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#Contos#Literatura Brasileira

Rui de Leão

Por Machado de Assis (1872)

Em 1835 aportou outra vez ao Rio de Janeiro o invencível Rui de Leão, disposto a não viajar mais e a esperar aqui o dia do juízo final. Achou o espírito público agitado com a política. Não havia loja em que se não conversava da cousa pública; e os nomes tais e tais eram citados como modelos do estadista, conforme pertenciam a esta ou aquela cor política.

É difícil estar entre políticos muito tempo sem adquirir a febre que os devora. Além disso Rui de Leão não tinha ensaiado esse gênero de distração. Nem a ciência, nem o amor, nem o jogo lhe apresentavam pasto suficiente ao seu espírito sedento de ocupação.

Para se calcular bem a situação do nosso herói basta ter em lembrança o tédio de um dia em que não temos nada que fazer. Multipliquemos esse dia pela eternidade e aí teremos a tortura moral deste verídico sujeito escolhido pelo destino para ser o exemplo único de uma aborrecida imortalidade. A política correspondeu aos desejos de Rui de Leão.

Desde que entrou em comunicação com os chefes de um dos partidos, viu logo que aquilo era turbilhão para uns trinta ou quarenta anos. "Ao menos", disse ele consigo, "passarei este tempo mais satisfeito até que descubra outro meio que me substitua a política." Fundou logo uma gazeta denominada A Alvorada, cujo programa era vago como a hora que o título fazia lembrar. Um dos períodos mais práticos era este:

Reunir todos os elementos de prosperidade em favor da liberdade, consubstanciar a ordem nas aspirações do país, transformar o torpor em atividade, eis o programa da imprensa independente e é o meu.

Os leitores gostaram deste programa; mas o jornal adverso, que se denominara O Grito da Nação, atacou os princípios da Alvorada com esta simples pergunta:

Onde é que o colega viu que a liberdade prática, única, resoluta, firme, invencível pode, abraçando elementos contrários, ostentar princípios, ideias, melhoramentos, que, simbolizando a honra de uma época, destruam a poeira de um passado recente?

Tal foi o começo de uma polêmica estrondosa que ainda hoje existiria se a morte igual para os homens e as gazetas não tivesse destruído o Grito e a Alvorada, dentro de alguns meses.

Os talentos de jornalista de nosso Rui de Leão foram apreciados por amigos e adversários: efetivamente, Rui tinha a capacidade especial que se exige na imprensa política. O Grito da Nação andou atrapalhado durante a existência da Alvorada, que dias poucos lhe sobreviveu.

O partido de Rui esperou a primeira ocasião para apresentá-lo candidato por uma das províncias, o que aconteceu pouco tempo antes da morte da gazeta. A candidatura foi aceita pelos caudilhos da localidade. A Alvorada mencionou o fato como a aurora de uma grande vida política, pois o digno Rui de Leão era, nem mais nem menos, um homem de Plutarco.

- Quem é este Rui de Leão? - perguntaram uns.

- Não sei - respondiam outros -, mas parece que é um grande homem.

- Parece que sim.

Onde quer que se falasse de Rui, manifestava-se logo grandes esperanças em favor dele. Se ele passava, era apontado como um grande político, um Pitt, um Pombal. De maneira que, antes de entrar no parlamento, já o nosso Rui de Leão tinha a reputação feita. Se morresse logo, morria em cheiro de santidade. Mas como morreria o imortal? Foi eleito.

Os leitores me dispensarão de dizer o que houve quando a pessoa deste ilustre doutor penetrou no recinto da Cadeia Velha. Cumprimentado e abraçado por amigos, olhado com desconfiança por adversários, Rui de Leão era o homem da situação, a esfinge que daria a palavra do futuro. Quando algum deputado orava não deixava de aludir delicadamente ao redator da Alvorada, como um dos homens mais eminentes do país e da câmara.

Numerosos apoiados acolhiam estas expressões de justiça. Durante uns trinta dias esteve calado o novo representante da nação, com grave desgosto dos seus amigos, que atribuíam grande poder de palavra a um homem tão insigne no uso da pena. Os adversários, que tinham a mesma opinião, estimaram aquele silêncio e só desejavam que continuasse do mesmo modo.

Um dia, porém, no meio do grande barulho da assembleia, pediu a palavra o nosso Rui de Leão. Fez-se imediatamente profundo silêncio; os deputados correram a fazer grupo a volta do orador; o povo das galerias debruçou-se mais para não perder nada, e o próprio presidente, pondo a mão em forma de concha atrás da orelha, preparou-se para ouvir a estreia parlamentar do redator da Alvorada. Modesto e moderado em suas aspirações, Rui de Leão começou assim o seu discurso:

Senhor presidente. Das pessoas que o país mandou representá-lo neste recinto, eu sou, sem dúvida, o mais humilde e o menos competente (Não apoiados). Vejo, Sr. presidente, que me rodeiam as capacidades do país, não só entre os meus amigos como entre os meus adversários (Muito bem!) porque eu, senhores, quando contemplo os talentos, apreço as opiniões (Sensação). Nada valho, senhores...

Muitas vozes: Não apoiado!

O Sr. X.: Vale muito...

(continua...)

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