Por Bernardo Guimarães (1883)
Si ella não tivesse dito que era minha mãe, eu não a conhecia. Era uma mulher muito mais moça e muito mais bonita que a defuncta mamãe. Tinha os cabellos bem compridos e soltos, e a cór mais clara. Queria abraça-la, mas não podia ; ella chegou bem pertinho e deu—me um beijo na bocca. Acordei, mas até agora ainda me parece que estou sonhando aquelle sonho.
— Devéras . — disse Lucinda: e quem sabe, si esse sonho não era verdade !
— Como!... isso não é possível!...
— Deixa estar minha menina; esse teu bonito sonho é ao menos de muito bom agouro. — Deus o permitta, tia Lucinda.
Neste momento appareceu Adelaide, e depois de ter encarregado a Rozaura de cuidar do almoço, chamou Lucinda a seu quarto. O marido e o pae tinhão descido para a loja ; os meninos alegres e descuidosos brincavão pela casa.
Lucinda antes de tudo contou a sua sinhá o sonho de Rozaura.
— Que singular coincidencia ! — exclamou Adelaide commovida até o intimo da alma. Havia de ser por certo no momento, em que eu estava perto della allumiando-lhe o rosto, e que ella rio-se para mim sonhando, e eu beijei-lhe a bocca.
— Ah! minha sinhásinha!... que me está dizendo? issó é devéras?..
— É a pura verdade, Lucinda ; fui por tres
vezes com a luz na mão espiar o somno de. .. de minha filha, sim de minha filha ; hoje estou certissima de que Rozaura e minha filha.
— E sinhásinha não está vendo que ahi anda o dedo de Deus. Bem estava eu dizendo ainda agora á Rozaura que aquelle sonho tão bonito bem podia ser uma verdade ; e era mesmo, mais do que eu pensava. Essa mãe, que não morreo, e que ella estava vendo, quem era mais senão sua mãe verdadeira, sinão sinhásinha mesmo?
— isso, Lucinda; parece que Deus por fim se compadece de mim, e nos quer favorecer, e tenho esperança de que Rozaura ainda ha de ser muito feliz. Mas vamos ao que agora mais importa ; o que havemos de fazer a bem de Rozaura ? pensaste nisso, Lucinda?
Ah! sinhásinha, eu banzei a noite inteira parafuzando na imaginação um modo de arranjar isso, sem que sinhásinha fique mal, e só achei um furo.
Qual é elle? falla, Lucinda.
— Talvez sinhásinha não ache bom mas eu não vejo outro remedio.
— Não tenhas receio, falla, Lucinda ; para conseguir a liberdade e fazer a felicidade de mi' nha filha, estou disposta a tudo.
— Está direito, e mesmo eu penso que é de nossa obrigação fazer o que me veio cá na idéa. O que é então, Lucinda? estou impaciente por saber.
— Sinhásinha sabe que sinhá Rozaura não e sua só...
Pois de quem mais é'?
Ui sinhásinha pois não é tambem de nho Conrado?
— Ah ! por certo, — respondeo Adelaide corando e baixando os olhos.
— Nesse caso nós devemos participar tudo a elle. Si elle não puder nos guiar e ajudar neste negocio, ninguem mais. Elle é rico, e tem muito boas amizades na terra ; e demais sinhásinha bem póde imaginar, quanto elle é capaz de fazer sabendo que tem uma filha linda e mimosa, e que essa filha está no captiveiro.
— Tens muita razão, Lucinda; e eu que nem nisso havia pensado ! mas a fallar-te com franqueza repugna-me bastante dar esse passo. Não vá elle agastar-se commigo, ficar nos tendo odio e desprezo por termos engeitado a menina, e no excesso de sua indignação revelar tudo a meu pae e a meu marido, e expôr-me á vergonha e desprezo de todos aqui. Ah I Lucinda, tenho muite medo.
— Nem pensar nisso, sinhásinha ; eu conheço muito nhó Conrado ; elle é incapaz disso. Tem muito bom coração aquelle moço, e bastante juizo para N er que sinhásinha não podia criar sua filha. O que depois aconteceo, não foi pop culpa nossa.
Mas elle de certo me ha de ter odio por terme casado com outro.
— Qual odio, sinhásinha! então elle não ha de saber que aqui correo como certo que elle tinha morrido ! Por fim de contas não vejo sinào elle, que póde e deve amparar a pobre Rozaura. Deixa tudo por minha conta, sinhásinha ; hoje mesmo eu vou conversar com nhô Conrado; primeiramente hei de sondar elle com geito, e depois si eu perceber nelle boa disposição, como espero, conto-lhe tudo sem esconder nem disfarçar cousa nenhuma. Sinhásinha me manda hoje de tarde á rua para qualquer serviço, e eu vou direitinho á casa de nhO Conrado, e logo de noite lhe venho dar conta do que se passar.
— Pois sim, Lucinda; agora comprehendo que é indispensavel fazer tudo quanto dizes ; eu, fraca mulher, nada posso fazer em beneficio de minha infeliz filha. Elle é pae, deve e pôde fazer tudo. Deus nos ha de favorecer, Lucinda ; confiemos nelle.
CAPITULO VII
Conrado capitalista.
Já que Conrado, que por tanto tempo passava por morto, agora nos apparece de novo vivo, rico e feliz ao menos na apparencia, é nos indispensavel dar conta por alto ao leitor de como essa noticia se propagou com caracter de tanta veracidade, e do que succedeo ao amante de Adelaide, depois que tão ignominiosa e brutalmente foi expellido da casa do major.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.