Por Machado de Assis (1900)
Mas aquilo é uma curiosidade velha, uma notícia morta. Venhamos a coisa novíssima, posto que velhíssima; ou antes velhíssima, posto que novíssima.
Já daqui percebe o leitor que aludo às galerias que se encontraram no Morro do Castelo.
Há pessoas para quem não é certo que haja uma África, que Napoleão tenha existido, que Maomé II esteja morto, pessoas incrédulas, mas absolutamente convencidas de que há no Morro do Castelo um tesouro dos contos arábicos.
Crê-se geralmente que os jesuítas, deixando o Rio de Janeiro, ali enterraram riquezas incalculáveis. Eu desde criança ouvia contar isso, e cresci com essa convicção. Os meus vizinhos, os vizinhos do leitor, os respectivos compadres, seus parentes e aderentes, toda a cidade em suma crê que há no Morro do Castelo as maiores pérolas de Golconda.
O certo é que um destes dias acordamos com a notícia de que, cavando-se o Morro do Castelo, descobriram-se galerias que iam ter ao mar.
A tradição começou a tornar-se verossímil. Fiquei logo de olho aberto sobre os jornais. Disse comigo: Vamos ter agora, dia por dia, uma descrição da descoberta, largura da galeria encontrada, matéria da construção, direção, altura e outras curiosidades. Por certo o povo acudirá ao lugar da descoberta.
Não vi nada.
Nisto ouço uma discussão. A quem pertencerão as riquezas que se encontrarem? Ao Estado? Aos concessionários da demolição? That is the question. As opiniões dividem-se; uns querem que pertençam aos concessionários, outros que ao Estado, e aduzem-se muito boas razões de um lado e do outro.
Coagido a dar a minha opinião, fá-lo-ei com a brevidade e clareza que me caracterizam.
E digo: Os objetos que se acharem pertencem, em primeiro lugar, à arqueologia, pessoa que também é gente, e não deve ser assim tratada por cima do ombro. Mas a arqueologia tem mãos? tem casa? tem armários onde guarde os objetos? Não; por isso transmite o seu direito a outra pessoa, que é a segunda a quem pertencem os objetos: o Museu Nacional.
Ao Museu iriam eles ter se fossem de simples estanho. Por que não irão se forem de ouro? O ouro é para nós uma grande coisa; Compram-se melões com ele. Mas para a arqueologia todo o metal tem igual valor.
Eram de prata os objetos encontrados quando se demoliu a Praça do Comércio, e entretanto devo crer que estão no Museu, porque pertencem à arqueologia, a arqueologia, que é uma velha rabugenta e avara.
Pode ser que eu esteja em engano; mas é provável que sejam os outros.
IV
Os touros instalaram-se, tomaram pé, assentaram residência entre nós. As duas primeiras corridas estiveram muito concorridas... Há nisto uma repetição de sílabas, mas a urgência dispensa a correção e o floreio:
...qui mi scusi
A urgência, si fior la penna abborra.
Tem havido pois muito entusiasmo. Frascuelo é a coqueluche da cidade. Que digo? Frascuelo é o frasquinho; único diminutivo consoante a seu nome.
Os touros é que dizem não ser de primeira bravura. Alguns parecem ser de antes do pecado original, quando no Paraíso, os lobos dormiam com os cordeiros, há quem suspeite que um deles é simplesmente pintado em papel; touro de cosmorama.
Ainda assim o público os aplaude, e aos capinhas, a quem lança charutos, chapéus e níquel. Dizem efetivamente que o pessoal é bom; eu ainda não pude ir lá, mas irei na primeira ocasião.
Outras corridas se preparam na Rua da Misericórdia. Essas são mais animadas, os touros são mais bravos, os capinhas mais fortes. Se esta metáfora ainda não disse ao leitor que eu aludo à câmara temporária, então perca a esperança de entender de retórica, e passe bem.
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[15 janeiro]
LIVRO I
ALELUJA! ALELUIA!
AGORA, SIM, senhor. Eu já sentia a falta dele. Eu e todo este povo andávamos tristes, sem motivo nem consciência, andávamos sorumbáticos, caquéticos, raquíticos, misantrópicos e calundúticos. Não me peçam os brasões do último vocábulo; posso dá-los em outra ocasião. Por agora sinto-me alvoroçado, nada menos que redivivo.
Que este século era o século das serrilhas, nenhum homem há que se atreva a negá-lo, salvo se absolutamente não tiver uma onça de miolos na cabeça. Como vai Vm. da sua tosse? pergunta há anos um droguista nas colunas dos nossos jornais. Frase que mostra toda a solicitude que pode haver na alma de um droguista, e de quanta complacência se compõe uma panacéia anticatarral E com essa frase o droguista não só amola os olhos e a paciência do leitor, como lhe impinge suas abençoadas pastilhas, a troco de cinco ou seis mil-réis.
Essa é a serrilha medicinal. A serrilha européia compõe-se de muitas serrilhas, começando na questão do Oriente e acabando na questão espanhola. Há serrilhas de todas as cores e feitios, sem contar a chuva, que não tem feitio nem cor, e encerra em si todas as outras serrilhas do Universo.
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de quinze dias. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, s.d.