Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Antes que Cases

Por Machado de Assis (1875)

Ângela está muito mais carinhosa com o marido do que até então. Alfredo atribuía esta mudança às circunstâncias atuais e agradeceu à boa estrela que tão venturoso o tornara. No quinto dia Epaminondas foi falar a Alfredo propondo-lhe ir pedir ao governo uma concessão e privilégio de minas em Mato Grosso.

— Mas eu não me meto em explorador de minas.

— Perdão; vendemos o privilégio.

— Está certo disso? perguntou Alfredo tentado.

— Certíssimo.

E logo:

— Temos além disso outra empresa: uma estrada de ferro no Piauí. Vende-se a empresa do mesmo modo.

— Tem elementos para ambas as coisas?

— Tenho.

Alfredo refletiu.

— Aceito.

Epaminondas declarou que alcançaria tudo do ministro. Tantas coisas disse que o primo, sabedor dos carapetões que ele pregava, começou a desconfiar.

Errava desta vez.

Pela primeira vez Epaminondas falava verdade; tinha elementos para alcançar as duas empresas.

Ângela não perguntou ao marido a causa da preocupação com que ele nesse dia entrou em casa. A idéia de Alfredo era tudo ocultar à mulher, pelo menos enquanto pudesse. Confiava no resultado dos seus esforços para trazê-la a melhor caminho. Os papéis andaram com uma prontidão rara em coisas análogas. Parece que uma fada benfazeja se encarregava de adiantar o negócio.

Alfredo conhecia o ministro. Duas vezes fora convidado para lá tomar chá e tivera além disso a honra de o receber em casa algumas vezes. Nem por isso julgava ter direito à pronta solução do negócio. O negócio, porém, corria mais veloz que uma locomotiva. Não se haviam passado dois meses depois da apresentação do memorial quando Alfredo, ao entrar em casa, foi surpreendido por muitos abraços e beijos da mulher. — Que temos? disse ele todo risonho.

— Vou dar-te um presente.

— Um presente?

— Que dia é hoje?

— Vinte e cinco de março.

— Fazes anos.

— Nem me lembrava.

— Aqui está o meu presente.

Era um papel.

Alfredo abriu o papel.

Era o decreto de privilégio das minas.

Alfredo ficou literalmente embasbacado.

— Mas como veio isto?...

— Quis causar-te esta surpresa. O outro decreto há de vir de aqui a oito dias. — Mas então sabia que eu...?

— Sabia tudo.

Quem te disse?...

Ângela titubeou.

— Foi... foi o primo Epaminondas.

A explicação satisfez Alfredo durante três dias.

No fim desse tempo abriu um jornal e leu com pasmo esta mofina:

Mina de caroço, Com que então os cofres públicos já servem para nutrir o fogo no coração dos ministros? Quem pergunta quer saber.

Alfredo rasgou o jornal no primeiro ímpeto.

Depois...

IX

— Mas em suma que tens? disse Tibúrcio ao ver que Alfredo não se atrevia a falar. — O que tenho? Fui à cata de poesia e acho-me em prosa chata e baixa. Ah! meu amigo quem me mandou seguir pela Rua da Quitanda?

« Primeiro‹ Anterior...678910Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →