Por Machado de Assis (1876)
A carta foi escrita, mas não foi mandada. Daí a meia hora, anunciava-se nada menos que a rotunda pessoa da senhora D. Emiliana, que veio até à Gamboa arrastando a sua paciência e a idade, com grande espanto do padre Sá que nunca a vira ali; D. Emiliana pediu muitas desculpas ao padre da visita importuna que lhe fazia, pediu notícias da sua obrigação, queixou-se do calor, beijou três ou quatro vezes a face de Lulu, deitando-lhe duas figas para a livrar do quebranto, e só depois destes prólogos expôs o motivo do passo que acabava de dar.
— Não admira, padre-mestre, disse ela, não admira que eu aqui venha, porque enfim... ora, que há de ser? Coisas de rapazes...
— De rapazes?
— De rapazes e moças; ou antes, desta única moça, bonita como ela só!... Que olhos que ela tem! Dá cá outro beijo, feiticeira.
Lulu beijou a boa velha, e ficou ainda mais ansiosa que o tio por ouvir o resto da exposição. O padre fez sinal à sobrinha que se retirasse; não o consentiu D. Emiliana. — Oh! ela pode ficar aqui! Não vou dizer nada que ela não deva ouvir. — O que eu desejava saber antes de tudo, padre-mestre, é se tem feito alguma coisa para que o meu Pedro tome ordens.
— Bom. Tenho, decerto... E que mais ?
— E se é ainda intenção casar este anjinho com o senhor Alexandre... Alexandre, creio que é o nome dele?
— Mas... não sei a que propósito...
— A propósito de que estive hoje de manhã com o futuro esposo e o futuro padre, e ambos me pediram que interviesse por eles, de maneira que não houvesse demora nem no casamento nem na entrada no seminário.
— Nenhuma demora, D. Emiliana, disse o padre; é o meu maior desejo. Acho até esquisito que, por uma coisa tão simples...
— É menos simples do que parece.
— Ah!
— Menos simples, porque eles oferecem uma condição.
— Uma condição?
— Sim, reverendíssimo; ambos estão prontos a satisfazer os seus desejos, com a condição de que os há de trocar, passando o marido a ser padre, e o padre a ser marido. O dono da casa deu um pulo na cadeira. D. Emiliana assustou-se vendo o gesto, mas voltou logo os olhos para a moça, cujo olhar, radiante de prazer, mostrou à boa velha a excelente impressão que lhe fazia a notícia. Lulu beijou a mão de D. Emiliana, e este simples gesto revelara ao tio o estado do seu coração. O padre esteve algum tempo calado. Depois sorriu e disse:
— De maneira que tive a perspicácia de enganar-me até hoje; e ia fazer, sem consciência, um mau padre e um mau marido.
— Justamente, disse D. Emiliana.
— E cuidava ter-lhes adivinhado a vocação! Sempre lhe direi contudo que são dois velhaquetes os rapazes... Mas não importa; terei o padre e o esposo de Lulu, e direi a
Deus como Salomão: “
Não lhas negou Deus; o esposo e o padre foram exemplares; um está cônego; o outro trata de fazer o filho ministro de Estado. É possível que, a fazer as coisas como as queria o padre Sá, não houvesse nem cônego, nem ministro.
Segredo de vocação.
Mas que tem com esta história o título que lhe pus? Tudo; são umas vinte páginas para encher tempo. Em falta de coisa melhor, lê-se isto, e dorme-se.
ASSIS, Machado de. Encher tempo. 1876.