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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Os Orizes

Por Machado de Assis (1875)

Machado de Assis (1839–1908) é autor do poema “Os Orizes”, integrante do livro Americanas. O texto apresenta um episódio de inspiração indígena, centrado no conflito, na bravura guerreira e na honra coletiva, dialogando com o indianismo do século XIX, mas filtrado por uma linguagem contida e reflexiva, característica da poesia machadiana.

I

Nunca as armas cristãs, nem do Evangelho

O lume criador, nem frecha estranha

O vale penetraram dos guerreiros

Que, entre serros altíssimos sentado,

Orgulhoso descansa. Único o vento,

Quando as asas desprega impetuoso,

Os campos varre e as selvas estremece,

Um pouco leva, ao recatado asilo,

Da poeira da terra. Acaso o raio

Alguma vez nos ásperos penedos,

Com fogo escreve a assolação e o susto.

Mas olhos de homem, não; mas braço afeito

A pleitear na guerra, a abrir ousado

Caminho entre a espessura da floresta,

Não afrontara nunca os atrevidos

Muros que a natureza a pino erguera

Como eterna atalaia.



II

Um povo indócil

Nessas brenhas achou ditosa pátria,

Livre, como o rebelde pensamento

Que ímpia força não doma, e airoso volve

Inteiro à eternidade. Guerra longa

E porfiosa os adestrou nas armas;

Rudes são nos costumes mais que quantos

Há criado este sol, quantos na guerra

O tacape meneiam vigoroso.

Só nas festas de plumas se ataviam

Ou na pele do tigre o corpo envolvem,

Que o sol queimou, que a rispidez do inverno

Endureceu como os robustos troncos

Que só verga o tufão. Tecer não usam

A preguiçosa rede em que se embale

O corpo fatigado do guerreiro,

Nem as tabas erguer como outros povos;

Mas à sombra das árvores antigas,

Ou nas medonhas cavas dos rochedos,

No duro chão, sobre mofinas ervas,

Acham sono de paz, jamais tolhido

De ambições, de remorsos. Indomável

Essa terra não é; pronto lhes volve

O semeado pão; vicejam flores

Com que a rudez tempera a extensa mata,

E o fruto pende dos curvados ramos

Do arvoredo. Harta messe do homem rude,



Que tem na ponta da farpada seta

O pesado tapir, que lhes não foge,

Nhandu, que à flor de terra inquieta voa,

Sobejo pasto, e deleitoso e puro

Da selvagem nação. Nunca vaidade

De seu nome souberam, mas a força,

Mas a destreza do provado braço

Os foros são do império a que hão sujeito

Todo aquele sertão. Murmuram longe,

Contra eles, as gentes debeladas

Vingança e ódio. Os ecos repetiram

Muita vez a pocema de combate;

Nuvens e nuvens de afiadas setas

Todo o ar cobriram; mas o extremo grito

Da vitória final só deles fora.



III



Despem armas de guerra; a paz os chama

E o seu bárbaro rito. Alveja perto

O dia em que primeiro a voz levante

A ave sagrada, o nume de seus bosques,

Que de agouro chamamos, Cupuaba

Melancólica e feia, mas ditosa

E benéfica entre eles. Não se curvam

Ao nome de Tupã, que a noite e o dia

No céu reparte, e ao ríspido guerreiro

Guarda os sonhos do Ibaque e eternas danças.

Seu deus único é ela, a benfazeja

Ave amada, que os campos despovoa

Das venenosas serpes — viva imagem

Do tempo vingador, lento e seguro,

Que as calúnias, a inveja e o ódio apagam,

E ao conspurcado nome o alvor primeiro

Restitui. Uso é deles celebrar-lhe

Com festas o primeiro e o extremo canto.



IV



Terminara o cruento sacrifício.

Ensopa o chão da dilatada selva

Sangue de caititus, que o pio intento

Largos meses cevou; bárbara usança

Também de alheios climas. As donzelas,

Mal saídas da infância, inda embebidas

Nos ledos jogos de primeira idade,

Ao brutal sacrifício... Oh! cala, esconde,

Lábio cristão, mais bárbaro costume.



V



Agora a dança, agora alegres vinhos,

Três dias há que de inimigos povos

Esquecidos os trazem. Sobre um tronco

Sentado o chefe, carregado o rosto,

Inquieto o olhar, o gesto pensativo,

Como alheio ao prazer, de quando em quando

À multidão dos seus a vista alonga,

E um rugido no peito lhe murmura.

Quem a fronte enrugara do guerreiro?

Inimigo não foi, que o medo nunca

O sangue lhe esfriou, nem vão receio

Da batalha futura o desenlace

Lhe fez incerto. Intrépidos como ele

Poucos vira este céu. Seu forte braço,

Quando vibra o tacape nas pelejas,

De rasgados cadáveres o campo

Inteiro alastra, e ao peito do inimigo,

Como um grito de morte a voz lhe soa.

Nem só nas gentes o terror infunde;

É fama que em seus olhos cor da noite,

Inda criança, um gênio lhe deixara

Misteriosa luz, que as forças quebra

Da onça e do jaguar. Certo é que um dia

(continua...)

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