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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

A descoberta que Lucinda acabava de fazer, havia collocado Adelaide na mais singular e complicada situação. O vivo prazer que experimentava vendo sua filha como que resuscitada, e além disso crescida, vigorosa e bella como um anjo, era contrabalançado por considerações que o leitor bem póde avaliar. Tinha sua filha em casa, é verdade, mas como escrava, como propriedade, como um movel. Era-lhe possivel talvez libertal-a á força de instancias e supplicas para com seu pae e seu marido e depois conservava por tempo indefinido cm casa junto a si, mas como liberta, e não como filha, não como irmã dc seus outros filhinhos. Bern sc vê que isto só poderia suavisar um pouco a sorte da infeliz engeitada, mas seria dolorosissimo para um coração materno. Era mistério menos que se verificasse que Rozaura, — embora não se declarasse ser filha de Adelaide, não nascera captiva, e que só um cruel e inexplicavel destino a fizera passar por tal, e como tal ser vendida de mão em mão. Demais, esse facto de que somente Adelaide e Lucinda se achavão intimamente convencidas, não estava comprovado, sináD pelos indicios, aliás robustissimos, em que se firmara a velha escrava.

Essas provas porém não erão ainda peremptorias, e não constituião sinão presumpções muito fortes em favor da supposição de Lucinda. Sem algum documento escripto, sem alguma justificação irrefragavel, essa supposicão podia cahir por terra, como mero embuste de ne ora velha, e a condição de escrava da pobre Rozaura, não tendo nenhum fundamento solido para ser contestada, nem ao menos poderia ser posta em litigio.

Não erão porém só esses os maiores embaraços, com que luctava o espirito atribulado da pobre senhora. Mesmo que Rozaura fosse reconhecida livre e nascida de paes livres, jamais poderia ser reconhecida como sua filha, sem que Te revelasse a nodoa do seu passado, e sem incorrer no desprezo e talvez no odio de um e outro. Poderia ella confessar a um ou a outro a sua falta com esperança de obtér indulgencia e perdão ? . . . Era principalmente para com o esposo que a posição de Adelaide se tinha tornado uma das mais difficeis e angustiosas, que se póde imaginar. Confessar ao marido uma falta, que ha mais de doze annos lhe havia occultado, era um passo arriscadissimo, a que jamais se abalançaria. Tinha vergonha, e tambem muito medo da colera do marido. Quando se ama uma mulher, que se julga pura, o ciume não perdoa nem mesmo as frequezas do passado.

Luctando com estas angustias do coração e perplexidades do espirito, Adelaide, que nem um momento adormecera, esperou anciosa o alvorecer do dia. Rozaura com um semblante risonho e tranquillo foi a primeira que lhe veio pedir a benção. Adelaide olhou para ella com enternecimento e alegrou o coração da pobre menina.

Adelaide esperava com impaciencia uma occasião opportuna, em que achando-se a sós com Lucinda, se aconselhasse com ella a fim de combinar os meios de salvar Rozaura das garras do captiveiro e fazel-a reconhecer como livre de nascimento sem comprometter a honra de Adelaide ; sem revelar o triste acontecimento, que até alli felizmente havia dormido na sombra do mais profundo mysterio.

Temos fallado muito de Lucinda, e temos visto ella fazer um papel importante nesta historia sem lhe darmos o devido appreço. Era uma creoula velha, que havia amamentado sinhá Adelaide, e que a queria como filha. Tinha muito juizo, muito boa alma e muito boas intenções. Além disso a velha creoula era dotada de tal ronha, penetração e finura para negocios difficeis, como os de que vamos tratando, que faria inveja ao mais habil diplomata. Lucinda porém differia dos diplomatas em só empregar o seu talento a bem da paz e da prosperidade da familia, de que fazia parte, e não em multiplicar difficuldades alimentando o espirito de discordia.

Rozaura, que tinha accordado alegre e risonha com um passarinho, que saúda uma bella aurora, apenas tomou a benção a Adelaide, correu logo a tagarebar com Lucinda.

— Tia Lucinda, não sabe? . . tive esta noite um sonho, o mais bonito deste mundo, um sonho, que me fez chorar de alegria.

— Devàras, menina bem bom é isso.

Então que foi?...

— Adivinhe, tia Lucinda.

— Não sou adivinhadeira... mas de certo você sonhou com os anjinhos do céo, minha menina. Que mais podia você sonhar? . . .

É quasi isso mesmo, tia Lucinda. Eu sonhei que estava debruçada na janella olhando para o céo. Era de noite. Eu estava namorando as estrellas.,.

— Bonito namoro, interrompeu a creoula, de certo ellas tambem te estavão namorando.

Comecei a lembrar-me de minha mãe, que já morreu, — continou a menina sem dar muita attenção á lisonjeira replica da creoula, quando uma nuvem cheia de luz se apresentou no céo mesmo defronte de meus olhos. Esta nuvem veio descendo pouco a pouco até chegar bem perto de mim. Dentro della vinha uma mulher. A principio fiquei com medo ; mas essa mulher tinha um ar muito meigo, e disseme com brandura :

— Minha filha, não chores mais tua mãe; eu não morri, não ; fui ao céo, e agora volto para ficar comtigo.

(continua...)

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