Por Machado de Assis (1900)
Agora porém, Revmo. Sr. há idéia de lhe porem sinos afinados: com o fito de tocar por música, uma reprodução da Lapa dos Mercadores.
A Lapa dos Mercadores era uma igreja modesta, metida numa rua estreita, fora do movimento, pouco conhecida de uma grande parte da população. Um dia deu-se o luxo dos sinos musicais; e dentro de duas semanas estava célebre. Os moradores do Largo do Paço, ruas do Ouvidor, Direita e adjacentes almoçavam musicalmente todos os dias, aos domingos sobretudo. Era uma orgia de notas, um dilúvio de sustenidos. Quem quer que era o regente, repinicava com um brio, um fôlego, uma alma, dignos de melhor emprego.
E não pense V. Ex.a Revma. que eram lá músicas enfadonhas, austeras, graves, religiosas. Não, senhor.
Eram os melhores pedaços do Barbe Bleu, da Bela Helena, do Orfeu nos Infernos; uma contrafação de Offenbach, uma transcrição do Cassino.
Estar-se à missa ou nas cadeiras do Alcazar, salvo o respeito devido à missa, era a mesma coisa. O sineiro,—perdão, o maestro,— dava um cunho jovial ao sacrifício do Gólgota, ladeava a hóstia com a complainte do famoso polígamo Barba Azul:
Madame, ah! Madame,
Voyez mon tourmenter!
J’ai perdu ma femme
Bien subitement.
E as meninas, cujos pais, por um santo horror às comédias, não as levavam ao Alcazar, tinham o gosto de dividir o pensamento entre a Rua Uruguaiana e Rua da Amargura, isto sem cair em pecado mortal, porque em suma, desde que Offenbach podia entrar na igreja, era natural que os fiéis contemplassem Offenbach.
Nem era só Offenbach; Verdi, Bellini e outros maestros sérios tinham também entrada nos sinos da Lapa. Creio ter ouvido a Norma e o Trovador. Talvez os vizinhos ouçam hoje a Aída e o Fausto.
Não sei se entre Offenbach e Gounod, teve Lecoq algumas semanas de reinado. A Filha de Madan1e Angot alegrando a casa da filha de Sant'Ana e S. Joaquim, confesse V. Ex.a que tem um ar extremamente moderno.
Suponhamos, porém, que os primeiros trechos musicais estejam condenados, demos que hoje só se executem trechos sérios, graves, exclusivamente religiosos.
E suponhamos ainda, ou antes, estou certo de que não é outra a intenção, se intenção há, em relação à igreja da Glória; intenção de tocarem os sinos músicas próprias, adequadas ao sentimento cristão.
Resta só o fato de serem musicais os sinos.
Mas que coisa são sinos musicais? Os sinos, Exmo. Sr., têm uma música própria: o repique ou o dobre,— a música que no meio do tumulto da vida nos traz a idéia de alguma coisa superior à materialidade de todos os dias, que nos entristece, se é de finados, que nos alegra, se é festa, ou que simplesmente nos chama com um som especial, compassado, sabido de todos. O Miserere de Verdi é um pedaço digno de igreja; mas se o pusessem nos sinos era. . . vá lá. . . era ridículo. Chateaubriand, que escreveu sobre os sinos, que não diria, se morasse ao pé da Lapa?
Dirigindo-me, pois, a V. Ex.ª tenho por fim solicitar sua atenção para o uso dos sinos musicais, que pode propagar-se na cidade toda, e transformá-la numa imensa filarmônica. V. Ex.ª pode, com seus paternais conselhos, ter mão ao uso, bastando-lhe dizer que a igreja católica é uma coisa austera, que os sinos têm uma linguagem secular uma harmonia única. Não a troquemos por outra, que é despojá-los do seu encanto, é quase mudar a feição ao culto.
Nada mais me resta dizer a V. Ex.ª.II
Caiu-me há dias nas mãos, embrulhando uma touca de criança, uma folha solta da Revista Popular. A Revista Popular foi a mãe do Jornal das Famílias, do qual o Sr. Garnier é por conseguinte avô e pai.
A folha era justamente um pedaço da crônica. A data é de 26 de outubro de 1860.
Já lá vão dezesseis anos, a vida de uma donzela, — metade do título de um melodrama, que por esse tempo ainda se representava: —Artur ou Dezesseis Anos Depois.
Vamos ao que importa.
A referida crônica no dia 26 de outubro de 1860 terminava com esta notícia:
O Catete projetou aniquilar o teatro caricato, que arrasta pesada existência para as bandas de Botafogo, e ideou a construção de um belo templo, onde a arte dramática não fosse rodada e escarnecida por um punhado de verdugos. Apenas foi concebida a idéia, tratou-se logo de realizá-la- o Sr. Lopes de Barroz incumbiu-se de traçar a planta do edifício, e com tanta perícia se houve nesta tarefa, que criou um modelo de perfeição.
A obra vai ser começada dentro de poucos dias, e cedo ficará concluída, presidindo à sua confecção a solidez, a elegância e a comodidade para o espectador.
Dizem-me que a companhia do Ginásio, a única que tem compreendido a sua missão, é a escolhida para ali representar, revezando com a companhia lírica, que tivermos, depois de edificado o teatro.
Que resta de tamanho projeto? Nem talvez a planta.
A idéia foi rapidamente concebida, a planta executada; designou-se a companhia do Ginásio para ir representar no teatro novo; nada faltou, exceto o teatro.
III
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de quinze dias. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, s.d.