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#Romances#Literatura Brasileira

A Mão e a Luva

Por Machado de Assis (1874)

A proposta era sincera; Estêvão cuidou ver-lhe uma ponta de zombaria e ergueu os ombros com enfado. A proposta, entretanto, merecia ser examinada; era uma carreira, e vinha de um homem que estava a entrar na vida política, que esperava daí a algumas semanas o resultado de uma eleição, com a certeza, ou quase, de haver triunfado. Era influência que nascia, e de força viria a crescer. Mas para Estêvão, naquela ocasião, toda a carreira pública, influência, futuro, leis, tudo estava nos olhos castanhos de Guiomar.

— Eu amo-a, disse ele enfim, isto para mim é tudo. Pode bem ser que tenhas razão; talvez me espere algum grande desgosto; mas são reflexões, e eu não reflito agora, eu sinto...

— Em todo o caso, acudiu Luís Alves, desempenho o meu dever de amigo; digo-te que vocês não nasceram um para outro; que, se ela te não amou naquele tempo, muito menos te amará hoje, e que enfim...

Luís Alves estacou.

— Enfim? perguntou Estêvão.

— Enfim pedes-me um sacrifício, concluiu rindo o advogado, porque também eu já a namorisquei... Não é preciso carregares o sobrolho; foi namoro de vizinho, tentativa que durou pouco mais de vinte e quatro horas. Com vergonha o digo, ela não me prestou uma migalha de atenção sequer, e eu voltei aos meus autos.

— Então... gostas dela? perguntou Estêvão.

— Acho-a bonita e nada mais. Aquilo foi um lançar barro à parede; se aceitasse, casava-me; não aceitou...

— Já vês que somos diferentes.

— Queres, então?... — Um serviço de amigo.

— Bem, disse por fim Luís Alves, faça-se a tua vontade. A baronesa vai cuidar agora de um processo e mandou-me falar. Eu passo-te a prebenda; entraras ali, como advogado, o que de alguma maneira me tira um peso da consciência.

Estêvão, que só pedia um pretexto, aceitou a oferta com ambas as mãos, e agradeceu-lha com tão expansiva ternura, que fez sorrir o outro.

A promessa cumpriu-se pontualmente. Luís Alves apresentou Estêvão à baronesa, na seguinte noite, como seu companheiro e amigo, como advogado capaz de zelar os interesses da ilustre cliente. A recepção foi geralmente boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu aborrecida de o ver naquela casa. Quando Estêvão a saudou, como quem a conhecia de longo tempo, ela mal pôde retribuir-lhe o cumprimento; em todo o resto da noite não lhe deu palavra. Daquela parte o acolhimento não podia ser pior; mas Estêvão sentia-se feliz, desde que podia vê-la, respirar o mesmo ar, nada mais pedindo por ora, e deixando o resto à fortuna. De todas as pessoas da casa da baronesa, a primeira que reparou na indiferença com que Guiomar tratara Estêvão, foi Mrs. Oswald. A sagaz inglesa afivelou a máscara mais impassível que trouxera das ilhas britânicas e não os perdeu de vista. Nem da primeira nem da segunda vez viu nada mais que os olhos dele, que solicitavam os dela, e os dela que pareciam surdos. Havia decerto uma paixão, solitária e desatendida.

— Sabe que descobri um namorado seu? perguntou ela alguns dias depois a Guiomar.

Guiomar fez um gesto de estranheza.

— Entendamo-nos, observou a inglesa; não digo que a senhora o namore também; digo que é ele quem anda apaixonado. Não adivinha?

—Talvez.

— O Dr. Estêvão.

Guiomar fez um gesto de desdém.

— Vejo que tinha adivinhado, disse Mrs. Oswald; também não era difícil. Quem tem alguma prática destas coisas fareja uma paixão a cem léguas de distância, por mais que ela busque recatar-se dos olhos estranhos.

Os namorados geralmente supõem que ninguém os vê; é uma lástima. Olhe, da senhora posso eu jurar que não está namorada de pessoa nenhuma.

— Que sabe disso? perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de seu guarda-vestidos. Pois estou, mas de mim mesma.

Mrs. Oswald desatou a rir, de um riso grave e pausado. Ela sabia que a moça tinha orgulho de suas graças; era bom caminho afagar-lhe o sentimento. Disse-lhe muita coisa bonita, que não vem para aqui, e concluiu pondo-lhe as mãos nos ombros, encarando-a fito a fito, e enfim rompendo nestas palavras, meias suspiradas:

— A senhora é a flor desta sua terra. Quem a colherá? Alguém sei eu que a merece...

Guiomar ficou séria, e desviou brandamente as mãos da inglesa, murmurando:

— Mrs. Oswald, falemos de outra coisa.

CAPÍTULO VII

UM RIVAL

Não era a primeira vez que Mrs. Oswald aludia a alguma coisa que desagradava a Guiomar, nem a primeira que esta lhe respondia com a sequidão que o leitor viu no fim do capitulo anterior. A boa inglesa ficou séria e calada alguns dois ou três minutos, a olhar para Guiomar, aparent

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