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#Contos#Literatura Brasileira

Valério

Por Machado de Assis (1874)

Daquelas duas criaturas a que estava tranqüila era Hélvia; a que estava comovida e envergonhada era Valério. Trocavam-se os papéis.

Depois que se sentaram, disse Hélvia:

— Já amou?

A alma de Valério deu um pulo ao ouvir estas palavras. O moço não soube que responder. Fitou os olhos da moça, abaixou-os depois como a donzela que ouve uma confissão de amor. Ela repetiu a pergunta. Valério murmurou:

— Amo.

— Ainda bem! disse ela, compreender-me-á então; só quem amou, compreenderá o passo que dei.

— É inútil defender-se, disse Valério, eu agradeço-lhe até esse passo.

— Tanto melhor! Obrigada!

Hélvia soltou estas palavras com voz trêmula; duas lágrimas começaram a tremer-lhe nos olhos, eram as avançadas de uma legião de lágrimas que estavam a saltar-lhe e não se detiveram.

Valério levantou-se e correu a Hélvia, quando esta, pondo a cara nas mãos, chorava e soluçava como se uma grande dor lhe apertasse o coração. Animava-se a estátua; aquela que parecia de gelo era de fogo.

Houve um prolongado silêncio. A moça enxugou os olhos, e Valério sentou-se triste. Triste, porque as lágrimas de Hélvia queriam dizer que não se tratava de um amor nascente, mas talvez de um amor contrariado. Compreendeu de um lance que era chamado como salvador; outro talvez se sentisse humilhado; Valério, não. Deixou que a moça pudesse falar e disse-lhe:

— Que posso fazer para que seja feliz?

— Tudo.

— Juro-lhe que o farei.

Hélvia contou então ao rapaz que amava o primo, e era amada por ele; mas que, tendo o pai brigado com ele, lhe proibira voltar à casa e ela perdera a esperança de que o pai consentisse jamais no casamento. Queria que Valério interviesse para que o primo voltasse à casa e se reconciliasse com o coronel. O resto viria por si.

— Há muito que lhe queria falar; mas era impossível. Aproveitei a indisposição de mamãe, que desde ontem está na cama, para lhe dizer isto.

— Por que não me escreveu?

— Não podia, e, ainda que pudesse, não tinha certeza de convencê-lo com algumas palavras frias escritas num papel.

Valério prometeu interceder em favor do namorado proscrito. Para isso tomou informações a respeito do rapaz para ir à casa dele. Depois mudou de plano. Advertiu que entender-se com ele era dar à intervenção um caráter de serviço pouco delicado, e achou melhor servir unicamente à moça, o que lhe parecia mais próprio.

VII

O coronel resistiu ao primeiro ataque.

— Pede-me por um pelintra, disse ele a Valério, não conhece aquela bisca; é um peralta que me não respeita, e até chegou a ter a petulância de amar-me cá a pequena.

— Está feito, ele é rapaz.

— Pois será, será; mas eu não dou minha filha a um valdevinos daquela laia.

— Mas eu desejava...

— Servi-lo-ei noutra ocasião, isto não.

Valério calou-se; achou melhor adiar o ataque para mais tarde. O coronel ainda falou a respeito do sobrinho, e vendo que Valério nada mais dizia, calou-se também. Ao cabo de cinco dias resolveu falar-lhe outra vez; mas dessa vez, foi o coronel quem primeiro tocou no assunto.

— Ainda pensa no tratante do meu sobrinho?

— Ainda. E o senhor?

— Eu estou na mesma.

— Perdão, sr. coronel; eu não creio que seu sobrinho mereça ódio; fez algumas extravagâncias de rapaz, mas... é um caráter... quero dizer, é um sobrinho, um parente.

— Veja lá; nem o senhor se atreve a elogiá-lo; apenas o desculpa. Conhece-o bem? Valério hesitou; o coronel, que fizera a pergunta com intenção de perscrutar de onde vinha o empenho, compreendeu logo que Valério estava influenciado pela filha. — Conheço-o alguma coisa, disse finalmente Valério; e não acho que seja um rapaz perdido.

— Há de lá chegar. Não falemos mais nisto.

Valério compreendeu a necessidade de falar ao rapaz, a fim de não comprometer a moça, caso alcançasse a reconciliação. Jaime recebeu-o com alguma indiferença; estimou entretanto que a rapariga tivesse pedido por ele, e disse que a amava loucamente. Este loucamente foi dito com a mesma tranqüilidade com que ele diria:

— Está muito calor!

— Pobre moça! disse Valério consigo.

O coronel foi o primeiro a renovar o assunto. Outro mais sagaz que Valério, ou mais experimentado, teria compreendido que o coronel estava disposto a reconciliar-se com o sobrinho, e apenas recusava para ser vencido.

Foi o que aconteceu no fim de um mês. O coronel consentiu na reconciliação; e Valério atribuiu isso ao prazer que lhe causou o novo folheto político que lhe levara pronto. Foi Valério quem conduziu Jaime à casa do coronel e assistiu à reconciliação do tio com o sobrinho que foi glacial e indiferente.

Hélvia apertou-lhe a mão com reconhecimento :

— Devo-lhe a vida! disse ela.

— Eu devo-lhe a felicidade de a ter feito feliz, respondeu Valério.

O moço dizia a verdade. Tinha certa inclinação pela moça; mas os seus sentimentos generosos venceram tudo; e o seu amor nascente desapareceu diante da glória e do prazer de tornar a moça feliz.

Hélvia não perdeu tempo. Disse ao primo que a pedisse ao pai; e este, depois de alguma recusa, mais aparente que real, concedeu-lha.

(continua...)

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