Por Machado de Assis (1877)
Camila respondeu com um muxoxo de faceirice que bem exprimia a vaidade satisfeita. O painel era a sua própria apoteose. Que importava que a Vênus ali pintada fosse apenas uma Vênus, em vez de uma Santa Cecília e fugisse do céu em vez de caminhar para ele? Era o seu retrato, tanto bastava. A vaidade, porém, não falava no ânimo do artista; ele via a moça radiante, como um aplauso e não se deixava levar do aplauso. Contemplava a obra, ainda longe do ideal que desejava dar ao mundo; via só o que estava feito e o que havia por fazer.
Dali em diante, Camila foi admitida a vê-lo trabalhar no painel; ele retificava uma linha contemplando-lhe o rosto, avivava a expressão dos olhos fitando os dela. Camila orgulhava-se da obra; e nunca o famoso gato que o marido dizia haver no cérebro da moça se agitou mais freqüentemente, nem mais súbito passou do mole afago à áspera irritação. A mulher de Luís Borges parecia subir ao céu à medida que Vênus descia; as ocupações caseiras eram-lhe já agora insuportáveis; ríspida com todos, quase só era afável com o rapaz.
Enfim o painel foi concluído, certo dia em que o advogado e a mulher saíram a jantar fora. De noite, Silvestre deu a notícia ao advogado.
— Sim? clamou este. Não lhe quero dar um abraço antes de ver a obra; mas prometo-lhe que se for qual a esperamos, fica com duas costelas partidas.
Silvestre sorriu.
— Verá amanhã de tarde, disse ele.
De manhã acabado o almoço, Camila subiu ao aposento do jovem pintor. O painel estava descoberto; Silvestre sentado na borda da janela que era baixa, contemplava a namorada. Não a viu entrar, não lhe ouviu os passos sequer. Camila parou a olhar para ele. Ao cabo de alguns minutos, aproximou-se lentamente; de pé, ao lado do artista, também ela ficou largos minutos a namorar a obra. Quanto tempo ali estiveram? Nenhum deles poderia dizê-lo. Silvestre acordou enfim; a sua mão, entre as de Camila, tremia de comoção.
— Não é tudo o que eu sonho, disse ele; mas respiro enfim, porque eu precisava tirar isto de mim.
Camila não lhe disse nada, seu rosto, sereno e expansivo alguns minutos antes, tornara se sombrio e o olhar aterrado.
— Que é? perguntou Silvestre.
— Não me havia lembrado nunca... este quadro... Se outros o virem, se for exposto ao público... ver-se-á o meu retrato...
— E então?
— Luís não há de querer.
— Mas por quê?
— Ora, você bem sabe... são escrúpulos. Oh! Luís não há de consentir nunca! Mas que loucura foi a nossa?... Eu devia tê-lo impedido desde que você começou. A comoção crescia; a moça andava de um para outro lado, ora falando a Silvestre, ora consigo, Silvestre fê-la parar, segurando-lhe em uma das mãos.
— Descanse, disse ele.
— Como?
— Não aparecerá o quadro em público.
Os olhos de Camila responderam primeiro que os lábios.
— Sim? disse ela.
— Afianço-lhe.
— Mas...
Descanse; será um quadro de família; ficará no lugar mais escondido da casa, ou no mais público, à vontade do dr. Borges.
Camila voltou os olhos para o quadro.
— Mas então, disse ela tristemente — perderá você a reputação; seu trabalho não será visto de ninguém.
— Que importa? Eu tinha necessidade de o fazer, não de o expor. É bonito?
— Delicioso!
— Isso me basta!
Silvestre voltou a sentar-se na borda da janela. Aproximando-se a moça, referiu ele minuciosamente toda a sua curta vida, curta para os fatos, longa para os sentimentos. Estes, sobretudo, ninguém os conhecia ainda; só ele podia repetir as comoções sentidas, as lutas anteriores, os sonhos desfeitos e renascentes, labutar da vocação, que acha obstáculos em cada pedra do caminho e os doma e vence. A moça ouviu-o com a mais terna e submissa das atenções. Era uma alma que se despia diante dela, que lhe confiava os mais íntimos segredos.
— Mas, disse ela quando ele acabou — se não me tivesse conhecido teria feito a sua Vênus tão bonita?
Silvestre pôde refletir e não responder. A resposta afirmativa ou não, seria a expressão da verdade? Mas a mulher de Luís Borges insistiu; força era dizer alguma coisa.
— Não faria, murmurou ele.
— Jura?
— Não são coisas que se jurem; mas creio que não podia fazer tão bonita, se a não conhecesse.
Oh! eterna vaidade! A resposta de Silvestre encheu de luz e alegria o rosto da moça; ela agarrou-lhe as mãos e beijou-as. Casto era o movimento; mas a viveza foi tal que o pobre rapaz empalideceu e entrou a olhar assustado para a Camila. Os olhos da moça, pregados nele pareciam devorá-lo. Nunca a fatuidade olhou mais complacentemente, nem com tanto fogo, mas também nunca a alma de um rapaz foi mais iludida. Silvestre, com as mãos para trás, fincadas no telhado, parecia querer fugir à moça.
Vaidoso! pensou Camila. Depois proferiu risonha este gracejo insulso:
— Se Luís morresse, você casava comigo?
— Não! não! murmurou Silvestre.
Camila recuou dois passos da janela; a palidez de Silvestre assustava-a. Ia a falar, mas já ele não a podia ouvir, atirando o corpo para trás rolara pelo telhado abaixo até a rua; Camila soltou um grito...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Silvestre. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1877.