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#Epopeias#Literatura Brasileira

Feitos de Mem de Sá

Por José de Anchieta (1563)

se realizaram. Vós, mais velozes que os ventos,

a nossas plagas trazeis em revoadas contínuas

as paternas disposições da Providência divina.

Dizei vós as leis e a ordem que o ilustre e piedoso

governador implantou entre povos tão feros,

para afinal ser honrado nestas paragens incultas

o nome vitorioso, forte e imortal de Jesus!

De início para poder jungir esses rudes selvagens

ao jugo da lei e moldá-los pela doutrina de Cristo,

ordena que deixados recôncavos, campos, florestas,

acorram de todas as partes a um mesmo local

e aí construam novas casas, ergam novas aldeias

e comecem a deixar os antigos costumes de feras;

não vagueiem daqui e dali, como tigres, pelos cerrados,

sem moradia certa, sempre duma terra p’ra outra,

sem nunca fixar-se em aldeias estáveis.

Era de ver como logo deixaram as enfumaçadas malocas,

suas cabanas cobertas de palha e suas roças agrestes.

Acorriam de todas as partes, movido da fama

e do muito medo que do governador se espalhara;

todos se submetiam a si, suas esposas e filhos

sem ousar opor-se ou confiar em seus braços e armas.

Decidido assim a impor nova ordem, novos costumes,

o magnânimo chefe manda construir quatro aldeias

de amplo circuito, nas quais se reunam todos os índios

das tabas em derredor e onde aprendam aos poucos,

de coração já manso, as leis santas de Cristo.

E porque o ano em quatro estações se divide,

que o áureo sol percorre com sua luz fulgurante,

fecundando-o com seus raios para que férteis ressurjam

as searas e reverdeçam as veigas contentes e fartas,

e a um tempo os frutos desejados madurem:

assim Jesus, filho unigênito de Deus, com o lume

de sua divindade, aclare estes brasis, repartidos

em quatro aldeias. Roçados os tojais, revolvidos

os campos ao labutar auspicioso do arado,

fecunde ele esta gleba e enfim a esplêndida messe

pague aos lavradores os gemidos e as lágrimas

que com as sementes lançara, por anos a fio

e com o coração aos pulos, encham os celeiros vazios.

Brotam as novas moradias; o índio, nômade há pouco,

ergue seu teto que o abrigará muitos anos,

e canta, em igrejas novas, o nome de Jesus, reverente.

O pio governador impõe santas leis aos selvagens,

e, desterrando costumes e ritos dos antepassados,

vínculos que os ligavam ao tirano do inferno

e lhes enlodavam as almas de culpas horrendas,

substitui-lhes preceitos divinos que cortem abusos,

lavem os corações afeiados e os rendam ao jugo

de Cristo que, com um único aceno, rege o universo

Reconheçam primeiramente o Deus do céu e da terra,

a quem os esquadrões dos anjos e os astros celestes,

os abismos do inferno e a mole terrestre obedecem:

que o reconheçam e lhe cumpram as ordens divinas.

Cessem já as cruas guerras e as sangrentas matanças,

o bárbaro costume de espedaçar o inimigo,

dessedentar com seu sangue as fauces sequiosas,

e devorar carne humana: é só com a morte

que se pagará tal crime, sangue por sangue.

Dá força de lei civil a tudo quanto nos manda

o Criador e aos renitentes com indignação ameaça.

O terror se apossa de todos, curvam-se as frontes,

por tanto tempo rebeldes, ao jugo de Cristo.

Parecia que o próprio Deus lá das alturas celestes,

falando ao Chefe, repetia essas mesmas palavras

que a ti, ó Patriarca cultivador da parreira,

dirigira outrora, quando, refluindo da terra,

as ondas do mar tornaram ao seio do abismo,

e o solo do colono reapareceu à vazante das águas:

“Sujeitas as plagas brasílicas! que o terror e o tremor

que inspiras, invada os povos cruéis, que rompendo alianças

contra a lei natural, matam e espedaçam os homens,

à maneira de feras.” Também a seus ouvidos soava

a voz de Cristo: “Força-os a entrar em meu santuário!

que de povos diversos a minha casa transborde!”

Assim se expulsou a paixão de comer carne humana,

a sede de sangue abandonou as fauces sedentas;

e a raiz primeira e causa de todos os males,

a obsessão de matar inimigos e tomar-lhes os nomes,

para glória e triunfo do vencedor, foi desterrada.

Aprendem agora a ser mansos e da mancha do crime

afastam as mãos os que há pouco no sangue inimigo

tripudiavam, esmagando nos dentes membros humanos.

Há pouco a febre do impuro lhes devora as entranhas:

imersos no lodaçal, aí rebolavam o fétido corpo,

preso à torpeza de muitas, à maneira dos porcos.

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