Por Machado de Assis (1864)
Nesta luta, esteve toda a noite. Quis dormir, não pôde; mal fechava os olhos surgia-lhe o espectro de Sara pedindo contas do coração que iludira e da vida que estrangulara. Enfim, sobre a madrugada pôde conciliar o sono. Eram nove horas, quando se levantou. Quem olhasse para ele, daí a meia hora, reconheceria que o sentimento do dever triunfara, ao menos momentaneamente.
Eduardo vestiu-se e saiu. Tomou um tílburi e dirigiu-se para a ponte das barcas. Destinava-se a S. Domingos. Ia decidido a falar à moça, mesmo à custa do seu amor próprio.
A demora do vapor o contrariou. Tardava-lhe ver-se junto do leito da agonizante para dizer-lhe:
— Vive!
Ora, a agonizante estava realmente agonizante.
Mas quem a visse não suporia que a morte se avizinhava tanto dela. Tinha o rosto e os olhos serenos. Sorria mesmo ao pai, ao irmão e ao tio, mas com o sorriso de quem entrevê as glórias eternas e já as compara às glórias perecíveis desta vida. O cortinado branco do leito parecia que amparava da luz um ente que chegava ao mundo e não um ente que se ia dele, desgostoso e desiludido.
Em uma pequena mesa ao pé da cama havia um copo d’água, uma cruz de ouro, a do baile, e uma rosa branca seca. Esta rosa era a que Eduardo dera a Sara em troca de outra à porta do jardim. Sara, de tempos em tempos, voltava os olhos para a flor, ficava muda e entrava a contemplá-la. Nessas ocasiões, o pai da doente procurava distraí-la com algum outro objeto, temendo que na contemplação da flor se lhe avivassem as lembranças do amor que a matava.
Foi em uma dessas ocasiões, que Almeida se lembrou de uma notícia e disse a Sara:
— Minha filha, vais ter uma visita.
— Quem é?
— Adivinha...
— Não sei, disse Sara sorrindo.
— D. Maria Luísa.
Este nome fez estremecer Sara. O pai dava-lhe maior sofrimento procurando tirar-lhe outro menor. Com efeito, a flor lembrava a Sara o tempo feliz dos seus amores; o nome de Maria Luísa lembrava-lhe a traição de Eduardo. Reconhecendo o que fizera, Almeida procurou diminuir o efeito.
— Verás como ela soube resignar-se... Espero que o exemplo te sirva, e que das suas palavras colhas uma lição e um conforto, e finalmente que vivas... Ouviste? que vivas! Sara sorriu-se.
Houve um silêncio.
Depois, passando a mão pela cabeça, pediu água.
Deram-lha.
— Estás melhor, não, Sara? perguntou Almeida. Olha, é preciso, é preciso; fazes anos amanhã. Quero que presidas à mesa... sim?
— Estou melhor, estou, meu pai. Mas, diga-me, como sabe da visita de Maria Luísa ?
— Passei ontem lá e subi. Não sabia ainda que estavas doente. Quando lho disse, ficou muito pesarosa. Depois, disse-me que viria cá fazer-te uma visita.
O resto do dia passou-se sem novidade. Sara não saía daquela serenidade, mas realmente não era para a vida, era para a morte que caminhava.
Enfim, no dia seguinte, isto é, no dia em que Eduardo resolvera ir salvar a moça, aparecem, à porta de Almeida, Maria Luísa com sua mãe.
Sara recebeu a sua rival, ou antes a sua co-mártir, como se fora uma irmã querida, por quem se espera para morrer. Maria Luísa chorou muito; e, por uma inversão dolorosa dos papéis, era Sara quem consolava a viúva.
— Mas é por ti que eu choro, meu anjo! dizia Maria Luísa.
— Por mim?
— Sim, por ti, que não tens coragem, que te quebraste ao primeiro embate da vida...
— Não digas isso... Eu estou boa... Nada tenho... Sofri, é certo; mas passou... Olha, faço hoje anos... Hás de jantar comigo... Vou levantar-me logo... Verás... Verás... Senta-te... Maria Luísa olhou com olhos rasos de lágrimas para a pobre moça.
— Ainda bem, minha filha, disse Almeida procurando sorrir, ainda bem que te mostras assim. Isso é que eu quero. Não te importes com os males da vida; todos sofrem; mas faze como fazem muitos: fica sobranceira a tudo.
— Dezessete anos! murmurava a viúva... é a aurora da vida...
As duas conversaram largamente. A mãe de Maria Luísa e o pai de Sara deixaram o quarto; as duas podiam folgadamente falar do que as tornara infelizes. Era assim mais fácil a Maria Luísa inspirar a Sara os sentimentos de coragem e sobranceria a que ela própria devera não ter sucumbido. Chegou mesmo a aventurar uma idéia de vingança como satisfação do coração ofendido.
Mas aqueles dois corações, que concordavam em um ponto, não se entendiam naquele. Sara não era feita para resistir a uma comoção como a que a prostrara. Ouvia sorrindo Maria Luísa, mas abanava a cabeça a tudo. E quando a viúva, para decidi-la mais, lembrava-lhe que poderia sucumbir deveras, Sara respondia que estava perfeitamente boa e não podia inspirar cuidados a ninguém. Esta resistência aos que a chamavam à vida comovia ainda mais. Só havia um meio, talvez, de salvar Sara: era a presença e o amor de Eduardo.
Esta idéia passou rápida pelo espírito de Maria Luísa. A nobre mulher não discutiu consigo nem o ato, nem as conseqüências, nem o seu coração. Adotou o pensamento como se fora inspiração do céu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Questão de vaidade. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1864.