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#Romances#Literatura Brasileira

Iaiá Garcia

Por Machado de Assis (1878)

A este motivo, preexistente ao projeto da viúva, acrescia um sentimento mau, que se apossou dele, ao cabo de três semanas depois da chegada ao Rio de Janeiro. Esse sentimento mau, foi Estela que o inspirou. A vista quotidiana de Estela produziu em Jorge uma impressão viva, mas destituída daquele respeito, sem o qual o amor é apenas um instinto. O que ele sentiu foi um instinto. Posto vivessem na mesma casa, era difícil acharem-se nunca a sós, porque a filha do escrevente passava todo o tempo ao pé da viúva; circunstância que não teve a virtude de mudar o curso aos acontecimentos. Não podendo passar de palavras gerais e estranhas ao que lhe quisera confiar, Jorge falava-lhe com os olhos, — linguagem que a moça não entendia, ou fingia não entender. A imperturbável seriedade de Estela foi um aguilhão mais, não menos cruel que a gentileza de suas formas, e certo ar de resolução que lhe transparecia do rosto quieto e pálido.

Pálida era, da palidez das monjas, mas sem nenhum tom de melancolia ascética. Tinha os olhos grandes, escuros, talhados à feição de amêndoa, por baixo de duas sobrancelhas lisas, cheias e corretas. Os olhos eram a parte mais saliente do rosto, a que dominava tudo, não obstante a harmonia das restantes feições; é que havia neles uma expressão de virilidade moral, que dava à beleza de Estela o principal característico. Uma por uma, as feições da moça eram graciosas e delicadas; mas a impressão que deixava o todo estava longe da meiguice natural do sexo. Estela, posta entre as musas, seria Melpomene. Tinha as formas; restava só que o destino fizesse correr sobre elas o gemido das paixões trágicas. Usualmente, trazia roupas pretas, cor que preferia a todas as outras. A mulher pálida, que não usa de preferência a cor preta, carece de um instinto. Estela possuía esse instinto do contraste. Nu de enfeites, o vestido punha-lhe em relevo o talhe esbelto, elevado e flexível. Nem ousava nunca trazê-lo de outro modo, sem embargo de algum dixe ou renda com que a viúva a presenteava de quando em quando; rejeitava de si toda a sorte de ornatos; nem folhos, nem brincos, nem anéis. Ao primeiro aspecto dissera-se um Dió genes feminino, cuja capa, através das roturas, deixava entrever a vaidade da beleza que quer afirmar-se tal qual é, sem nenhum outro artifício. Mas, conhecido o caráter da moça, eram dous os motivos, — um sentimento natural de simplicidade, e, mais ainda, a consideração de

que os meios do pai não davam para custosos atavios, e assim não lhe convinha afeiçoar-se ao luxo. Esta reflexão na cabeça de uma mulher de dezoito anos, era já sintoma de organização pouco vulgar.

— Por que não põe os brincos que mamãe lhe deu a semana passada? perguntou Jorge a Estela, um dia, em que havia gente de fora a jantar.

— Os presentes mais queridos guardam-se, respondeu ela olhando para a viúva.

Valéria apertou-lhe a ponta do queixo entre o polegar e o indicador.

— Poeta! exclamou sorrindo. Você não precisa de brincos para ser bonita, mas vá pô-los, que lhe ficam bem.

Foi a primeira e última vez que Estela os pôs. A intenção era patente demais para não ser notada, e Jorge não esqueceu nem a resposta da moça nem o constrangimento com que obedeceu. Não podia supor-lhe ingratidão, porque via a afeição com que Estela tratava a mãe. Em relação a ele não parecia haver afeição igual, mas havia certamente respeito e consideração, rara vez familiaridade, e ainda assim, uma familiaridade enluvada, um ar de visita de pouco tempo.

Jorge começou a achar mais agradável a casa do que a rua; e as noites, quando não havia pessoas de fora, passava-as à volta de uma mesa, lendo ou jogando com as duas, ou vendo-as trabalhar, enquanto contava anedotas da academia, lia as correspondências do Paraguai e de Buenos Aires, ou simplesmente alguma página de romance. Nessa vida, meio patriarcal, as horas corriam depressa, tão depressa, que ele não as sentia. Ao cabo de cinco a seis semanas, fez-se ele seu próprio confessor, examinou a consciência, descobriu lá dentro alguma cousa que não era a fantasia sensual do primeiro instante, e, longe de absolver-se, condenou-se à crua penitência de abstenção. Voltou aos antigos hábitos e deixou os serões domésticos. Mas a aplicação do remédio, por mais sincera que fosse, já não podia muito contra a ação do mal. Estela freqüentava-lhe tenazmente a memória; e na rua, no teatro, nas assembléias a que ia, o perfil severo da moça vinha meter-se entre ele e a realidade. Se pudesse deixar de a ver, a convalescença não era ainda difícil; mas como fugir à lembrança de uma mulher, cuja figura lhe aparecia durante algumas horas de cada dia? Demais, a sonâmbula que ele tinha no cérebro vinha auxiliar a fatalidade das circunstâncias. No fim de um mês, a índole do sentimento havia mudado: era mais pura; mas o sentimento não parecia disposto a esvair-se: era mais violento.

Como o Sr. Antunes levasse a filha, uma noite, a visitar pessoa de sua amizade, Jorge aproveitou a circunstância para insinuar a Valéria a conveniência de restituir Estela a seu pai.

— Por quê? perguntou a viúva.

— Sempre é um tropeço, uma pessoa estranha metida entre nós, — replicou Jorge. Não lhe nego que tem boas qualidades; mas... é uma pessoa estranha.

— Que importa, se me dou bem com ela? Conheço-a desde pequena; é uma companhia melhor do que qualquer outra. Mas por que te lembras disso agora?

— Estive pensando na responsabilidade que pesa sobre nós. Se fosse nossa parenta, vá; não se podia dispensar a obrigação; mas não sendo, creio que era melhor libertarmo-nos.

(continua...)

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