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#Crônicas#Literatura Brasileira

História de quinze dias

Por Machado de Assis (1900)

De todas elas porém, a que nos dera mais no goto, a que nos sustinha neste vale de lágrimas, a que nos dava brio e força, era.. . era ele, o eterno, o redivivo, o nunca assaz louvado Rocambole, que eu julgava perdido para sempre, mas que afinal ressurge das próprias cinzas de Ponson du Terrail. 

Ressurgiu. Eu o vi (não o li) vi-o com estes olhos que a terra há de comer; nas colunas do Jornal, a ele e mais as suas novas façanhas pimpão, audaz, intrépido, prestes a mudar de cara e de roupa e de feitio, a matar, roubar, pular, voar e empalmar. 

Certo é que nunca o vi mais gordo. Eu devo confessar este pecado a todos os ventos do horizonte; eu (cai me a cara ao chão), eu... nunca li Rocambole, estou virgem dessa Ilíada de realejo. Vejam lá; eu que li os poetastros da Fênix Renascida, osromances de Ana Radeliffe, o Carlos Magno, as farsas de barbante, a Brasilíada do Santos e Silva, e outras obras mágicas, nunca jamais em tempo algum me lembrou ler um só capítulo do Rocambole. Inimizade pessoal? Não, posso dizer à boca cheia que não. Nunca pretendemos a mesma mulher, a mesma eleição ou o mesmo emprego. Cumprimentamo-nos, não direi familiarmente, mas com certa afabilidade, a afabilidade que pode haver entre dois boticários vizinhos, um gesto de chapéu. 

Perdão; ouvi-o no teatro, num drama que o Furtado Coelho representou há anos. Foi a primeira e única vez que me foi dado apreciar cara a cara, o famoso protagonista. Não sei que autor (francês ou brasileiro? não me lembra) teve a boa inspiração de cortar um drama do romance do Ponson du Terrail, idéia que o Furtado lhe agradeceu do íntimo d’alma, porque o resultado pagou-lhe o tempo. 

E sem embargo de não o haver lido, mas visto e ouvido somente, gosto dele, admiro-o, respeito-o, porque ele é a flor do seu e do meu século, é a representação do nosso Romantismo caduco, da nossa grave puerilidade. Vem a propósito uma comparação que farei no segundo livro. 

LIVRO II 

AQUILES, ENÉIAS, DOM QUIXOTE, ROCAMBOLE 

ESTES QUATRO heróis, por menos que o leitor os ligue, ligam-se naturalmente como os elos de uma cadeia. Cada tempo tem a sua Ilíada; as várias Ilíadas formam a epopéia do espírito humano. 

Na infância o herói foi Aquiles, — o guerreiro juvenil, altivo, colérico, mas simples, desafetado, largamente talhado em granito, e destacando um perfil eterno no céu da loura Hélade. Irritado, acolhe-se às tendas; quando os gregos perecem, sai armado em guerra e trava esse imortal combate com Heitor, que nenhum homem de gosto lê sem admiração; depois, vencido o inimigo, cede o despojo ao velho Príamo, nessa outra cena, que ninguém mais igualou ou nem há de igualar. 

Esta é a Ilíada dos primeiros anos, das auroras do espírito, é a infância da arte. 

Enéias é o segundo herói, valente e viajor como um alferes romano poético em todo o caso, melancólico, civilizado, misturade espírito grego e latino. Prolongou-se este Enéias pela Idade Média, fez-se soldadão cristão, com o nome de Tancredo, e acabou em cavalarias altas e baixas. 

As cavalarias, depois de estromparem os corpos à gente, passaram a estrompar os ouvidos e a paciência, e daí surgiu o Dom Quixote, que foi o terceiro herói, alma generosa e nobre, mas ridícula nos atos, embora sublime nas intenções. Ainda nesse terceiro herói luzia um pouco da luz aquileida, com as cores modernas, luz que o nosso gás brilhante e prático de todo fez empalidecer. 

Tocou a vez a Rocambole. Este herói, vendo arrasado o palácio de Príamo e desfeitos os moinhos da Mancha, lançou mão do que lhe restava e fez-se herói de polícia, pôs-se a lutar com o código e o senso comum. 

O século é prático, esperto e censurável; seu herói deve ter feições consoantes a estas qualidades de bom cunho. E porque a epopéia pede algum maravilhoso, Rocambole fez-se inverossímil, morre, vive, cai, barafusta e some-se, tal qual como um capoeira em dia de procissão. 

Veja o leitor, se não há um fio secreto que liga os quatro heróis. É certo que é grande a distância entre o herói de Homero e o de Ponson du Terrail, entre Tróia e o xilindró. Mas é questão de ponto de vista. Os olhos são outros; outro é o quadro; mas a admiração é a mesma, e igualmente merecida. 

Outrora excitavam pasmo aquelas descomunais lanças argivas. Hoje admiramos os alçapões, os nomes postiços, as barbas postiças, as aventuras postiças. 

Ao cabo, tudo é admirar. 

LIVRO III

SUPRESSÃO DO ESTÔMAGO 

SE ALGUMA coisa pode fazer diversão ao Rocambole é o Dr. Vindimila, cavalheiro que eu não conheço, mas que merece as honras de uma apoteose, porque acaba de dar um quinau no Padre Eterno. 

Quem me deu notícia disso foi um droguista (ando agora com eles) nas colunas do Jornal do Comércio, em dias repetidos, e particularmente no dia 10 do corrente, publicações a pedido. 

Vindimila inventou uma coca, um vinho estomacal. Por ora nada há que possa fazer admirar um homem qualificado e avariado. Cocas não faltam; nem cocas nem coqueiros. O importante é que Vindimila despreza o estômago, não o conhece, despreza-o, acha-o uma coisa sem préstimo, sem alcance, um verdadeiro trambolho. Esse órgão clássico da digestão não merece que um Vindimila se ocupe com ele. 

(continua...)

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