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#Crônicas#Literatura Brasileira

Balas de Estalo

Por Machado de Assis (1883)

Esse cidadão não viverá na pindaíba, nem lhe dirão que fez vinho nos fundos da fábrica. Não fez vinho, fez historia, fez gerações, à escolha, latinas ou góticas. E não se pense que é oficio de pouca renda. Na mesma case convidam-se as senhoras que se dedicam à arte de pintura e quiseram trabalhar. Se ainda acharem que há aí muita química, cito-lhes física, cito-lhes um "grande cartomante" (sic) da Rua da Imperatriz, que dá consultas das 7 às 9 da manhã. Física, e boa física.

Que querem? é preciso comer. Cartomancia, heráldica, pindaíba de tatu, ou vinhos confeccionados no fundo do armazém, tudo isso vem a dar na lei de Darwin.

[33]

[29 outubro]

JÁ tínhamos Lafaiete, ministro de Estado e presidente do Conselho, citando Molière na Câmara. Não é tudo. Para citá-lo bastam florilégios e o incomensurável Larousse, nelas o nosso ex-ministro leva o desplante ao ponto de o ler e reler. Felizmente, a indignação parlamentar e pública lavou a Câmara e o país de tão grande mancha, e podemos esperar com tranqüilidade o juízo da história.

Agora temos Taunay, em vésperas de eleição, cuidando das músicas do Padre José Maurício, e citando (custa-me dizê-lo), citando Haydn e Mozart.

Não ignoro que tudo isto de Taunay e Lafaiete, afinal de contas, são francesias de nomes e de cabeças. Ouviram dizer que em França alguns deputados lêem os clássicos, e imaginaram transportar o uso para aqui.

Não advertiram que nem todas as coisas de um país podem aclimar-se em outro. Não concluamos da pomada Lubin para o Misantropo. São coisas diferentes. Paul-Louis-Courrier, tão conhecido dos nossos homens, compondo na cadeia um opúsculo político, interrompia o trabalho para escrever à mulher que lhe mandasse uma certa frase de Beaumarchais. Segue-se daí que devemos todos ler Beaumarchais? Pelo amor de Deus!

O caso de Taunay é mais grave. Lafaiete conspurcou. é verdade, a tribuna parlamentar com um pobre diabo que, posto viva há dois séculos na memória dos homens, era, todavia, um saltimbanco ou pouco mais. Taunay levanta os braços no céu, consternado, porque as obras musicais do Padre José Maurício andam truncadas, perdidas ou quase perdidas.

A melhor explicação que se pode dar de um tal destempero, é que o estado mental de Taunay não é bom; mas, se não é assim, não sei como qualifique esta preocupação do meu amigo.

Reparem bem que Taunay embarca para a província de Santa Catarina, onde vai pedir que Lhe dêem votos para deputado. Nesse momento solene, em que o mais medíocre espírito gemeria pela queda de alguns delegados ou majores, Taunay lastima a perda de alguns responsórios de José Maurício.

Responsórios! Mas é de suspensórios que tu precisas, Taunay, tu precisas de suspensórios eleitorais que te levantem e segurem os calças legislativas. Deixa lá os responsórios do padre. Estão perdidos? paciência; perde-se muita coisa por esse mundo. Eu hoje, ao ler-te perdia tramontana, e tu, se vais nesse andar, perdes a eleição.

Já tinhas a enxaqueca literária e as belas páginas de Inocência, e como se isso não bastasse, pões cá para fora ~ tua sabença musical. Taunay, Taunay, amigo Taunay, deixa as coisas de arte onde elas estão, achadas ou perdidas, muda de fraseologia, atira-te aos cachorros, paulas, leões, todo esse vocabulário, que só aparentemente dá ares de aldeia, mas encerra grandes e profundas idéias. Já estudaste o coronel?

Estuda o coronel, Taunay. Estuda também o major, e não os estuda só, ama-os, cultiva-os. Que és tu mesmo, senão um major forrado de um artista? Descose o forro, et ambula.

Sim, Taunay, fica prático e local. Nada de responsórios, nem romances e estás no trinque, voltas eleito e podes então, à vontade, dançar cinco ou seis polcas por mês. Também é música, e não é de padre.

[34]

[3 novembro]

O SR. DR. CASTRO LOPES deseja juntar aos seus louros de latinista eminente os de legislador. Apresenta-se candidato pelo 1.° distrito com uma circular em que promete aplicar todos os esforços em prover de remédio as finanças do país.

Tendo-as estudado desde longos anos, o recente candidato formulou alguns projetos, que apresentará na Câmara, tendentes principalmente "a aliviar a nação da sua dívida interna e externa, sem o mínimo gravame nem do povo nem do tesouro`'. Povo e tesouro para os efeitos puramente pecuniários pode dizer se que são a mesma coisa; mas o importante é que a medida, qualquer que seja, é nada menos que a salvação do Estado.

Vêde, porém, como uma i

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