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#Contos#Literatura Brasileira

Felicidade pelo casamento

Por Machado de Assis (1866)

Tinha ela quarenta e cinco anos e era feia. O rapaz achou-a de uma beleza deliciosa e concluiu o casamento. 

A fortuna que a tia, sua esposa então, conservara acumulada, passou para as mãos de Azevedinho, e saiu das mãos dele como um feixe de foguetes incendiados. Em poucos meses Azevedinho viu-se obrigado a pôr termo aos seus caprichos, a fim de salvar alguma coisa e trabalhar para viver o resto da vida. 

Consta-me que se tomou um bom homem. 

Quanto a mim, resolvido o casamento, tratei de escrever a minha mãe, pedindo o seu consentimento. Ângela quis a todo custo acrescentar estas palavras: Perdi minha mãe. Quer substituí-la? — Ângela 

Veio a resposta daí a um mês. Minha mãe deu o consentimento, mas pedia instantemente que eu fosse, depois de unido, viver na província. 

Daí a poucos dias unia-me eu em matrimônio a Ângela de Magalhães. 

VIII 

Desde o primeiro dia do meu casamento abriram-se-me na vida horizontes novos. Todo o sentimento de reserva e de misantropia que caracterizava os primeiros anos da minha mocidade desaparecia. Era feliz, completamente feliz. Amava e era amado. Quando se tratou de irmos para a província surgiu uma dificuldade: partir era deixar os dois velhos tão meus amigos, o pai e o tio de minha mulher; ficar era não acudir ao reclamo de minha mãe. 

Cortou-se a dificuldade facilmente. Os dois velhos resolveram partir também. Em chegando a este desenlace a narrativa perde o interesse para os que são levados pela curiosidade de acompanhar uma intriga amorosa. 

Cuido mesmo que nestas páginas pouco interesse haverá; mas eu narro, não invento. Direi pouco mais. 

Há cinco anos que tenho a felicidade de possuir Ângela por mulher; e cada dia descubro lhe mais suas qualidades.

Ela é para meu lar doméstico: 

A luz,
A vida,
A alma,
A paz,
A esperança,
E a felicidade! 

Procurei por tanto tempo a felicidade na solidão; é errado; achei-a no casamento, no ajuntamento moral de duas vontades, dois pensamentos e dois corações. Feliz doença aquela que me levou à casa do Magalhães! 

Hoje tenho mais um membro na família: é um filho que possui nos olhos a bondade, a viveza e a ternura dos olhos de sua mãe. 

Ditosa criança! 

Deu-lhe Deus a felicidade de nascer daquela que é, ao lado de minha mãe, a santa querida da minha religião dos cânticos. 


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