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#Epopeias#Literatura Brasileira

Feitos de Mem de Sá

Por José de Anchieta (1563)

o que vomitarão? Não celebrar novas bodas esses devassos

e renunciando às antigas não se sujar em novas torpezas?

Estes e outros costumes, herdados dos seus antepassados,

e transmitidos como direito racial, de há longo tempo,

sofrerão impunemente que lhos arranquem agora?

Quão pouco conhece o índio altivo quem assim pensa!

Quanto se engana quem tenta realizar tais projetos!

Não está longe de permitir a ruína do povo!”

Tais rumores que corriam, tais as críticas duras

que publicamente se lançavam: um só temor o de todos,

uma só preocupação, desviar o governador

dos seus intentos, dobrá-lo com rogos e súplicas,

força-lo a deixar as determinações que tomara

tão resolutamente. Vão ter com ele bem premunidos,

reunindo nesta fala o argumento de todos:

“Grande governador, a quem Dom João o terceiro

nosso felicíssimo rei entregou o governo brasílico;

por desígnio da Providência, foi-te confiado

o nosso bem, para que em boa paz a todos dirijas

e olhes pelo bem estar de todos os súditos.

Agora que abonançou a tempestade da guerra,

que leis tencionas impor a esses povos selvagens?

Proíbes aos índios as guerras? de que paz fruir poderemos

senão se guerrearem entre si, saciando a sede de sangue

com que nasceram? De que maneira julgas possível

realizar teus desejos? que deixe de comer carne humana

o bárbaro que dela gosta? Podem os tigres viver sem a presa

e os leões ferozes deixar de despedaçar os novilhos

e os lobos perdoar às mansas ovelhas ? Antes deixará a baleia

de encher de peixes o bojo, no vasto oceano,

antes deixará o gavião, em vôo audacioso librado no espaço,

de raptar tímidas aves, e a águia real de garras aduncas

de levantar às alturas em revoada a lebre cativa:

do que deixarem os brasis de devorar carnes humanas.

Eia pois! pondera teus intentos com reflexões cautelosas.

Não impeça que mutuamente se provoquem à guerra

e se matem horrendamente, e, despedaçando seus inimigos,

lhes assem a carne no rito paterno e lhe roam os ossos

à maneira de cães, celebram as festas dos seus antepassados

e não pensem em lançar contra nós os braços ferozes,

nem desafoguem em nós suas iras de brutos

e sedentos de sangue nos passem ao fio da espada

a nós, nossas esposas e filhos, conspurcando de morte

toda a cidade. Tu serás a causa de tão grandes desgraças,

tu o responsável único da irreparável ruína

e do sangue derramado. Eis que te avisamos com tempo

nós que conhecemos, de há muito, os costumes dos índios,

e lhes experimentamos de perto a índole fera.”

Assim falando, eles com acrimônia insistiam

erguendo a voz diante do governador: este porém, cujo peito

era sacrário de Deus, confiado no poder de Jesus,

cujo nome ansiava por tornar conhecido naquelas

bárbaras plagas, com ânimo tranqüilo e semblante sereno

responde: “Vive o Deus que criou céus, terras e mares

ante o qual tremem as abóbadas do firmamento

e as colossais muralhas do imenso universo.

Sua destra trar-nos-há auxílio a seu tempo

e livrará os cristãos de tantas desgraças.”

Assim disse e destemido põe-se a realizar seus projetos.

Vós, irmãos nossos, habitantes das etéreas moradas,

que pisais docemente o pavimento estrelado,

e dessas alturas vos interessais pelos nossos destinos,

a fim de ocuparmos um dia um trono convosco:

dizei-me, eu vos conjuro, as alegrias que desfrutastes

por todo o céu! as sinfonias de júbilos que decantastes!

as alegres melodias que desentranharam os órgãos celestes!

as notas que desferiram trombetas e clarins de vitória!

os sons maviosos que jorrou a flauta sonora!

que harmonia nas cordas da cítara! que hinos contentes

cantastes ao Pai celeste! com que salmos sentidos

exaltastes ao som da harpa as glórias de Cristo:

quando o índio começou a trocar sua ferocidade

por modos mais humanos e a conhecer o nome do Eterno!

Vós, que por um pecador que lava seus crimes

nas lágrimas do arrependimento, dais as maiores

manifestações de alegria por todo o templo celeste,

como deveis exaltar com nova harmonia

este triunfo de Deus! Começa a bárbara terra

a sacudir dos ombros o tirânico jugo do inferno.

Arrancada às trevas do escuro e lúgubre abismo,

vai receber a luz divina do Sol sem ocaso,

aprender as leis santas do Senhor Jesus Cristo,

abraçar-lhe a fé e salutares doutrinas.

Foi por vosso ministério que tão grandes milagres

(continua...)

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