutos adiante?
Sim?
Estácio consultou o relógio.
Cinco minutos justos, disse ele.
Até aquela casa que ali está com uma bandeira azul.
Havia, efetivamente, cerca de quatro minutos adiante, à esquerda da estrada, uma casa de insignificante aparência, sobre cujo telhado flutuava uma bandeira azul presa a uma vara. Estácio conhecia a casa, mas era a primeira vez que via a bandeira. Helena pediu-lhe a explicação daquele apêndice.
Vá lá saber, disse o irmão rindo.
Helena deu de rédea à égua e adiantou-se alguns passos. Estácio apertou o animal e alcançou-a.
Não vá fazer tolices! disse ele em tom de branda repreensão. Aquilo é fantasia do morador, ou algum sinal de pássaros, ou qualquer outra coisa que não vale a pena de uma travessura. Contemplemos antes a manhã, que está deliciosa.
Helena não atendeu à proposta do irmão e foi andando, a passo lento, na direção da casa. A casa era velha, abrindo por uma porta para o alpendre antigo que lhe corria na frente. As colunas deste estavam já lascadas em muitas partes, aparecendo, aqui e ali, a ossada de tijolo. A porta estava meio aberta. Havia absoluta solidão, aparente ao menos. Quando eles lhe passaram pela frente, a porta abriu-se, mas se alguém espreitava por ela, ficou sumido na sombra, porque ninguém de fora o viu.
Cerca de cinco braças adiante, Estácio resolveu definitivamente regressar, e Helena não opôs objeção nenhuma. Torceram a rédea aos animais e desceram.
Não poderei falar à bandeira? perguntou a moça. Deixe-me ao menos dizer-lhe adeus.
Tinha já tirado da algibeira o seu fino lenço de cambraia; agitou-o na direção da casa.
Quis o acaso que a bandeira, até então quieta, se movesse ao sopro de uma aragem que passou.
Vê como ela me respondeu? Não se pode ser mais cortês! exclamou Helena, rindo.
Estácio riu também da lembrança da irmã, e ambos desceram, a passo lento, como haviam subido. Helena vinha taciturna e pensativa. Os olhos, cravados nas orelhas de Moema, não pareciam ver sequer o caminho que o animal seguia. Estácio, para arrancá-la ao silêncio, fez-lhe uma observação acerca de um incidente do caminho. Helena respondeu distraidamente.
Que tem você? perguntou ele.
Nada, disse ela; ia. . . ia embebida naquela toada. Não ouve?
Ouvia-se, efetivamente, a algumas braças adiante, uma cantiga da roça, meio alegre, meio plangente. O cantor apareceu, logo que os cavaleiros dobraram a curva que a estrada fazia naquele lugar. Era o preto, que pouco antes tinham visto sentado no chão.
Que lhe dizia eu? observou a irmã de Estácio. Ali vai o infeliz de há pouco. Uma laranja chupada no capim e três ou quatro quadras, é o bastante para lhe encurtar o caminho. Creia que vai feliz, sem precisar comprar o tempo. Nós poderíamos dizer o mesmo?
Por que não?
A moça recolheu-se ao silêncio.
Helena, isso que você acaba de dizer... Vamos, estamos sós; confesse alguma tristeza que tenha.
Nenhuma, respondeu a moça. Peço-lhe, entretanto, uma coisa.
Diga.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.