Por Bernardo Guimarães (1883)
Conrado sahio de S. Paulo com o desespero na alma e a mais pungente dÔr cravada no coração. Tinha bastante dinheiro para um rapaz solteiro, e achando-se inteiramente isento de dividas e compromissos, sahio a divagar pelo mundo sem destino certo a ver si pelas distracções das viagem conse o uir mitigar a magua, que lhe atormentava a existencia. Assim andou por espaço de dous annos peregrinando pelas provincias do Rio de Janeiro, Minas e Bahia, dispendendo a pequena fortuna, que em seis mezes o amor lhe fizera adquirir para ir depor aos pés de sua querida Adelaide, mas a despeito de todas as suas tentativas não conseguia esquecer-se da formosa companheira c amiga de sua infancia, da apaixonada e extremosa amante, que na mocidade lhe vertera pelos caminhos da vida o perfume do amor e da felicidade. Escreveo-lhe por diversas vezes, esperando sempre uma resposta, que nunca lhe chegou, porque como sabemos Adelaide não recebera nenhuma de suas cartas. No fim de dous annos chegou-lhe ás mãos uma carta, não dirigida a elle, que em S. Paulo passava por morto, mas a um paulista então residente no Sincorá, onde Conrado tambem se achava, na qual entre outras cousas se noticiava o casamento de Adelaide.
Este rude e doloroso golpe o prostrou por muito tempo, sua razão esteve a extinguir-se, e sua existencia vacillou ás bordas da sepultura; seus amigos e mesmo os medicos, quo o assistião, chegarão a desesperar de sua vida, Mas sua juvenil e robusta organização não permittio que succumbisse aos soffrimentos physicos e moraes, que o atormentavão. Restabelecco-sc si bem que com custo e lentidão, e logo que sentio-se com o juizo mais firme c a saude mais vigorosa, começou a pensar no que deveria fazer. O amor de Adelaide não era para elle (lalli em diante mais do que um tumulo, sobre o qual não deveria derramar nem as lagrimas da compaixão, nem as flÔres da saudade, mas sim calcal-o aos pés com odio e com desprezo. Suas magoas desde então converterão-se em rancor e desejos de vingança. Protestou do fundo d'alma que tomaria do major Damazio, autor principal dos seus infortunios a mais solemne e cabal vingança ; não vingança sanguinosa, Conrado não tinha instinctos de ferocidade, mas vingança moral abatendo-lhe o orgulho e esmagando-o debaixo do peso da mais pungente humilhação. Nada lhe era mais facil; o major em sua vida passada offerecia largas brechas, pelas quaes podia ser atacado e abatido até o rez do chão. Para esse fim só lhe era mistér agora tornar-se rico o mais que lhe fosso possivel, Não possuia dinheiro sufficiente para entrar em altas especulações ; mas jà era muito conhecido e considerado entre os estancieiros de Curitiba, e não lhe faltava credito, graças ao feliz exito de seus primeiros negocios.
Entrou de novo na vida de muladeiro, e cm poucos annos adquiri uma fortuna, que naquella epoca em S. Paulo bem se podia dizer colossal. O que o amor outrora lhe fizera alcançar, hoje o obtinha em mais alta escála o desejo dc vingança.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.