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#Crônicas#Literatura Brasileira

História de quinze dias

Por Machado de Assis (1900)

No tempo em que Deus o criou podia ser útil. Deus estava atrasado; a criação ressentia-se de tal ou qual infância. Vindimila é o Descartes da filosofia digestiva. 

Que fez Vindimila? 

Isto que dizem os Srs. Ruffier Marteiet & Comp.: 

O Sr. Vindimila faz comer e digerir, o homem sem estômago!!! Excessos, doenças, má alimentação atacaram de tal modo o vosso estômago que estais privados deste órgão? Não desespereis e depois de cada refeição tomai um cálice de vinho com pepsina diástase e coca de Vindimila. Com a pepsina todos os alimentos azotados, carnes, ovos, leite, etc., serão transformados em sangue; com a diástase a farinha, o pão, os feijões se converterão em princípios assimiláveis, e passarão nos vossos ossos e músculos, enfim, com a coca vosso sistema nervoso será acalmado como por encanto. O vosso estômago não trabalhou, ficou descansando, curando as suas feridas, e no entanto tendes comido, tendes digerido, tendes adquirido forças. Bem o dizíamos, o Sr. Vindimila bem mereceu da humanidade, e prezamo-nos de ser os seus agentes nesta corte. 

Viram? Digerir sem estômago. Desde que li isto entendo que fazia multo mal em evitar camaroadas à noite e outras valentias, porque se com elas vier a perder o estômago, lá está o Dr. Vindimila, que se incumbe de digerir por mim. 

Faziam-se e fazem-se doutores na ausência, in absentia, mediante certa quantia com que se manda buscar o diploma à Alemanha. Agora temos as digestões na ausência, e pela regra de que a civilização não pára nunca. virá breve, não um Vindimila, mas um Trintimila ou um Centimila, que nos dê o meio de pensar sem cérebro. Nesse dia o vinho digestivo cederá o passo ao vinho reflexivo, e teremos acabado a criação. porque estará dado o último golpe no Criador. 

[8] 

[15 fevereiro] 

O CARNAVAL morreu, viva a quaresma! 

Quando digo que o carnaval morreu apenas me refiro ao fato de haverem passado os seus três dias; não digo que o carnaval espichasse a canela.

Se o dissesse, errava; o carnaval não morreu; está apenas moribundo. Quem pensaria que esse jovem de 1854, tão cheio de vida. tão lépido, tão brilhante, havia de acabar vinte anos depois, como o Visconde de Bragellone, e acabar sem necrológio, nem acompanhamento? 

Veio do limão-de-cheiro e do polvilho: volta para o polvilho e o limão-de-cheiro. Quia pulvi est. Morre triste, entre uma bisnaga e um princês, ao som de uma charamela de folha-de-flandres, descorado, estafado, desenganado. Pobre rapaz! Era forte, quando nasceu, rechonchudo, travesso, um pouco respondão, mas gracioso. Assim viveu; assim parecia viver até à consumação dos séculos. Vai senão quando raia este ano de 77, e o mísero, que parecia vender saúde aparece com um nariz de palmo e meio e os olhos mais profundos do que as convicções de um eleitor. Já é! 

Esta moléstia será mortal, ou teremos o gosto de o ver ainda restabelecido? Só o saberemos em 78. Esse é o ano decisivo. Se aparecer tão amarelo, como desta vez, e não contar com ele por coisa nenhuma e tratar de substituí-lo. 

II 

Caso venha a dar-se essa hipótese, vejamos desde já o que nos deixará o defunto. Uma coisa. Aposto que não sabem o que é? Um problema filológico. 

Os futuros lingüistas deste país percorrendo os dicionários, igualmente futuros, lerão o termo bisnaga, com a definição própria: uma impertinência de água-de-cheiro (ou de outra), que esguichavam sobre o pescoço dos transeuntes em dias de carnaval. 

—Bom! Dirão os lingüistas. Temos notícia do que era bisnaga. Mas por que esse nome? donde ele vem? Quem o trouxe? 

Neste ponto dividir-se-ão os lingüistas. 

Uns dirão que a palavra é persa, outros sânscrita, outros groenlandesa. Não faltará quem a vá buscar na Turquia; alguns a acharam em Apúlio ou Salomão. 

Um dirá: 

—Não, meus colegas,nada disso; a palavra é nossa e só nossa. É nada menos do que uma corrução de charamela, mudado o cha em bis e o ramela em naga. 

Outro: 

—Também não. Bisnaga, diz o dicionário de certo Morais que existiu ali pelo século XIX, que é uma planta de talo alto. Segue-se que a bisnaga carnavalesca era a mesma bisnaga vegetal, cujo sumo, extremamente cheiroso , esguichava quando a apertavam com o dedo. 

Cada um dos lingüistas escreverá uma memória em que provará, à força de erudição e raciocínio, que seus colegas são pouco mais do que ruços pedreses. As Academias celebrarão sessões noturnas para liquidar esse ponto máximo. Haverá prêmios, motes, apostas, duelos, etc. 

E ninguém se lembrará de ti, bom e galhofeiro Gomes de Freitas, de ti que és o único autor da palavra, que aconselhavas a bisnaga, e a grande arnica, no tempo em que o esguicho apareceu, por cujo motivo puseram o nome popularizado por ti.

(continua...)

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